Geração 82: o rock brasileiro faz 40 anos

No mítico “verão de 1982”, a fundação do Circo Voador, o filme Menino do Rio e a Rádio Fluminense mudaram a cara do Brasil ao espalhar a onda boa da juventude carioca pelo país

Alexandre Matias Publicado em 10/06/2022, às 08h00

Lobão, Baster Barros, Marina Lima e Ritchie
Cristina Granato

Não tinha a menor chance de dar certo, então foda-se, vamos fazer!” Assim o cantor e compositor Leo Jaime sintetiza o espírito de uma das temporadas artísticas mais intensas da vida cultural brasileira recente. O verão de 1982 no Rio de Janeiro liberou vontades que vinham sendo represadas desde os anos 1960, que explodiram como marca da juventude que iria transformar a nova década. O rock nacional foi o principal fruto deste período, mas não o único – e sua influência mudou a vida cultural brasileira para muito além da música.

Evandro Mesquita e Fernanda Abreu recebem o disco de ouro pela Blitz em 1985 (Foto: Cristina Granato)
Evandro Mesquita e Fernanda Abreu recebem o disco de ouro pela Blitz em 1985 (Foto: Cristina Granato)

 

A virada de 1981 para 1982 assistiu ao primeiro voo do Circo Voador, no dia 15 de março de 1982, ainda localizado no Arpoador. Esta pode ser considerada a primeira semente do que hoje é referido como a geração do rock brasileiro dos anos 1980, que completa quatro décadas como uma das maiores utopias da história da juventude no país. A princípio um projeto temporário, surgido dos resquícios de um grupo de teatro transgressor – o Asdrúbal Trouxe o Trombone –, o Circo logo capturou a veia pop daquele momento ao lado de outros acontecimentos, como a estreia nos cinemas de Menino do Rio, dirigido por Antônio Calmon. O filme estrelado por André de Biase no papel-título conectou-se com a aurora daquela nova juventude carioca, que mais tarde serviria de modelo a outros projetos de maior escopo, como o seriado Armação Ilimitadae as novelas Top Modele Vamp.

Aquele mesmo verão também assistiu a uma mudança drástica na programação de uma rádio de pequeno porte localizada em Niterói, cidade vizinha à capital do estado. A Fluminense FM foi a primeira rádio do Brasil dedicada apenas a tocar rock, em uma missão quixotesca dos programadores Luiz Antonio Mello, Sergio Vasconcellos e Amaury Santos. Percebendo uma transformação comportamental em andamento, eles propuseram mudanças radicais na emissora, trabalhando apenas com locutoras femininas e abrindo espaço para o rock – o apelido “a Maldita” acabou sendo eternizado na primeira transmissão, em 1° de março de 1982.

Não foi algo que surgiu do nada. “Os anos 80 beberam muito dos anos 60 e 70”, lembra Evandro Mesquita, vocalista e fundador da Blitz, que na década anterior foi um dos integrantes do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. “Toda aquela coisa do Woodstock… E as músicas que a gente gostava de ouvir não tocavam nas rádios.”

Havia pequenos “caldeirões sociais” que proliferavam à distância do mainstream, e que, aos poucos, incubaram a revolução cultural que eclodiu naquele verão. Um deles foi a descoberta da praia de Saquarema como o refúgio para uma nova geração de surfistas nos anos 1970. “Era um Havaizinho nosso, a nossa Jamaica”, Mesquita relembra, sorrindo. “A gente alugava a casa do pescador e ficava cozinhando aquele arroz integral duro, com muita fome de viver. Tinha as fogueiras, a espiritualidade junto à natureza, a troca de informações de gente que ia pra fora ver o show do Pink Floyd, os gringos meio mochileiros, a gente compondo em português e esperando os fins de semana quando vinham as meninas, aquele cardume de inhas: Lurdinha, Leilinha, Claudinha… A vida pulsava muito forte.”

Evandro também recorda-se do tempo em que Dadi, baixista que era amigo da turma, começou a se embrenhar no primeiro escalão da música pop brasileira da época, primeiro tocando com Jorge Ben e depois com os Novos Baianos. O músico era um ídolo para os amigos. “A gente convivia com os Novos Baianos, vi muito ensaio deles, no galinheiro do sítio, com o pau quebrando, Pepeu, Jorginho, Baby, todo mundo… Era um oásis!”, emociona-se o vocalista da Blitz, enfatizando também a importância do futebol para aqueles encontros.

“A gente levava a galera da praia pra jogar e eles traziam os jogadores profissionais, como Jairzinho, , Paulo César Lima… Eram clássicos maravilhosos, jogados num campo em Vargem Grande, lindo, cercado de bananeiras, um puta gramado”, lembra Evandro, enumerando outras influências de seu futuro grupo: “Mutantes, Jovem Guarda, Novos Baianos, Zé Kéti, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Led Zeppelin, Beatles e Stones, tudo isso vinha no nosso liquidificador”.

) Ney Matogrosso parabeniza Cazuza em sua festa de aniversário de 28 anos, em abril de 1986; (ao lado) Leoni e João Barone em 2003 (Foto: Cristina Granato)
) Ney Matogrosso parabeniza Cazuza em sua festa de aniversário de 28 anos, em abril de 1986; (ao lado) Leoni e João Barone em 2003 (Foto: Cristina Granato)

 

Leo Jaime recorda-se do período anterior ao Circo Voador como o prenúncio de que algo novo iria acontecer. As festas e shows lotavam apenas no boca-a-boca, sem precisar de cartazes pela cidade ou notinhas nos cadernos de cultura dos dois jornais do Rio da época, O Globoe Jornal do Brasil. Eram encontros de uma nova geração que se reunia em um ponto de Ipanema onde uma geração anterior encontrou refúgio, o Pier de Ipanema, região também conhecida desde o início dos anos 1970 como “dunas do barato” ou “dunas da Gal”.

A construção do horroroso pier que levava o emissário submarino – com os dejetos cariocas – para o alto mar não só mudou o relevo da praia, criando as tais dunas que batizaram o local, como mexeu com a força das ondas do litoral, tornando-as boas para o surfe. A turma que se reunia ali durante aquela década transpirava a contracultura que sobrevivia no período militar, ao mesmo tempo em que preparava o terreno para a geração seguinte.

“O pessoal da [publicação de humor] Casseta Popularqueria juntar um dinheiro para lançar a primeira revista, aí montou esse barzinho em Botafogo em uma obra que estava parada”, conta Leo Jaime, sobre as primeiras movimentações da cena dos anos 1980. “Foi ali que o Evandro viu a Fernanda [Abreu, cantora] pela primeira vez e depois a chamou para a Blitz. Era um ponto de encontro da galera que ia à praia no Posto 9 – que não era o Posto 9 como é hoje –, na frente do hotel Sol Ipanema. Aí vinha o Alvin, o Cazuza, todo mundo...”

“Desde a época do Pier, nos anos 70 e muitos, a trincheira que aquela obra fazia era uma trincheira do underground”, lembra Evandro Mesquita. “Era uma época de grande repressão, mas ali era uma zona de liberdade inacreditável, de união de várias tribos: surfistas, peladeiros, galera do jiu-jitsu, artistas plásticos, cantores... Todo mundo trocava informações, e topless e cabelo na cintura.”

Leo Jaime lembra que neste mesmo período começou a tocar com a banda João Penca e Seus Miquinhos Amestrados – que nem era uma banda de verdade, mas um grupo de amigos que moravam no mesmo prédio e gostavam de fazer música e piada juntos. Quando Leandro Verdeal, que depois passaria a se apresentar como Selvagem Big Abreu, soube que aquele goiano recém-chegado de Brasília também compunha rockabillys, ele o chamou para tocar com sua banda.

Com Jaime, os Miquinhos montaram outra banda, chamada Nota Vermelha, que contava com Fernanda Abreu nos vocais e Fábio Fonseca nos teclados, para revezar com os próprios Miquinhos, tocando quinzenalmente naquele novo bar. “Mas não existia um circuito rock, não tinha espaço para o rock, a banda tocava em festas”, lembra Jaime. “O rock era uma coisa considerada iníqua mercadologicamente. Raul Seixas não era vendedor, a Rita Lee só foi começar a vender quando fez uma pegada mais pop com o Roberto [de Carvalho]. O rock não era uma solução mercadológica.” O jogo começou a mudar a partir do sucesso orgânico dos Miquinhos, que começavam a tocar em diferentes festas, sempre trazendo um público enorme.

Paulo Ricardo, Paula Toller e Leo Jaime soltam as vozes e harmonizam, em 1989 (Foto: Cristina Granato)
Paulo Ricardo, Paula Toller e Leo Jaime soltam as vozes e harmonizam, em 1989 (Foto: Cristina Granato)

 

Jaime também lembra da primeira noite em que o grupo fez um grande show, quando abriu para o grupo Gang 90 & Absurdettes, que tocou em São Paulo após o sucesso no festival MPB-Shell e ao emplacar uma música (“Perdidos na Selva”) em uma novela da Globo. “Nesta noite, um dos Miquinhos não foi e o Cazuza foi um dos backing vocals. O baterista da Gang 90 era o Lobão, e na plateia, quem assistiu encantado com os Miquinhos foi o Eduardo Dusek”, continua o cantor.

Apaixonado pelos Miquinhos, Dusek (que atualmente utiliza o sobrenome Dussek) os chamou para fazer um espetáculo em conjunto e a ideia acabou se metamorfoseando no que seria o segundo disco solo do cantor, que havia chamado atenção no festival do ano anterior com a faixa apocalíptica “Nostradamus”. Com Leo Jaime como integrante fixo, passaram seis meses ensaiando para o novo disco sem avisar ao diretor da gravadora, que dispensou o grupo carioca, com o argumento de que rock não vendia.

Transtornado, Dusek conseguiu manter os Miquinhos como vocalistas de apoio para o disco e convenceu a gravadora a gravar uma música de Leo Jaime, “Rock da Cachorra”, um rockabilly que chegou ao topo das emissoras de rádio ainda em 1981. Mas como Dusek era de uma outra geração e pertencia mais à MPB do que ao rock, aquela onda incipiente não chegou a decolar. Ao mesmo tempo, a turma de Evandro Mesquita aos poucos consolidava sua nova banda como uma das principais novidades do Rio de Janeiro naquele período.

A Blitz surgiu enquanto o grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone dividia o palco do Teatro Ipanema com a cantora Marina (que na época ainda não usava o sobrenome Lima artisticamente). Evandro Mesquita era um dos protagonistas da apresentação Aquela Coisa Toda, e entre a peça e o show, ele e Ricardo Barreto, que se tornaria o guitarrista da banda, aproveitavam a possibilidade de tocar com microfones e amplificadores, algo que só conseguiam fazer em Saquarema, em uma casa de prostituição chamada Trapézio (apelidada pela turma de “Trepázio”). Eles começaram a mostrar as músicas para Lobão, que tocava bateria com Marina.

Até que uma namorada de Evandro disse que estava trabalhando na inauguração de um bar chamado Caribe, em São Conrado, criado pelos donos da grife Company, que precisava de uma banda para a noite inaugural. Sem que o grupo sequer existisse de fato, Mesquita disse que tinha uma banda e chamou Lobão para criá-la. O baterista deu a ideia de batizá-la de Blitz, pelo simples fato de que sempre eram parados pela polícia quando iam ensaiar em sua casa, no Juá.

 Lulu Santos e Leo Jaime se encontram na peça Nardja Zulpério, em 1991 (Foto: Cristina Granato)
 Lulu Santos e Leo Jaime se encontram na peça Nardja Zulpério, em 1991 (Foto: Cristina Granato)

 

Paula Toller e Herbert Vianna, então um casal, comparecem ao show de Lulu Santos, em 1985 (Foto: Cristina Granato)
Paula Toller e Herbert Vianna, então um casal, comparecem ao show de Lulu Santos, em 1985 (Foto: Cristina Granato)

 

Outro grupo importante deste período foi o Vímana, que já havia se desfeito no começo da década, mas que via alguns de seus integrantes – Ritchie, Lulu Santos e o próprio Lobão – aos poucos tentarem carreiras-solo. “A gente foi em vários shows do Vímana”, lembra o baixista Leoni, que ainda não havia criado o grupo Kid Abelha e os Abóboras Selvagens. Na época, ele e o baterista da primeira formação do Kid, Beni Borja (que faleceu no fim de 2021), começaram a ter aulas de música com os integrantes do Vímana. “O Beni fez aulas com o Lobão na minha casa, enquanto eu fazia com o Fernando Gama, baixista do grupo. A gente conheceu o Ritchie e o Lulu Santos antes de a banda acabar. E foi o Lulu quem produziu nosso primeiro compacto, naquela época.”

“O Lobão e o Fernando Gama faziam um duo de violão tocando Villa-Lobos, no intervalo, e o Lulu era um músico de rock, não tinha espaço, era em quem eu menos botava fé”, continua Leoni.

Os integrantes do grupo João Penca e Seus Miquinhos Amestrados vivem a vida louca no programa Cassino do Chacrinha, em 1988 (Foto: Cristina Granato)
Os integrantes do grupo João Penca e Seus Miquinhos Amestrados vivem a vida louca no programa Cassino do Chacrinha, em 1988 (Foto: Cristina Granato)


A energia estava no ar. A sensação de que alguma coisa iria acontecer e que partiria daquela nova geração já dominava o Rio de Janeiro, a ponto dos dois principais jornais da cidade apontarem a chegada de “uma nova era”. O “verão do rock” não só marcava aquela novidade, como também anunciava o rock como uma coisa passageira, de estação. Aproveitar este espírito foi crucial para o passo definitivo daquele movimento.

Parte daquela geração era impactada pelos espetáculos do Asdrúbal Trouxe o Trombone, uma versão mais pop e musical de outros grupos teatrais do período, como o Arena e o Oficina, “As pessoas diziam que adoravam nosso show, mas era uma peça”, lembra Mesquita. Em apresentações como Trate-Me Leão, Aquela Coisa Toda e A Farra da Terra, o Asdrúbal contava com os novatos Regina Casé, Patricia Travassos, Perfeito Fortuna, Luís Fernando Guimarães e Hamilton Vaz Pereira, além do futuro líder da Blitz, e estava no auge de sua carreira no início dos anos 1980, quando começou a se desfazer. E um dos primeiros passos rumo à dissolução foram três cursos ministrados por integrantes do grupo teatral.

“Foram cursos realizados no Parque Lage”, lembra Leo Jaime, que mais tarde seria chamado para dirigir a parte musical de um dos espetáculos formados naquele processo. “Do curso do Evandro, saiu o grupo Banduendes por Acaso Estrelados, que ele fazia com a Patrícia Travassos. O Hamilton descobriu a Lídia Brondi no curso dele. E no curso do Perfeito, estavam a Katia Bronstein, o Cazuza e a Bebel Gilberto”, continua o cantor, que lembra de ter ouvido pela primeira vez uma música do futuro vocalista do Barão Vermelho nesse período. “Eu nem sabia que o Cazuza tocava violão e ele pegou e tocou ‘Down em Mim’. Eu não acreditei”, conta.

O espetáculo que concluiria a turma de Perfeito Fortuna, com direção musical de Leo Jaime, pedia um palco. Mas as condições para se apresentar em teatros não se alinhavam com o que o grupo podia arcar, e não existiam casas para abrigar shows daquele porte.

Enquanto isso, a Blitz metia-se em várias roubadas e shows em lugares inusitados. Mas a banda suspendeu suas atividades quando Evandro foi para Nova York, passar uma temporada e “comprar um Ovation”, se referindo ao desejado violão importado que todos queriam aqui no Brasil. A chuva de referências que recebeu nos Estados Unidos o fez voltar empolgado para o país e reunir novamente a Blitz, desta vez com duas vocalistas mulheres, para inaugurar o Circo Voador.

Foi quando alguém descobriu uma lona de circo abandonada na Praça XI, no centro do Rio de Janeiro, e o ator Perfeito Fortuna pensou transformá-la no teto comum para as diferentes transformações culturais que estavam tomando conta da cidade. Em princípio a lona foi armada na Praça da Paz, mas ele já pensava em um novo cenário para realizar aquele sonho. “A gente via que aquela juventude queria berrar mais alto”, lembra Fortuna.

“A ideia de uma lona que abrigasse todas as artes e que não pagasse os tais 20% que os teatros cobravam era sensacional. Mas aí o Perfeito quis fazer no Arpoador, que era a ‘sala’ do Rio de Janeiro. Será que era possível?”, lembra Mesquita, detalhando a estratégia de Fortuna, que passou a acompanhar Júlio Coutinho, então prefeito do Rio de Janeiro à época, nas sessões de cooper que o mesmo fazia pelas manhãs. Depois, tentou convencer dona Zoé, esposa de Chagas Freitas, então governador do estado, que facilitou os trâmites burocráticos para que o Circo saísse do papel.

“Imagina, uma rapaziada cabeluda, tudo doidão, montando um circo no Arpoador, o metro quadrado mais caro do Brasil?”, lembra Fortuna, que também reforça outra mudança no que dizia respeito ao formato do espetáculo. “A gente não podia construir nada que ficasse fixo ali, tinha que ser algo que saísse fácil”, continua o criador do Circo, explicando que aquele princípio favoreceu-se de conceitos que na época eram completamente novos: economia criativa, horizontalidade hierárquica, economia circular, empreendedorismo, mas tudo na prática, sem muita teoria. “A gente vendeu camisetas para bancar a estreia”, conta, reforçando que a estratégia dava ”a ideia de estádio e time” para o Circo, diferente da lógica de palco italiano e cadeira de veludo dos palcos cariocas da época.

“Era uma geração muito pouco consumista e muito colaborativa”, explica Leo Jaime. “A gente não tinha o que comprar, ninguém tinha que comprar relógio, celular, nada. O máximo que você tinha em termos de consumo era um Escort XR3 ou um Opala – e comprar uma casa ou um apartamento não era uma meta inatingível como passou a ser. O máximo que a gente ambicionava era vender livro mimeografado no Baixo Leblon, porque não tinham grandes necessidades nem grandes possibilidades.”

“Era tudo mais simples”, ele define. “A gente foi a última lufada de ingenuidade antes que o cinismo lambesse tudo.”

O primeiro voo do Circo Voador aconteceu no dia 15 de janeiro de 1982. Mas cinco dias antes, mais de 800 artistas se reuniram onde seria o endereço original do Circo, na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, e seguiram até a Praia do Arpoador, onde seriam armados os andaimes de sustentação da futura arena. Esse evento de inauguração ficou conhecido como Surpreendamental Parada Voadora. Perfeito Fortuna também lembra da quantidade de grupos – tanto de teatro quanto musicais – que orbitavam ao redor da ideia do Circo, os quais não apenas trariam mais público para as apresentações ao vivo quanto também para os cursos, que eram dados de dia – ministrados pelas mesmas pessoas que se apresentariam às noites. “Isso é uma coisa que pouca gente fala, mas que é preciso ser frisada”, lembra o baterista João Barone, que à época estava dando os primeiros passos com seu grupo Paralamas do Sucesso, que ainda não fazia shows. “O Circo no Arpoador não era só música, tinha muito mais coisas.”

“O pessoal já estava na praia, no Posto 9, e em vez de sair da praia pra ir ao trabalho, saía da praia para ir ao trabalho… que era na praia”, diverte-se Fortuna. “A gente ia pra lá às oito horas da manhã e tinha capoeira com o Mestre Camisa, depois dança, com a Graciela Figueroa, que tinha a Débora Colker junto. E eu fazia a programação musical, botando as bandas da praia que eu conhecia: Blitz, Barão, Brylho da Cidade, Atlântico Blues, Sangue da Cidade…”, completa Evandro Mesquita.

Ao mesmo tempo, Evandro, que participou do show de abertura do Circo com a nova formação da Blitz, agora com duas novas vocalistas (Fernanda Abreu e Marcia Bulcão), também estreava nos cinemas de todo o Brasil no filme Menino doRio, com um elenco de novatos formado por André de Biase, Cláudia Magno, Ricardo Graça Mello, Sérgio Mallandro, Cláudia Ohana, Cissa Guimarães e Nina de Pádua. A trilha sonora, a cargo de Guto GraçaMello e Nelson Motta, tentava antecipar aquela novidade comportamental, enfileirando artistas que estavam despontando no horizonte da década, como Lulu Santos, Bebel Gilberto, Rádio Táxi e nomes internacionais, como o grupo feminino Go-Go’s, epítome da new wave que aos poucos dominava o pop internacional. Motta convidou dois novos compositores para gravar canções que compuseram em parceria: com Guilherme Arantes, escreveu “Corpos de Verão” e “Sob o Azul do Mar”; e com Lulu Santos, a emblemática “De Repente Califórnia”, a qual, ao lado da faixa-título de Caetano Veloso, cantada por Baby Consuelo, ajudaram a espalhar a onda do verão de 1982 para o resto do Brasil.

Em março daquele ano, a Rádio Fluminense, em Niterói, ajudava a atiçar aquela novidade ao transformar-se na primeira rádio rock do Brasil. Sob o epíteto de “Maldita”, que carregou até os anos 1990, a emissora também recebia e tocava as fitas daquelas novas bandas que não existiam fonograficamente – gravar um disco era muito mais complexo e caro do que hoje em dia. E a Blitz era uma das bandas que mais tocavam no início da rádio, por meio de “uma fitinha safada”, como lembra Evandro Mesquita, que trazia versões ao vivo de músicas que seriam eternizadas em breve, como “Bye Bye Love”, “O Beijo da Mulher Aranha”, “De Manhã” e, claro, “Você Não Soube Me Amar”.

Tocar no rádio passava a ser uma realidade, e Leoni lembra da expectativa e do efeito de ouvir pela primeira vez a transmissão de uma faixa de sua banda, o Kid Abelha. “A mulher do meu pai tinha uns irmãos que eram publicitários, que faziam um programa para caminhoneiros e tinham um estúdio para gravar. Aí sobraram umas horas e a gente foi gravar nesse estúdio, sem saber nada. A primeira música que gravamos e a primeira que tocou no rádio foi ‘Pintura Íntima’. Não dava para acreditar no que estava acontecendo. Os caras avisaram que iam tocar tal hora. Eu estava na casa do meu pai, que é advogado, super conservador, que ficou puto comigo porque eu queria fazer música. E a primeira vez que ouvi a canção no rádio foi na casa dele!”

"Mesmo antes do circo, os shows da Blitz eram o comentário da praia no dia seguinte, e todo mundo ficava falando e perguntando se ia tocar na rádio, se a gente ia gravar um disco”, lembra Evandro Mesquita. Até que, jogando futebol com Evandro, no início de 1982, Jorge Davidson, diretor da gravadora EMI-Odeon, contou que o produtor musical Mariozinho Rocha havia sido convencido pelo grupo 14-Bis de que a Blitz era a melhor coisa do underground da época. Evandro reuniu-se com Mariozinho e levou recortes de jornal sobre a banda e a tal “fitinha safada”. O produtor nem quis escutá-la, garantiu que bancaria a gravação do grupo no estúdio Transamérica e que chamaria o diretor da Rádio Cidade, então uma das maiores do Rio de Janeiro, para conhecer a banda. Evandro lembra que o executivo da emissora assistiu ao show da Blitz no estúdio e ficou encantado pelo potencial de “Você Não Soube Me Amar”, chegando a comparar a nova banda ao grupo Secos e Molhados.
O primeiro compacto da Blitz foi lançado em 31 de março de 1982, após o encerramento das atividades do Circo Voador original, que foi reerguido na Lapa em outubro daquele ano. O disco continha apenas uma música – o lado B trazia somente a voz de Evandro Mesquita repetindo “nada, nada, nada…”, sem acompanhamento – e vendeu um milhão e meio de cópias, espalhando de vez aquela onda carioca para o resto do Brasil.

Atualmente, fica claro que o movimento do verão de 1982 foi gerado pela tensão que existia na resistência contra a ditadura – que represava as novidades que aconteciam no mundo todo e não chegavam ao país –, mas também estava vinculado a uma certa alienação, por não ter a causa política como principal mote. “Teve um crítico da Tribuna que falou que a gente era a ‘geração pós-desbunde’”, lembra Fortuna, “porque essa geração não tinha o foco no ‘contra’ e sim a favor de outras maneiras de se viver. A gente estava saindo do ‘o sonho acabou’ para viver ‘o sonho acordou’, de sonhar o melhor sonho possível. Ser a favor de um espaço de liberdade para poder falar o que quiser, dançar como quiser, pintar o que quiser...”

“A gente não tinha nenhum exemplo, nenhum modelo a seguir”, define Leo Jaime. “Tinha uma ambição artística, mas por outro lado tinha um desprendimento muito grande. Como não tem nada certo, vou fazer o que me der na telha. Não tem fórmula. Se meus amigos gostarem, tá bom, e era divertido. Eu não vivi outras épocas, mas duvido que qualquer outra tenha sido mais legal do que o Rio de Janeiro do começo dos anos 80. Era sensacional.”