Ondas Sísmicas: Gabriel Bernini comenta faixa a faixa de LP que mapeia cantoras brasileiras do século 21 [ENTREVISTA]

A coletânea em vinil Onda Sísmicas complementa o livro de mesmo nome, o qual reúne obras de 90 cantoras brasileiras

Julia Harumi Morita Publicado em 14/03/2022, às 14h53 - Atualizado às 20h21

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LP Onda Sísmicas (Foto: Divulgação | Arte: Caio Paiva e Karina Yamane)

Após lançar o livro Ondas Sísmicas: 90 discos de cantoras brasileiras do século 21 (2021) por meio de um financiamento coletivo, o pesquisador musical Gabriel Bernini selecionou 10 músicas de 10 cantoras presentes na obra para formar uma coletânea em vinil, a qual foi disponibilizada no mercado e no streaming no dia 7 de março de 2022.

Realizado pelo selo Romaria Discos (RJ), com apoio da Vinyl Land (BH) e Made In Quebrada Discos (SP), o LP vai do rock ao eletrônico com Laya, PERIGOSAH, Estela Cassilatti, Kika, Tika, Lila, Pat C., Malu Maria, Uli e Dicy.

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Criador do grupo Amigues do Vinil no Facebook, comunidade que antecedeu o livro, Bernini conversou com a Rolling Stone Brasile dissecou a coletânea Ondas Sísmicas, revelando o que faz cada faixa do disco ser especial. Confira:

 
 
 
 
 
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1. Laya, "Mais Brilhantes"

"É o início perfeito para um disco, tanto que é a faixa que abre o álbum homônimo da Laya lançado em 2016. É um desafio: "Eu quero te propor /Meu amor /Vamos tentar passar o dia inteiro sem falar." Inicia sorrateira, como uma faixa clássica de MPB setentista, mas sem perder a complexidade - em especial devido à bateria refinada da Mariá Portugal.

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Da metade para o final, acontece uma despirocada jazzística com muitos instrumentos de sopro, o que confere ainda mais autenticidade à faixa. Sabemos que, dependendo da maneira que são feitas, comparações entre artistas femininas podem ser violentas mas, em vezes, analogias trazem validação. Laya é uma cantora que muito lembra os melhores momentos de Gal."

2. PERIGOSAH, "Deusas & Diabas"

"Fernanda Branco Polse é uma cantora de Londrina que mora em Belo Horizonte. Ela tem diversos projetos culturais e a banda PERIGOSAH é um deles. "Deusas & Diabas" é a única faixa da banda por enquanto e é um pop-rock sobre o tesão entre duas mulheres.

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E é interessante testemunhar essa nova roupagem do pop-rock brasileiro porque, pelo meu entendimento, é uma escola musical que ficou nos anos 2000 com a Pitty. Parece que o Brasil contemporâneo está mais ocupado com outras coisas."

3. Estela Cassilatti, "História de Fantasmas"

"Existem duas faixas "perdidas" na coletânea Ondas Sísmicas, que são "História de Fantasmas" e "Cowboy Cosmopolita". Essa canção da Estela, que narra uma experiência sobrenatural que ela teve numa madrugada sob a beira de um rio na Europa, foi ouvida por poucas pessoas na época - o disco é de 2008, pegou bem aquela transição entre o CD e o iTunes e acabou que ficou no meio do caminho.

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A Estela não canta há mais de uma década, então esse resgate foi quase como uma missão de vida para mim. "História de Fantasmas" é de excelência em tudo que se propôs a ser e espero que a coletânea traga vida nova para ela."

4. Kika, "Por Aí"

"Kika é uma das cantoras mais respeitadas na cena de São Paulo e essa faixa faz parte do segundo disco dela, de 2016. "Por Aí" é uma reflexão bucólica, uma intervenção simples e leve dentro da selva de pedra em que a artista se insere. A leveza, inclusive, é uma das principais características musicais e líricas do trabalho da Kika.

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"Atravessando o centro da cidade /Sintonizando a imensa rádio mundial /Revelando as rotas /Abrindo as apostas /Para quem quer se soltar" são alguns dos versos da canção que, assim como Kika, propõem uma alternativa ao ritmo frenético da grande metrópole."

5. Tika, "Anoitece"

"Para quem não sabe, também existem divas pop que se criam no underground do Brasil. A Tika é uma dessas cantoras de alma vaidosa, no que vai muito além de seu visual, mas que abrange principalmente a natureza de sua obra, ainda curta e recente.

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"Anoitece" é um de muitos de seus hinos pop, inclusive escrito em parceria com Kika, cantora da faixa anterior. O timbre da Tika é super sensual, desnudo, uma voz de veludo e que, por ser raro, torna seu pop não-convencional e distante de qualquer tipo de obviedades."

6. Lila, "Puérpera"

"A versatilidade da Lila é o que me despertou para convidá-la para fazer parte do Ondas Sísmicas. A Lila, nos anos 2000, era Eliza Lacerda, uma cantora de bossa-nova que experimentou sucesso comercial no Japão.

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Depois que o primeiro filho dela nasceu, ela também renasceu como artista e passou a ter um trabalho musical voltado para a maternidade. "Puérpera" é uma canção sobre depressão pós-parto, com requintes de house e EDM. É uma faixa explosiva, que escolhi para abrir o lado B do vinil porque simplesmente dá o nome."

7. Pat C., "Cowboy Cosmopolita"

"Sou apaixonado por essa faixa e ela, assim como a da Estela, foi ouvida por poucas pessoas na época do lançamento, em 2008. É um hino pop, obviamente inspirado na galera do Cansei de Ser Sexy, mas que também precede artistas como Letrux e Luísa & Os Alquimistas - que só surgiram mais de 10 anos depois.

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A Pat C. lançou vários álbuns exclusivos para o mercado japonês e o "Cowboy Cosmopolita" ficou como descarte, pois os japoneses não entenderam a acidez ali contida. É uma faixa que debocha do cavalheirismo, do homem que quer pagar a janta, que pula na frente da bala do revólver. Definitivamente à frente de seu tempo.

Vinda do Japão, onde era uma popstar recebida sob uivos eufóricos, Pat não encontrou sucesso comercial no Brasil e, há 15 anos, abandonou o ofício. "Cowboy Cosmopolita" não apenas tem o poder de reviver sua carreira, mas de ser sucesso nacional tardio!"

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8. Malu Maria, "O Paraíso é Dentro"

"A Malu encontrou sucesso cantando num tom baixo, moderado, contido. Em "O Paraíso é Dentro", que divide o álbum Ella Terra (2020) ao meio, ela mostra grande versatilidade quando impõe a voz de maneira incisiva, quase que como um deboche, um afronte.

Os vocais são divididos com a Lucinha Turnbull, grande guitarrista que foi parceira da Rita Lee na banda Cilibrinasdo Éden. "O Paraíso é Dentro" é a cota da psicodelia da coletânea, o que é conferido principalmente pelos sintetizadores do Chicão Montorfano (da Quartabê) e pela guitarra da própria Lucinha, e é uma canção sobre rejeitar o conservadorismo das tradições históricas. Malu é uma artista que vem mais e mais afiada a cada lançamento. Ella Terra é um disco para se prestar atenção."

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9. Uli, "Respeita as Mina"

"Pensando em reinvenção, a Uli é um dos principais exemplos presentes na coletânea Ondas Sísmicas. A jundiaiense se divide entre o vocal principal do Sandália de Prata (banda de samba-rock que emplacou sucessos nacionais no fim dos anos 2000) e a carreira solo, em que renasce como uma cantora orientada pela percussão, pela batucada e pelo afrobeat.

A faixa "Respeita as Mina", primeiro lançamento da Uli em quase 10 anos, é uma ode às mulheres de todas as cores, formas e naturezas. "Respeita as mina da batalha do rap /pretas, índias ou trans /Brancas, gordas, sapatas." Não consegui incluir uma mulher trans ou travesti na lista de faixas, então a Uli dá o recado que a ideia desse compilado é ser plural."

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10. Dicy, "Rosa Semba, Menina que Deus Crioula"

"O álbum Rosa Sembada maranhense Dicy foi idealizado e gravado durante alguns anos até ser lançado oficialmente em 2016, e inclusive tornou-se popular na comunidade do vinil por ter sido disponibilizado no formato.

É um álbum que carrega muita pureza e elevação espiritual mas que, de alguma forma, encontra caminho para abordar pautas de interesse social, como ecologia e negritude. A faixa-título, que encerra a coletânea Ondas Sísmicas, é uma ode à mulher negra e nordestina e que tem samba no pé.

"Eu também nessa roda quero me criar /Para fazer nessa ginga um samba meu" é um dos versos que embala a balada de ska e reggae, sofisticada pelos arranjos de Javier Sirera. A Dicy encerra o LP de maneira majestosa, com muita luz para abrir os caminhos para um novo volume."

 

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