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Música / Pescoço salgado

O som irreverente de Totô de Babalong: ‘O brega é o punk brasileiro’ [ENTREVISTA]

No segundo álbum, Pescoço Salgado, cantor abraça inda mais as sonoridades latinas para entregar trabalho com personalidade única

Totô de Babalong (Foto: Juliana Rocha - @_RochaJuliana)
Totô de Babalong (Foto: Juliana Rocha - @_RochaJuliana)

O baiano Totô de Babalong lançou na última semana o segundo álbum da carreira, Pescoço Salgado (2024). O projeto combina a sonoridade brasileira que bebe na fonte do que há de melhor na música brega, e mescla outros ritmos — brasileiros e latinos — tudo isso somado do visual característico do artista.

O trabalho conta com 8 faixas e traz colaborações luxuosas, todos indicados ao Grammy, Rachel Reis, RDD e Gaby Amarantos — esta última levou o gramofone para casa. Além disso, o projeto nos brinda com um cantor mais seguro do título de representante do brega. Rolling Stone Brasil conversou com Totô para entender a trajetória que o trouxe até o lançamento desse disco. 

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O nascimento de Totô de Babalong

Heitor Alencar Pinto, o Totô, é um baiano de Teixeira de Freitas, cidade no sul do estado. A música sempre esteve presente na vida e composição dele. Antes de ser trabalho, já acontecia com alguma frequência. Fosse para aniversário de amigos, ou inspirado pelo beat de uma música eletrônica, o artista sempre teve facilidade em criar melodias. 

Tudo muda quando, ao mostrar uma música para uma amiga, ela o aconselhou mostrar o som para RDD, músico, produtor e integrante da banda ÀTTØØXXÁ. “Essa música era ‘Caipirinha de Milão,’ a que estourou e eu comecei a estudar mais, estudei canto, composição, marketing de álbum e chegamos aqui hoje,” conta. 

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Totô já tinha um trabalho de criatividade. Ao lado da irmã, Débora Alencar, comandava a Babalong, marca que já vestiu nomes como Ludmilla, Isis Valverde, Anitta e Pabllo Vittar, entre outras. Heitor morava na China e trabalhava como professor quando sugeriu para a sócia que trabalhassem com algo em que pudessem exercer a criatividade. 

As referências dos lugares por onde passou também são importantes para conhecer o fenômeno. Totô cresceu em Porto Seguro. A proximidade geográfica com Minas Gerais e a cultura interiorana o influenciam muito. “A China me despertou uma visão cosmopolita. Brinco com línguas, falo chinês, espanhol e inglês nas músicas,” conta. Ele ainda passou por São Paulo, Rio de janeiro e Brasília.

Totô de Babalong (Foto: Juliana Rocha - @_RochaJuliana)

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Quando questionado sobre o momento no qual nasce Totô de Babalong, o cantor explica que o nome surgiu a partir do trabalho com moda. “A marca era Babalong, que surgiu do chinês. É ‘Ba’ de Brasil, ‘Ba’ de Bahia e ‘Long’ de Dragão, são caracteres chineses. Meu apelido sempre foi Totô, e quando eu assinava os croquis era Totô de Babalong,” explica. 

Mas, em questão artística, ele nasceu no chuveiro. Sempre que eu entrava no banho, eu me teletransportava para um lugar tipo abertura da Copa do Mundo, eu performando pique Beyoncé para um monte de gente. 

Ele confessa, no entanto, que hoje consegue separar bem a persona Totô que ouvimos e vemos no palco do Heitor, classificado como o “dia a dia”. “Falo muito disso na terapia, inclusive”

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Visual ousado

Para além do aspecto musical, o universo estético do artista é único, para dizer o mínimo. Totô aposta em imagens que chama atenção e intrigam. Muito da inspiração dele bebe na fonte da moda. “Os editoriais de moda que eu gosto sempre trabalham com um lance de choque.”

Para crescer como artista, você vai precisar de choque. Pode expor o relacionamento, ou a vida pessoal. Eu não sou muito dessa linhagem. Prefiro chocar as pessoas com a minha estética e ficar na minha, curtindo minha vida. Gosto da minha privacidade.

Apesar disso, as imagens chocantes não são só marketing. Elas falam muito do gosto pessoal do artista, que sempre se identificou com um aspecto mais punk. Até na hora de escolher as drags favoritas de RuPaul's Drag Race (2009). Ele cita Alaska Thunderfuck e Katya Zamolodchikova pela personalidade “punk rock”.

Totô de Babalong (Foto: Juliana Rocha - @_RochaJuliana)

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Para a capa do single “Às Avessas Por Você,” por exemplo, vemos Totô deitado, bebendo uma água que, antes de chegar na boca, passa por uma calcinha. “É uma música inspirada no brega. Foi inspirada nos cantores de brega que guardavam as calcinhas, bebendo das referências. Eu tenho umas pirações,” brinca.

Brega, o pop nacional

Apesar de não ser tão simples definir o estilo de Totô em um gênero específico, ele tem cada vez mais aceitado que é um cantor de brega. “Mas, ao mesmo tempo, penso que faço pop com música brasileira. Então sou um cantor de pop nacional. Pego muito dos ritmos nacionais. Não faço pop gringo.”

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Sobre o próprio gosto musical, o artista conta que gosta muito de música regional. “Ouço muito Raquel dos Teclados recentemente.” Ele gosta de entender o que se ouve no interior. Na composição, Lana Del Rey é uma das favoritas. Até o momento da  conversa, o último álbum que ele havia ouvido foi Frank (2003), disco de estreia de Amy Winehouse. No entanto, sua paixão é tudo aquilo que é “endemicamente brasileiro.”

Totô de Babalong (Foto: Juliana Rocha - @_RochaJuliana)

Contém1drama

Em 2022, o cantor lança o primeiro álbum, Contém1drama, um álbum mais intimista se compararmos com o lançamento mais recente. As referências para o álbum foram bastante pessoais. “Peguei ritmos regionais, na época escutava muito Summer Eletrohits, eurodance, peguei um produtor muito massa e falei ‘vamos fazer.’ Foi uma vibe até mais experimental para entender o que gosto e queria fazer com a minha carreira.”

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Apesar de amar o álbum e ter muito orgulho dele, para viver de música, ele precisaria também entender o que o público queria ouvir e aliar isso ao próprio gosto. “Aí que entra Pescoço Salgado (2024), peguei ritmos latinos e regionais e melodias muito fortes com letras impactantes.”

Pescoço Salgado

Apesar de ser lançado em janeiro de 2024, Pescoço Salgado está pronto desde julho de 2023. Durante o processo de produção, o cantor e os produtores fizeram uma pesquisa de ritmos que pudessem ser traduzidos para a linguagem do artista. Ele resgatou “50 Tons de Pinga,” lançado no início da carreira, e não podia ficar fora de um projeto como esse.

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Para o visual ousado do disco, Totô contou com a experiência do diretor criativo Pedro Flutt e da fotógrafa Juliana Rocha. “Passei o briefing do álbum e ele veio com um monte de ideias, falei: ‘Vamos de engolir espada!’ Porque é muito engraçado, mostra perigo, confiança, sensualidade, bagaceira, high fashion. Adorei essa ideia.”  

O nome sinestésico, como classifica o artista, “você fala e sente o gosto,” pode ser de um momento de folia, carnaval, sexo, praia, “ou também pode ser de tipo ‘cheguei em casa, depois do trabalho, vou colocar uma música para relaxar meu pescoço salgado.’”

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O time responsável pela produção do álbum conta com nomes de peso no atual cenário musical brasileiro. Tomás Tróia, também produtor de Duda Beat, RDD e João Mansur, trabalha com o cantor desde o começo. A mixagem ficou por conta de Luciano Scalercio. Foi com o apoio deste time que Totô fez um álbum pensando em um resgate do brega.

Ele reconhece que essa é uma vertente em ascensão e cita outros artistas que também dão ao brega uma nova roupagem, como Getúlio Abelha e a banda Luísa e os Alquimistas. “Mas essa cena não é tão forte, então queria trabalhar esse resgate.”

Totô de Babalong (Foto: Juliana Rocha - @_RochaJuliana)

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O álbum tem causado diversas reações entre os fãs nas mídias sociais. Um deles disse, por exemplo, que, ao ouvir o trabalho, sentiu-se como uma “loba tesuda latina tropical e ser romântica cadelinha fiel apaixonada.” Rindo, Totô considera a definição “genial” e completa: “Concordo com tudo, mas acho que ‘fiel’ nem tanto.”

Ao longo do álbum, Totô brinca com gêneros narrativas de uma maneira gostosa e fluida. “Desse Jeito,” por exemplo, é um pagode sobre um homem que trai, mas vê o relacionamento de uma maneira positiva. Esse tipo de experimentação é instigante para o cantor, que pensa em fazer algum trabalho de lambada ou zouk. O projeto pode ficar na gaveta por um tempo, como ele já tem o terceiro álbum em mente.

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Em “Hola Chica” o cantor faz uma ode ao álbum anterior. Ele junta elementos de músicas de Contém1drama para construir a canção. “Tem o teclado de ‘Aclimação,’ no final tem o teclado de ‘Goku,’ tem o gemido de ‘Femme Queen’ e tem o sax de ‘Contém1drama’.” A canção ficou pronta em cerca de duas horas de produção, a mais rápida do disco. Ele já tinha a parte do rap pronta, que seria usado em uma parceria com Neftara.

Fã confesso de Lana, como dito anteriormente, o artista fez uma música inspirada nos unreleaseds dela e de Lady Gaga. “Falando dessa coisa do rockstar e da menina apaixonada por ele, ‘Paparazzi’ é sobre isso.” Em uma passagem pela argentina para fazer um show, o artista se envolveu com um fã que o apresentou uma música folclórica argentina chamada “El baiano,” da cantora Soledad. “Fala sobre uma mulher que se apaixona por um baiano, no Rio de Janeiro, onde eu morava, e o pai não deixa. A história inspirou a composição de “Toca Metallica Pra Mim.”

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Às Avessas Por Você” causou um certo impacto. Lançada antes do álbum sair, a canção tem uma sonoridade muito mais brega do que os fãs estavam acostumados a ouvir. Quando questionado sobre a possibilidade da canção ganhar um clipe, Totô confessa que tem o roteiro pronto, mas deve focar em outra faixa do álbum para uma produção audiovisual. 

O álbum também traz duas colaborações. “Morar Com Vc”, um arrocha, foi feito em parceria com RDD. O cantor, então, percebeu como a música combinava com a energia de Rachel Reis, que estourou na mesma época de Totô com “Maresia.” O cantor mandou uma mensagem e a cantora topou de cara. “A voz dela é como se fosse um abraço. É muito linda a maneira como ela canta. E como ela compõe também.”

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Jogo de Louça,” colaboração com Gaby Amarantos, fecha o álbum com chave de ouro. A parceria surgiu quando os dois estavam no estúdio para outro projeto e o cantor decidiu mostrar a canção para ela. “A música já estava fechada, era só eu. Mas eu pedi para ela entrar e ela topou.” A cantora gravou no mesmo dia e, após apresentarem em um show, ela sugeriu que gravassem um clipe na locação onde fariam as fotos. A direção e o roteiro foram feitas pela grande parceira do artista, Débora

Totô tem uma certa dificuldade em definir o que é o brega. “Quando eu chego no produtor, eu falo ‘quero fazer uma bachata, ou um bolero’. Não consigo definir o estilo musical brega. Acredito que seja mais uma energia. Porque o Gusttavo Lima canta bachata e você não fala que ele é brega, fala que é sertanejo.”

Eu até li estudos para entender melhor. E fui entendendo que o brega é o punk brasileiro. É não ligar para as normas, é político, é chocante. Estamos criando uma nova geração do brega que, se você parar para analisar, todos bebem dessa referência punk com o regional e o nacional.

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O artista sabe que o brega pode ser pop e, a partir da “escolinha da Anitta,” entendeu que tudo é marketing. Para isso, resolveu brindar os fãs com 50 doses de pinga em bares de 10 cidades pelo Brasil. “Tivemos essa ideia de chamar bares e pensamos em como fazer uma ação para fazer as pessoas ouvirem mais o álbum. 

O momento agora é de pensar nos palcos, Totô trabalha com a diretora Valéria Assunção para fazer um espetáculo com direito a bailarinas e tudo mais. Ele gosta de se apresentar e se está bastante animado para levar Pescoço Salgadopara a estrada.

Totô de babalong (Foto: Juliana Rocha - @_RochaJuliana)

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“Percebi que eu sempre gostei de cantar de amor, mas de uma maneira mais safada. Sempre gostei de fazer show e entendi que sou um artista latino americano. A minha intenção é trazer a cultura do interior, de onde eu venho, para as pessoas que se identificam com ela.” Totô não pensa em ser um astro pop de proporção mundial, mas um representante da cultura latina. Podemos dizer que ele está no caminho certo.