Relembrando Elis Regina: Há 40 anos, morria o ícone da música brasileira [ARQUIVO RS]

João Marcello Bôscoli e Pedro Mariano, filhos de Elis Regina, e parceiro musical Jair Rodrigues contam memórias da Pimentinha

Guilherme Bryan Publicado em 19/01/2022, às 16h22

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Elis Regina (Foto: publicada no livro Furacão Elis, cedida à Rolling Stone Brasil pela Editora LeYa)

Elis Regina construiu um legado quase imensurável para a música brasileira. Considerada uma das cantoras mais importantes da história do Brasil, marcou gerações com seu talento como intérprete e revolucionou a MPB, ao lado de grandes parceiros como Tom Jobim, Jair Rodrigues, Ivan Lins, Gilberto Gil, entre muitos outros. Há 40 anos, em 19 de janeiro de 1982, a estrela morreu no auge da carreira e deixou uma legião de fãs, amigos e familiares queridos. Por isso, resgatamos este texto de 2012, que traz a perspectiva dos filhos de Elis sobre a mulher e artista que era.


Nascida em Porto Alegre, em 17 de março de 1945, Elis Regina Carvalho Costa foi apelidada pelo poeta Vinicius de Moraes de Pimentinha, em função do temperamento explosivo e por dizer tudo o que lhe vinha à cabeça. E essa garota de personalidade forte tornou-se uma das maiores — senão a maior — cantoras brasileiras de todos os tempos. De 1961 a 1980, gravou 18 discos de estúdio e seis ao vivo.

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Do casamento com o compositor, produtor e jornalista Ronaldo Bôscoli, veio o filho João Marcello Bôscoli. Já com o pianista e arranjador César Camargo Mariano, ela teve Maria Rita e Pedro Mariano. Elis se foi cedo, aos 36 anos, no dia 19 de janeiro de 1982, em São Paulo, devido a uma overdose de cocaína e bebida alcoólica.

João Marcello Bôscoli nasceu no Rio de Janeiro, em 1970, e hoje é um dos mais importantes empresários musicais do Brasil. Ele garante que herdou da mãe a entrega total e a crença no ofício. “Sobre o gosto pela música, ela manteve sua temporada de shows até o oitavo mês da minha gravidez. Então como poderia ser diferente?”. Para ele, a mãe é o Pelé do canto. “Precisamos de vários cantores combinados para, talvez, chegarmos perto do seu talento. É um acidente genético,” ele completa.

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Do dia-a-dia com a mãe, João Marcello sente falta das atividades caseiras, como cozinhar, arrumar a casa, encapar os cadernos e ser levado por ela à escola. Para ilustrar a relação dos dois, ele conta: “Certa vez, ela estava com dor na coluna e veio dormir na minha cama. Me senti um super-herói, cuidando dela e fazendo carinho na sua cabeça.” Hoje, ele é pai de Arthur, nascido em agosto de 2011 e fruto do casamento com a apresentadora Eliana. João Marcello afirma que espera poder amá-lo e respeitá-lo como foi pela mãe, e também dar liberdade e limites claros, além do contato com a natureza.

Nascido em 1975, Pedro Mariano não teve um convívio tão intenso com Elis como João Marcello. “Minhas lembranças dela são, na verdade, uma grande mistura de imagens, que foram formadas ao longo do tempo por histórias a mim contadas. Tenho na minha memória flashes dela, mas nada muito claro, o que é muito frustrante,” comenta Pedro. “Gostaria muito de me sentar e lembrar essas histórias. Poder sentir saudade disso, mas na verdade isso não acontece. Já da artista, como todos, tenho várias imagens, mas que também acabam se misturando com coisas que vi em matérias de TV ou jornal.”

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Com relação aos aprendizados, Pedro Mariano é taxativo: “Tudo o que faço aprendi com meu pai, que sempre teve o cuidado de dar crédito de muitas de suas atitudes a ela também. Eles viveram muitas coisas juntos profissionalmente. Suas histórias se mesclam. Às vezes, ele me diz que alguns traços de minha personalidade como músico são parecidos com os dela. Pode ser genética, ou pode ser que de tanto vê-lo trabalhar de perto eu possa ter absorvido traços comuns aos dois.”

Maria Rita, que em março de 2012 fez, pela primeira vez, shows com o repertório eternizado pela mãe, não pôde falar à reportagem da Rolling Stone Brasil.

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Grandes parceiros

Outra presença marcante na vida de Elis Regina foi a do cantor Jair Rodrigues, que lembra que o primeiro encontro entre os dois aconteceu nos bastidores do programa de televisão Almoço com as Estrelas, de Airton Rodrigues e Lolita Rodrigues, na TV Tupi. 

Eu estava começando a ter meus sucessos, como ‘Deixa Isso pra Lá,’ e ela vinha dos festivais, com ‘Arrastão.’ Éramos da mesma gravadora. A gente se encontrava na noite, mas foi no programa onde ficamos batendo papo mais à vontade. Ela disse que era minha fã e que gostaria que eu desse um autógrafo para ela, e eu sugeri trocarmos as gentilezas. A partir dali, nasceu uma grande amizade.”

No próprio programa, Airton Rodrigues percebeu o grande entrosamento entre os dois e pediu para que um cantasse a música do outro. Dias depois, em 8 de abril de 1965, Jair Rodrigues foi participar de um show no Teatro Paramount, com produção de Walter Silva, o Pica-Pau, e Manoel Barenbein, e voltou a encontrar Elis. Foi ali que surgiu a ideia de eles ensaiarem o pout-pourri Dois na Bossa, que reunia canções de Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Zé Kéti, entre outros.

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Juntos, Jair Rodrigues e Elis Regina gravaram três discos ao vivo, todos com o título Dois na Bossa, e comandaram o programa O Fino da Bossa, da TV Record, durante três anos. “Nós juntávamos a fome com a vontade de comer. Era uma alegria geral, total e irrestrita, tanto fora, como dentro do palco. Nós vivíamos num mar de rosas.” Depois que o programa saiu do ar, os dois cantores continuaram sempre se encontrando, tanto que Elis virou grande amiga da esposa de Jair, Clodine. Curiosamente, o primeiro filho do casal, Jairzinho, nasceu no mesmo dia da Pimentinha. “Eu tenho muita saudade dessa menina,” finaliza o cantor, que se sente feliz com o fato de que os filhos dele são muito amigos dos filhos de Elis.


Nara Leão

O 19 de janeiro também marca o nascimento de outra grande voz da MPB. Se estivesse viva, Nara Leão, considerada rival de Elis Regina, faria 70 anos nesta data. 

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Esse texto foi originalmente publicado sob o título "Relembrando Elis Regina" na edição da Rolling Stone Brasil de janeiro de 2012.