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Música / LANÇAMENTO

Rico Dalasam lança Escuro Brilhante: ‘Meu grande passo em direção ao amor sou eu me levando no braço’ [Entrevista]

Álbum fecha a trilogia formada por Dolores Dala Guardião do Alívio (2021) e Fim das Tentativas (2022)

Rico Dalasam (Foto: Carol Curti)
Rico Dalasam (Foto: Carol Curti)

Irreverente, criativo, inovador. Podemos tentar descrever Rico Dalasam de diversas formas. Dificilmente conseguiremos. Resumi-lo a um só adjetivo seria como tentar simplificar algo tão complexo que fez com que o próprio artista tenha mergulhado em si para desenvolver os últimos trabalhos. Dolores Dala Guardião do Alívio (2021) e Fim das Tentativas (2022) foram o começo e meio de uma trilogia que o rapper encerra com Escuro Brilhante, Último Dia no Orfanato Tia Guga

Encarte Escuro Brilhante (Imagem: Divulgação)

Entre shows experimentando as músicas novas e uma audição para os fãs, Rico se mostra — mais uma vez — uma das canetas mais potentes do rap brasileiro. O artista conversou com Rolling Stone Brasil não só sobre esse momento, mas também sobre o processo que o trouxe até aqui. 

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Escuro Brilhante nasce, de certa forma, com os antecessores. O projeto começou em 2018 e esse é o elemento que fecha a tríade. O nome pode parecer paradoxal, e é. “Sempre tem dualidade no meu processo, porém dessa vez tinham outras complexidades,” conta. Se em Fim das Tentativas o artista tenta se liberar do exercício doloroso de dar nome às coisas, aqui vemos um movimento muito importante: o passo em direção ao amor.

O nome completo do disco é Escuro Brilhante, Último Dia no Orfanato Tia Guga. Ele centraliza a ideia de que, se hoje eu quero dar um passo na matéria do amor, o grande ato simbólico era eu voltar e, nessa altura da vida, me buscar no orfanato.

“Talvez o meu grande ato seja eu me levando no braço,” diz durante a conversa, com uma prévia do poema de abertura do álbum, “Doce.” Rico brinca com a temporalidade para se apoderar cada vez mais de si. Ele se carrega no braço e, de alguma maneira, nos leva junto.

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Alguns meses antes do lançamento, o artista usou as redes sociais para falar sobre o processo de produção do álbum “Ninguém faz nem ideia sobre o que é esse disco… precisei ir léguas e léguas mais fundo do que DDGA em narrativa,” escreveu no perfil do X — antigo Twitter. Isso vem de uma elaboração de muitos anos, que começou a se revelar no desejo de fala.

Nesse álbum, Rico fala de amor de uma maneira diferente daquilo visto nos trabalhos anteriores. Aqui, ele fala de orfandade, da relação com a espera e de temas que não estavam nos outros discos, pelo menos não de maneira tão exposta. Ele expressa que isso é a “elaboração do que me constitui.” 

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Enquanto artista, o compositor expressa que tem uma relação diferente com a comunidade que o rodeia. “Não sei expressar necessidade, sei agradecer o envolvimento. Minha jornada é solitária. Por isso, quando entro no abrigo, entro com todas as forças. Quando falo de amor, é com todas as forças. Eu movo o mundo por algo com o qual estou certo, porque sou eu e eu.” 

Musicalmente, Escuro Brilhante traz o uso das cordas de uma maneira que ainda não havíamos visto no trabalho de Rico. Mas a musicalidade está diretamente ligada à imagem É a partir disso que ele entende como vai se dar essa exploração dos instrumentos.

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Esse, inclusive, é um dos aspectos mais marcantes, desde o início da carreira: a assinatura estética. Para traduzir a poesia visualmente, o artista se esquiva da obviedade. Isso pode ser visto nos clipes, capas e na própria identidade visual. 

Para ele, isso é um exercício de semiótica. Quando conversamos, a capa de Escuro Brilhante ainda não havia sido divulgada, mas ele já estava definida naquele momento: “O material desse disco está muito calçado em arquivos, mexer com tudo isso é muito mágico.”

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O trabalho de transformar experiências, sentimentos e sensações em composições é uma elaboração valorizada pelo artista. “Gasto boa parte do meu dia com a minha cabeça a milhão,” conta. “Agora falamos pela primeira vez de um disco feliz, desde muitos anos. Músicas para cima e tudo mais. Foi uma elaboração muito funda, porque para mim também mostra uma coisa que nem sabia.”

Rico confessa que chegou a se questionar se deveria colocar as próprias ideias em um lugar de alegria. Ele se tornou uma pessoa fechada. “As pessoas enxergaram um signo de masculinização da imagem, mas, na verdade, foi só porque eu me fechei,” explica. “Não é uma questão para mim, é de quem está chegando.”

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Grupo dos Vai Sozinho 

Apesar disso, Rico tem umas das comunidades de fãs mais engajadas. E ele reconhece isso. Recentemente, ele organizou um grupo para pessoas que iam sozinhas aos shows se encontrarem e conhecerem. Na apresentação que rapper fez em São Paulo no dia do aniversário dele — sobre a qual falaremos mais a frente — eles usavam pulseiras de neon para se identificarem. Na comunidade feita no Instagram, o artista sempre divide novidades e pensamentos, chegou inclusive a liberar uma prévia do álbum lá.

O rapper relata  que, é difícil descrever ao que atribui essa conexão com a própria arte. “São pessoas que se identificam em um lugar muito subjetivo, que não é espacial ou geográfico. Pode ter uma questão com sexualidade, cor. Mas ainda assim não dita. É de um lugar muito profundo que eu me conecto com as pessoas.”

O que pode ser, talvez, essa coisa do orfanato. Mas é desse lugar em que se desenvolve, ao longo da vida, uma capacidade solitária, mas muito aguerrida, de ser 10, de ser 30, de ser todo mundo. Não sou um, sou a força de muita coisa. Sou um movimento.

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Aniversário

Em 21 de julho de 2023, Rico fez um show onde apresentou algumas canções do novo álbum. O evento foi marcante, também, porque o cantor faz aniversário no dia 22. Em um momento da noite, confessou que costumava se afastar nesta data. Quando questionado sobre o que mudou dentro dele para essa postura mudar, o rapper explicou como “o tempo está passando. Desde que comecei a trabalhar, todas as semanas de 22 de julho eu estava em Nova Iorque.”

Depois de um tempo, o refúgio dele passou a ser uma praia deserta em Marselha, na França. “Chegou uma hora na qual falei ‘não, tá errado’, e aí fiz essa festa com duas mil pessoas.” `Permitir que todas essas pessoas comemorassem mais um ano com ele foi um exercício bom. 

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Após esse dia, no qual algumas faixas do novo álbum foram apresentadas, voltou a trabalhar nelas. “Eu faço isso com as coisas. Primeiro coloco para as pessoas, até para mim, para entender a pluralidade daquilo. Depois, ajusto,” explica. Elementos que “não cabiam” foram tirados, outros foram colocados: “Dei um grau em umas duas músicas, que foi decisivo! Isso foi muito importante.”

Falamos também sobre o que o inspira e, surpreendentemente, ele bebe pouco da fonte da música. Além da imagem, como havia falado, Rico se interessa muito por dois meios de transporte: aviões e barcos. “Sempre que quero estar bem comigo, vou de barco para algum lugar. Porque, no barco, as coisas acontecem, na minha cabeça.”

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Os acabamentos, no entanto, são feitos no bar. “Muitas vezes sozinho,” confessa. Foi assim que ele terminou “Braile,” por exemplo. “Numa calçada em Taboão [da Serra], com uns amigos antigos, eles tinham uma garrafa de uísque falso. Bebi lá com eles, foi lindo,” relembra. Ele também já compôs em Marselha e em Salvador, onde nasceu “Quebrados,” que no álbum, ganha a luxuosa colaboração de Liniker

Apesar da importância na cena do Hip Hop, Rico não se atenta muito ao fato de ser referência para outros artistas. Ele sabe que influenciou uma geração de artistas, pelas letras, por ser um dos precursores do queer rap, mas não é um aspecto que o ilude. “Eu tento fazer um poema sempre inalcançável.”

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Por outro lado, ídolo para muitos, Rico também tem um lado fã. O cantor e compositor belga Stromae é alguém com quem ele sonha colaborar. Ele passou o aniversário de 2022 em um show do artista em uma arena medieval. “Eu dancei, chorei à beça.”

Para essa nova fase, com o lançamento de Escuro Brilhante, podemos esperar músicas alegres, que contam episódios, situações de troca amorosas. Rico se mostra empolgado quando perguntado sobre como será a tradução disso para os palcos. Ele relata como a obra traça a própria temporalidade.

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Quando falamos sobre clipes, no entanto, o artista não confirma. “Eu posso trazer produções mais documentais sobre as coisas. Mas clipe, eu não vejo mais, acho que perdi o brilho sobre essa estética.” Ele cogita, porém, algo para “Quebrados.” O rapper liberou um vídeo para “Espero Ainda,” primeiro single do álbum, que não pode ser classificado como um clipe, mas que traz a identidade visual dele de maneira singular.

Quero contar histórias. Hoje, passei as fitas desse período, de 1997 a 2001,  para digitalizarem, e é isso. Tenho nenhum desejo. Minha coisa [é outra, ela tá se revelando assim.

Sobre os planos para o que vem após o lançamento, ele é categórico: “Vamos para a estrada.” Desde julho, quando apresentou a prévia, temos sido presenteados com algumas canções do álbum, agora, poderemos ver integralmente a obra tomando forma. 

Escuro Brilhante é um registro de felicidade em meio a uma trajetória solitária, com a qual Rico permite que acompanhemos. Se ele quer contar histórias, queremos ouvi-las. Se ele se carrega pelo braço em direção ao amor, observamos o movimento e podemos afirmar como, mais uma vez, ele se supera artisticamente. 

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