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Música / Entrevista

Jards Macalé e Sergio Krakowski detalham lado "improvisativo" de homenagem a Zé Keti

Dupla à frente de 'Mascarada: Zé Kéti por Sergio Krakowski Trio e Jards Macalé' conta como conseguiram inovar a partir da obra quase centenária do mestre sambista carioca

Sergio Krakowski, Todd Neufeld, Vitor Gonçalves e Jards Macalé (Crédito: Aline Muller)
Sergio Krakowski, Todd Neufeld, Vitor Gonçalves e Jards Macalé (Crédito: Aline Muller)

Jards Macalé conheceu Zé Kéti no palco. Quando Maria Bethânia substituiu Nara Leão no espetáculo Opinião, o carioca foi convidado a ser violonista na peça, ao lado de Kéti e de João do Vale. Mais de 30 anos se passariam até outro encontro, também em cena, dessa vez com Sergio Krakowski no Clube dos Democráticos. É desses dois encontros - e de uma admiração legítima pela obra de Zé Keti -, que Macalé e Krakowski uniram forças no projeto Mascarada: Zé Kéti por Sergio Krakowski Trio e Jards Macalé.

Mascarada: Zé Kéti por Sergio Krakowski Trio e Jards Macalé (Arte por Iberê Camargo)

Com o experimentalismo do Sergio Krakowski Trio no DNA, o projeto homenageia a obra de Kéti, portelense com décadas de contribuições ao samba. Em suas sete faixas - seis de Kéti, mais uma original -, os músicos viajam pela obra do sambista, atualizando-a entre momentos inspirados de plena improvisação.

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"A gente tá buscando uma coisa experimental, improvisativa, que de alguma forma é uma busca pela originalidade, pelo novo, pelo diferente. E, no entanto, a coisa ali é uma reverência, uma homenagem ao Zé Kéti, que é um pilar da música tradicional brasileira, que é o samba. E isso, de forma nenhuma, é uma antagonia, sabe? Isso é justamente porque ele é um pilar da música brasileira que a gente consegue fazer esse encontro de gerações e essa busca pelo novo", conta Krakowski.

O convite a Jards, feito pelo próprio Krakowski, parte da interpretação livre que Macalé carrega consigo, uma "elasticidade" ou, como define, uma "música de invenção":

"Eu vivo muito essa linguagem da invenção, da abertura da coisa da música, não ser ela formalizada, feita e tal, ela não precisa ser exatamente o formato em que ela foi feita, ela tem uma elasticidade nessa história, uma possibilidade de viver a música de várias formas", diz Macalé.

Lançado como LP no final de 2023 pela Rocinante, o projeto Mascarada: Zé Kéti por Sergio Krakowski Trio e Jards Macalé foi gravado por Pepê Monnerat no Brooklyn Recording (NY) com direção artística e produção musical de Sergio Krakowski e Todd Neufeld. A ilustração da capa é de autoria de Iberê Camargo.

Confira abaixo a conversa completa da Rolling Stone Brasil com Jards Macalé e Sergio Krakowski.

Rolling Stone Brasil: Como é que você conheceu o Zé Kéti? 

Jards Macalé: Eu conheci o Zé Kéti na década de 60. Bom, eu conheci o Zé Kéti através do filme Rio 40 Graus de Nelson Pereira dos Santos. Justamente com a música, a música é tema do filme A Voz do Morro. "Eu sou o samba, a voz do morro, sou eu mesmo, sim senhor…" Eu conheci o filme no final da década de 60 e tal. E aí eu fui convidado, daquela admiração pelo Zé, sabendo da obra dele, do envolvimento do Zé Kéti, também no Rio, Zona Norte, e aí fui convidado para participar como violonista na peça Opinião, aqui no Teatro Opinião do Rio de Janeiro. 

Quando Bethânia veio substituir Nara Leão,  Bethânia veio morar e ficou hospedada aqui em casa, na minha casa no Rio de Janeiro, lá em Ipanema e ela entrou substituindo Nara Leão e eu fui convidado a tocar e ser violonista na peça, acompanhando ela, João do Vale e Zé Kéti. E aí aprofundei uma relação com o Zé Kéti, dois cariocas malucos, carioquíssimos, e o Zé é uma pessoa maravilhosa, aquela música, aquele humor, aquela malandragem, aquela coisa toda, e nos tornamos amigos.

E ficamos, fizemos vários depois de Opinião, fizemos alguns shows em faculdades, universidades, eu ia acompanhando ele e ficamos andando por aí. E foi assim que fomos fazendo. E ele foi apresentando as pessoas. Eu conheci Nelson Carvalho, conheci Elton Medeiros, conheci aquela patota de respeito. E ia muito no Cartola, no Teatro Jovem, onde tem os shows de samba, que era o Rosa de Ouro. E aí foi, eu me aproximei nesse universo do samba mesmo.

Rolling Stone: Sergio, e seu contato com Zé Kéti, como começou?

Sergio Krakowski: Olha, eu ouço o Zé Kéti desde muito cedo. Eu toquei no samba do Clube dos Democráticos, e também na Orquestra Republicana. Por muitos anos, uma década, de 2003 a 2013, toda semana, de quintas e sábados eu tocava lá. Então, assim, a gente tocou muito Zé Kéti, muitas vezes… “Acender as velas”, “Peço licença”… tudo isso fazia muito parte dos repertórios, muita coisa, né? Nessas noites, uma vez, eu me lembro claramente dos Jards e lá dar uma canja, e eu fiquei muito impressionado com a capacidade de improvisação dele, sabe?

Rolling Stone Brasil: Hoje, olhando para a obra de Zé Kéti hoje, dentro e fora do Mascarada, qual a sua faixa preferida? Existe uma música, uma composição que você destacaria... 

Jards Macalé: Rapaz, aí é que tá: a obra de Zé Kéti é toda cheia de riqueza, de poéticos e melódicos. O Zé Kéti é um grande melodista. Por exemplo, nesse disco, quando ele se une a Nelson Cavaquinho, que é aquela canção é... (cantando) "Das mulheres... Nem com dinheiro, as mulheres já não me desejam mais. Se elas voltariam nesse tempo, se eu fosse, eu voltaria aos meus tempos, iria comer o pecado…".

Quando a gente faz “Opinião”:  “Podem prender, podem bater…”,   era uma coisa de universo muito mais amplo de outras pessoas. “Se falta água, eu furo um poço. Se falta carne, eu compro um osso e boto na sopa e deixo andar”.  Isso a gente viu na pandemia agora. Essa música é de lá trás. É um retrato do país real. E quando ele fala, essa é a melodia de um país feliz, eu sou o samba. Ele se coloca, olha, eu é que sou, eu é que sou o Brasil. 

Rolling Stone Brasil: E você, Sergio?

Sergio Krakowski: Da obra do Zé Kéti eu tenho um apreço muito grande pelas músicas que a gente escolheu. O “Acender as Velas” também é uma música que eu sinto muito forte, assim, acho que é muito incrível, “Opinião” também. Então, se eu pudesse escolher, eu acho que eu escolheria o “Mascarada”, sabe, eu acho que é a música que mais me toca, assim. Mas eu acho que em termos de... da mensagem, eu acho que “Acender a Vela” e “Opinião” são as duas que dão realmente um recado, assim, da questão política, assim, de uma forma muito bonita. 

Rolling Stone Brasil: Vocês começaram esse disco em 2019 e ele chega agora. O que mudou? A pandemia impactou o processo?

Sergio Krakowski: Tudo mudou no meio do caminho. Eu acho que é mais fácil perguntar o que não mudou. A gente gravou num mundo que era outro mundo, né? Foi uma grande reconstrução, assim, de tudo. Toda a nossa cena cultural também mudou. E esse disco foi muito desse processo. Eu vivi o processo do disco muito em paralelo a todas essas grandes mudanças, de país, de ter um filho.

O processo de criação musical aconteceu lá [em Nova York], antes da pandemia, em novembro de 2019, mas toda a construção sonora do fonograma, a mixagem, aconteceu de maneira bastante cuidadosa. O Duda, que mixou o disco, fez várias remixagens e o resultado final nos agradou muito. Ficou muito bom.

Rolling Stone Brasil: Olhando para a obra do Sergio, pro trio, como foi conceber esse disco juntos? 

Jards Macalé: Ah, foi maravilhoso. Porque essa linguagem, eu vivo muito essa linguagem da invenção, da abertura da coisa da música, não ser ela formalizada, feita e tal, ela não precisa ser exatamente o formato em que ela foi feita, ela tem uma elasticidade nessa história, uma possibilidade de viver a música de várias formas. Eu fiz um disco meu com Naná Vasconcelos, que o Almeyres Friberg, produção minha de muito tempo, que levou, esse levou 11 anos, desde a gravação até o lançamento.  Mais ainda, também teve o, fiz vários trabalhos com o Tato Taborda, um músico extraordinário, que tinha a escala fazia o que era, pensava em invenção, de música de invenção. Meu ouvido sempre teve adepto pra tudo, pra som eu não fico pensando samba por nichos. Samba só daquele jeito. Som é som! 

Rolling Stone Brasil: Sergio, você falou que o Jards era a voz certa para interpretar Zé Kéti, conta para a gente como nasceu esse convite?

Sergio Krakowski: Eu e o trio já tínhamos lançado um projeto de música autoral e aí a gente começou a tocar sambas, só que tocar sambas de uma forma muito livre e aberta, quer dizer, muito improvisada e muito descobrindo a música a cada interpretação.

E a gente chegou à conclusão de que, queríamos gravar um disco de samba e o Tod Neufeld veio já praticamente com uma proposta fechada assim de a gente gravar Zé Kéti, que é um pilar da música brasileira, e a única pessoa que daria pra interpretar o Zé Kéti era o Jards mesmo. Porque justamente com a experiência que eu tinha tido lá no Democrático, ele dando canja, eu percebi essa possibilidade. O Jards tem um jeito de interpretar que é muito especial e muito livre, muito improvisativo e ao mesmo tempo extremamente swingado, samba mesmo, samba tradicional, mas com muitas nuances que não são muitas vezes encontradas na interpretação tradicional, digamos assim.

A interpretação tradicional muitas vezes tem percussão, tem muitas camadas e às vezes tem muito pouco espaço vazio e o Jards é um mágico dessa dança, do espaço vazio e do subentendido,  de não deixar as coisas muito explícitas para criar mais mágica ainda. E eu lembro de ele fazer, dar essa canja nessa noite lá no Democrático, naquele caos que era o Democrático e aquilo ainda está ali muito forte. Atravessar todas as dificuldades e você vê aquilo. E quando o Todd falou isso ficou claro que tinha que ser o Jards. 

O Todd trouxe essa ideia e eu falei nossa eu me lembro do Jard fazer isso, vai dar certo. E aí a gente propôs, né, e ele topou e foi uma honra imensa fazer parte dessa tradição, que ele fez realmente parte, tocou com o Zé Kéti, tocou com Moreira da Silva, entidades do samba. E aí no estúdio é que ficou claro essa questão da improvisação como sendo central tanto nas faixas quanto nessa faixa original que a gente fez.

Rolling Stone Brasil: Juntos, vocês criaram “Improvisação”, uma inédita …

Sergio Krakowski: E ela é o que o nome diz, ela é uma improvisação livre do que a gente estava ali vivendo naquele momento. Inspirado no Zé Kéti, no samba, mas livre. Como a gente faz o trio, justamente, já fazia isso, fazia vários momentos de improvisação livre, e o Jards faz isso nos discos dele, em vários momentos você tem essa coisa da liberdade, da criação ali. E na mesma direção. Buscando, eu acho que uma coisa muito similar, assim.

A gente tá buscando uma coisa experimental, improvisativa, que de alguma forma é uma busca pela originalidade, pelo novo, pelo diferente. E, no entanto, a coisa ali é uma reverência, uma homenagem ao Zé Kéti, que é um pilar da música tradicional brasileira, que é o samba. E isso, de forma nenhuma, é uma antagonia, sabe? Isso é justamente porque ele é um pilar da música brasileira que a gente consegue fazer esse encontro de gerações e essa busca pelo novo, sabe? E o Jards é o pivô disso porque ele é o cara que tocou com esses caras, que fez parte do show Opinião. Que tocou com o Zé Kéti no show Opinião, que tocou com toda essa geração, conheceu toda essa geração de grandes artistas, de grandes sambistas e que faz improvisação, que tá aberto pra coisa mais contemporânea, pra tudo que é alternativo e de vanguarda. Então a gente poder ter ele é como a gente poder ter essa fonte viva ali desse ímpeto de criação, assim.

Rolling Stone Brasil: O disco é atravessado nesse mergulho em Zé Kéti e o improviso. Como você enxerga a mistura de tantas gerações e referências pra fazer esse álbum?

Jards Macalé: Eu acho que é enriquecedor pra quem fez e pra quem ouve. 

Agradecimento: Dayw Vilar