Liniker faz retrato festivo do presente no primeiro disco solo, Índigo Borboleta Anil [ENTREVISTA]

Sem os Caramelows, Liniker mergulha em herança musical e flutua do jazz ao samba-enredo em parceria com Milton Nascimento, Tássia Reis e mais

Julia Harumi Morita Publicado em 11/09/2021, às 10h00

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Liniker (Foto: Caroline Lima)

Para quem não sabia contar gotas, Liniker aprendeu a nadar e mergulhou nas mais profundas e distantes águas, as quais desembocaram em seu primeiro disco solo, Índigo Borboleta Anil. Agora, a cantora contempla a maré que conecta o passado e o presente.

Em 2015, Liniker começou a carreira musical ao lado dos Caramelows, grupo formado por Rafael Barone (baixo), Péricles Zuanon (bateria), Renata Éssis (backing vocal), William Zaharanski (guitarra), Éder Araújo, (saxofone), Fernando TRZ (teclados) e Marja Lenski (percussão).

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Desde então, se tornou uma potência da música brasileira, marcou presença no Rock In Rio e Lollapalooza, fez turnês na Europa, participou da série Tiny Desk Concerts, recebeu uma indicação ao Grammy Latino, anunciou a separação dos Caramelows e bateu de frente com a pandemia de covid-19. 

Liniker viu-se parada em casa como há muito tempo não fazia. Isolada, mergulhou em si e começou um processo musical quase cinematográfico, no qual viu cenas da infância, adolescência e vida adulta pintadas com um azul vibrante, batizado de Índigo Borboleta Anil. 

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Ao lado de Júlio Fejuca e Gustavo Ruiz, a artista produziu 11 faixas que registram seus sentimentos em tempo real e, ao mesmo tempo, resgatam sua herança músical em parcerias com Milton Nascimento, Tássia Reis, Mahmundi, Vitor Hugo, DJ Nyack, Tulipa Ruiz, Orquestra Jazz Sinfônica, Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz

O álbum transborda música preta. Como esperado, flutua pelo soul, funk, R&B, MPB e jazz, então refresca a discografia da cantora com samba-rock ("Diz Quanto Custa"), pagode ("Baby 95") e samba-enredo ("Vitoriosa").

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No disco menos romântico da carreira, Liniker entoa canções de afeto para si mesma, a própria mãe, a cachorra Claudete, a amiga Luedji Luna, a Mirtes Renata Souza e ao filho dela, Miguel Otávio Santana, que morreu aos cinco anos após cair do nono andar de um prédio de luxo em Recife, enquanto estava sob os cuidados da patroa Sari Corte Real.

A Rolling Stone Brasil  conversou com Liniker sobre o processo de criação de Índigo Borboleta Anil, as descobertas artísticas em carreira solo, a relação das obras dela com a política e mais. Confira trechos editados da entrevista:

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Queria começar falando sobre o processo de criação do disco. Quando e onde você começou a desenvolver Índigo Borboleta Anil?

O disco começou em… acho que minha casa em agosto de 2019. A princípio, em encontros com Júlio Fejuca, um dos produtores do disco, e Gustavo Ruiz. A gente rearranjava algumas músicas minhas e eu mostrava para ele algumas composições que não tinha passado para o instrumento, só tinha feito letra e música.

Começamos a harmonizar, fazer arranjo, entender isso. Minha ideia era produzir um disco, sei lá, ano que vem, antes de saber da pandemia e tals. Quando a pandemia veio, em março [de 2020], me vi dentro de casa com a necessidade de escrever e entender tudo aquilo, olhando para mim de forma diferente, como quem não parava dentro de casa há tanto tempo e teve que parar por um sentido pandêmico. Este olhar me fez começar a escrever muito, documentar de novo essas faixas e compor demais.

Em julho de 2020, começamos mesmo o trabalho de pré-produção do disco. Começamos a produzir esse lugar onde Índigo Borboleta Anil  nasce, esse disco dentro do meu quintal, praticamente. É um álbum de música preta, no qual me reconecto com tudo que aprendi musicalmente e falei nas minhas entrevistas.

Agora, pude colocar isso em um trabalho meu, autoral, solo, em um momento tão difícil e duro quanto esse que a gente vive. Mas, ao mesmo tempo, me ascende para as coisas que entendi e criei artisticamente até aqui, sabe?

Você estreou com os Caramelows, aprimorou a composição e o canto ao lado deles, e lançou o primeiro disco solo agora. Gostaria de saber quais possibilidades e descobertas artísticas essa nova fase te trouxe.

Todo processo - como romper uma banda, iniciar uma banda ou viver um processo criativo - parte de um lugar de coragem. É sair de alguns pontos cômodos, no sentido de… foram seis anos juntes. Foi muito importante para mim artisticamente, porque aprendi a ser artista com eles, na estrada - também vivendo minhas próprias experiências.

A necessidade de viver as minhas próprias experiências, no sentido de ser condutora dos meus processos artísticos, foi algo importante espiritualmente e produtivamente, porque enquanto compositora, musicista e cantora me rompia.

Esse é meu disco de [pausa] mergulho interior. É um disco no qual o amor não é o amor por outro, mas por mim, sabe? É amor próprio. No processo de ruptura, pandemia, caos e tudo, entrei em mim e me perguntei o que faltava ali, para onde queria ir.

Essa pergunta e a dúvida de querer estar em movimento, mesmo depois de um fim e tantos anos fazendo um trabalho de tanta notoriedade me fez perceber que o que me movimenta em qualquer lugar, sozinha ou com pessoas, é arte e música.

Você pode contar como surgiu o nome do disco, Índigo Borboleta Anil?

Índigo Borboleta Anil, Julia, é onde mergulho na minha intuição e dessas borboletas que apareceram para mim física e oniricamente nesse processo. A primeira vez que escrevi 'Índigo Borboleta Anil' me veio uma sensação de algo muito conectado com minha criança interior.

Alguns processos só vieram à tona porque, de uma hora para outra, precisei olhar e cuidar deles. Então, Índigo Borboleta Anilé um nome de cura, conexão ancestral com o axé, minha ancestralidade, religião e crença.

É um disco no qual as imagens são muito importantes, então, é quase como se fosse as cores dessa água que estou falando em algumas músicas, "Lua de Fé" ou "Baby 95". Se pudesse mostrar para o povo o que estou vendo, seria esse mergulho, essa profundidade, sabe? É sobre essa intensidade de mergulho em si.

Você disse que o disco soa como uma trilha sonora. Qual cena - ou quais cenas - você visualizou enquanto criava esse álbum?

É muito doido porque acessei vários lugares de imagens, como se [o disco] fosse um filme, mesmo. Tem coisa no álbum que é animação, tem coisa que é filme antigo, tem coisa flutuando.

Os arranjos de corda e de voz, as texturas, as pausas, os momentos levam quem escuta para um lugar de... descolamento daqui, sabe? Como se a gente pudesse olhar o que está acontecendo de cima.

Toda vez que ouço o disco, fico muito impressionada com nossas escolhas. Bancar algumas coisas artisticamente que, hoje, em muitos projetos musicais não é uma coisa orgânica, tem uma coisa processada. Até pela tecnologia do que a gente pode acessar. Por exemplo, ter não só uma orquestra no disco, mas duas, com Letieres Leite e Rumpilezz. Milton Nascimento, Tássia Reis, DJNyack, Tulipa Ruiz e a banda desse disco, foram um time de muito brilho.

Índigo Borboleta Anil nasceu abençoado só pelos encontros desse processo. É um disco solo, mas trabalhei com o coletivo, com a música. É solo pelo momento, mas é junto pela música. E que bom que me permiti esse espaço.

Você já foi questionada sobre fazer músicas políticas, né? E você explicou que fazer canções de afeto é um ato político. Nesse disco, traz músicas como "Lalange", "Diz Quanto Custa" e "Vitoriosa," as quais se aproximam mais dessa temática. Você pode falar um pouco mais sobre isso?

Todas as faixas [são políticas]. "Clau" redireciona esse afeto para minha cachorra; "Antes de Tudo" foi a primeira música que escrevi na minha vida, com 15 anos; "Lili" sou eu, que só quer voar, viver e sentir.

O disco todo fala de afeto, porque falo de amor próprio, de lugares que não deixam meu corpo acessar, Julia. Quero criar outras imagens para mim mesma e para quem me escuta. Do afeto ser uma ponte onde quero viver.

Colher amor é uma forma de viver. Ser uma cantora romântica… Alice Ruiz disse, uma vez, que eu era uma cantora romântica erótica, nesse sentido também de falar de mim sem culpa. Às vezes, entendemos o afeto como algo que você dá para o outro. Quero redirecionar isso, reescrever esse sentimento. O afeto também é uma coisa que me dou.

Isso também é político. As pessoas não querem me deixar acessar - as pessoas trans, LGBTQ+ e pretes são obrigadas a estarem sujeitas às violências, traumas e recortes, os quais deixam a gente ser violentada. É poder falar de um ponto de vista no qual quero cuidar do meu desejo. Quero que outras pessoas me escutem e também acessem esses lugares, sabe? É isso.

O disco traz uma grande narrativa musical, que vai do groove e funk até samba-enredo. Queria que você falasse sobre isso e como suas letras mudaram entre seus álbuns.

O processo de composição desse disco… por isso falei sobre ser um disco de amor próprio, e não só mais cartas que escrevi e entreguei. Reafirmei para mim o tempo inteiro o que sinto.

Por mais que tenha a primeira música que escrevi, eu trago para o agora e reformo para o que quero dizer. Falo sobre mim em tempo real no disco. Essa composição mudou porque não é nostálgica, por mais que o som esteja em um lugar que leva a gente para o passado com texturas, cordas, arranjos, a banda. O som é do presente, a letra é do presente.

O sentido da composição é uma das coisas mais gostosas desse disco. Documentar em tempo real e gravar agora.

Só por curiosidade, "Antes de Tudo" já tinha esse nome?

Não. Como se chamava essa música? Chamava "Maré." Também é a quantidade de água que falo nesse disco.

Imaginei. Parece bem que você resgatou e deu esse nome.

Exato. Chamava "Maré." "Antes de Tudo" é por isso mesmo: olha, antes de tudo, já escrevia e compunha. Foi minha primeira música, então é até um toquezinho para mim mesma: 'Não se duvide tanto! Você não está fazendo isso de agora, sabe? Você tem história. Não se culpe. Viva.'