Após pregação gospel em show emo, vocalista do NLM rebate: 'ninguém foi obrigado a assistir'

Após performance cristã em festa de rock, Ben Pierce, do NLM, afirma que organização do evento estava de acordo com conteúdo do show, mas reconhece conteúdo sensível de apresentação: ''aviso prévio é necessário'

Eduardo do Valle (@duduvalle) Publicado em 22/06/2022, às 17h32

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Ben Pierce (à direita), vocalista no NLM; à esquerda, o brasileiro Moah (Divulgação)

Ben Pierce, vocalista do NLM, falou à Rolling Stone Brasilsobre a polêmica envolvendo seu show recente no Carioca Club em São Paulo. Na última sexta-feira (17), a banda tocou em um evento gratuito de rock acompanhado pelo Scalene e Sebastianismos. Entretanto, parte do público surpreendeu-se quando o grupo estadunidense levou ao palco mensagens cristãs e performances envolvendo uma interpretação gráfica de morte com direito a caixão de LED no palco.

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"Ninguém foi forçado a assistir o show", disse Pierce. Segundo o vocalista, "a maioria das bandas, produtores e organizadores sabiam de antemão quem nós éramos e estavam receptivos após o nosso show". 

Ben Pierce (à direita), vocalista no NLM; à esquerda, o brasileiro Moah (Divulgação)
Ben Pierce (à direita), vocalista no NLM; à esquerda, o brasileiro Moah (Divulgação)

 

A declaração contraria outras versões, como a publicada pelo Scalene em redes sociais, que diz: "É indignante como ninguém estava ciente do que aconteceria nos shows". Para Pierce, "apenas depois dos comentários negativos online as pessoas começaram a mudar de perspectiva."

Questionado sobre o conteúdo gráfico do show - que envolveu a performance de uma batalha pela vida de uma menina e a encenação da morte do narrador em um caixão de LED, Pierce diz que "é verdade que há alguns elementos complexos em nossos shows, mas essa é a vida real". Ele ainda reforça que o uso de conteúdo sensível "é bem menor se comparado com o que as pessoas assistem nas plataformas digitais diariamente", mas reconhece que "um aviso prévio é necessário" em seu show.

Usuários ainda acusaram o NLM de gerar desconforto na plateia ao usar a frase "set us free from slavery" ("nos liberte da escravidão") na performance. Questionado sobre o assunto, Ben afirma que a sentença "foi completamente mal interpretada" e que trataria de uma "escravidão espiritual", reforçando ainda: "não foi para ser um comentário da história da escravidão no Brasil. Condenamos o racismo em todas as formas".

Por fim, Ben Pierce confirma que o NLM é parte da Steiger, comunidade religiosa criada nos anos 80 que, segundo site oficial, tem o objetivo de evangelizar jovens que não "pisariam em uma igreja”: "Somos parte da Steiger. Nossos shows são financiadas através de doações de pessoas ao redor do mundo". Ben Pierce é filho de David Pierce, fundador da Steiger International.

Veja abaixo a entrevista com Ben Pierce, vocalista do NLM:

Rolling Stone Brasil: Relatos do público que compareceu ao show dão conta de uma 'tentativa de evangelização' da plateia - mesmo sem conhecimento ou consentimento da mesma. Vocês concordam com essa afirmação?
Ben Pierce: Nós acreditamos que toda boa arte tem uma mensagem. Todas as bandas que tocamos nessa tour tinham uma mensagem, mas nenhuma precisou alertar sobre o que falariam. Simplesmente compartilharam o que acreditaram sem hesitar. Fizemos o mesmo. Ninguém foi forçado a assistir o show e a maioria dos eventos foi gratuita. Bons filmes, boas músicas, boas pinturas surpreendem as pessoas. Eles desafiam a forma de olharmos o mundo. Acreditamos que esse é o propósito da arte.

O que importa pra nós é amarmos as pessoas, que sejamos respeitosos e simplesmente oferecemos uma opção para as pessoas considerarem. Foi o que tentamos fazer nessa tour.

Rolling Stone Brasil: Quem assina a direção do show? Quantas pessoas estão envolvidas e qual é a mensagem da performance apresentada?
Ben Pierce: Vários artistas e criativos diferentes contribuíram para que esse show fosse possível. Queremos usar todas os meios de mídia para o nosso show e isso requer a união de pessoas talentosas.

Rolling Stone Brasil: O show apresenta uma encenação gráfica de morte, com direito a uma forca e um caixão de LED. Em algum momento houve a preocupação em alertar a audiência para conteúdo sensível?
Ben Pierce: É verdade que há alguns elementos complexos em nossos shows, mas essa é a vida real. Também é bem menor se comparado com o que as pessoas assistem nas plataformas digitais diariamente. Tentamos ser sensíveis e cuidados, mas a coisa mais importante é que não apresentemos apenas a escuridão mas também a luz e a esperança que acreditamos. Vemos agora que um aviso prévio é necessário e pedimos desculpas por qualquer um que se sentiu machucado pela nossa performance.

É verdade que há alguns elementos complexos em nossos shows, mas essa é a vida real

Rolling Stone Brasil: Colegas de palco e organizadores do show no Carioca Club acusam a banda de falta de clareza por parte do grupo sobre o conteúdo da performance. Como vocês respondem a estas acusações?
Ben Pierce: Novamente, nenhuma outra banda alertou previamente sobre o conteúdo de seus shows. Ouvimos mensagens politicas de quase todas as bandas que tocamos juntos e ninguém nos alertou o que aconteceria, mas está tudo bem, isso é rock'n'roll, isso é arte.

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A verdade sobre a maioria das bandas, produtores e organizadores sabiam de antemão quem nós éramos e estavam receptivos após o nosso show. Nos abraçaram, nos parabenizaram, tiraram fotos conosco e nos disseram que respeitavam nossa performance. Nós tivemos um relacionamento incrível com muitas bandas que fazemos tour junto. Apenas depois dos comentários negativos online as pessoas começaram a mudar de perspectiva. É triste porque a maioria das pessoas era bem positiva, mas essa é a realidade da internet hoje.

Nós tivemos um relacionamento incrível com muitas bandas que fazemos tour junto. Apenas depois dos comentários negativos online as pessoas começaram a mudar de perspectiva

Rolling Stone Brasil: Falando dos trechos mais sensíveis da apresentação, houve quem se ofendesse com a frase 'set us free from slavery' ('nos liberte da escravidão'). O Brasil, como os Estados Unidos, é um país profundamente marcado por questões envolvendo escravidão. Essa é uma mensagem que vocês carregam em todas as suas apresentações? Como vocês gostariam que as pessoas a recebessem por aqui?
Ben Pierce: Essa foi uma sentença que foi completamente mal interpretada. Não foi para ser um comentário da história da escravidão no Brasil. Condenamos o racismo em todas as formas. Somos uma banda formada por pessoas de todas as partes do mundo. Muitos países, etnias e culturas. Acreditamos que todas as pessoas são importantes e criadas por Deus. Essa sentença é sobre a escravidão espiritual. Sobre pessoas que são escravas de mentiras. Mentiras que dizem a elas de que não são importantes. Que não valem nada. Que suas vidas não importam. Acreditamos que Deus pode libertar pessoas dessas mentiras. É isso que queríamos dizer.

Ben Pierce (à direita), vocalista do NLM; à esquerda, o brasileiro Moah (Divulgação)
Ben Pierce (à direita), vocalista do NLM; à esquerda, o brasileiro Moah (Divulgação)

 

Rolling Stone Brasil: Chamou sua atenção a reação do público de sexta à apresentação da banda? Vocês já passaram por situações semelhantes?
Ben Pierce: Da nossa perspectiva, o público, produtores e bandas estavam bem receptivos no Domingo. Tivemos ótimas conversas depois do show e a vibe com as outras bandas foi incrível! Isso não é incomum. Em 99% das situações as pessoas são positivas e respeitosas. Claro que nem todos aceitam o que dizemos, mas está tudo bem! Todos são livres para acreditar no que quiserem, mas essa mensagem transformou nossas vidas e queremos que outras pessoas experimentem a alegria e liberdade que temos. É por isso que compartilhamos essa mensagem. Não porque somos melhores que alguém, mas porque queremos que todos saibam que são amados e criados para um propósito.

Rolling Stone Brasil: Como vocês avaliam a turnê brasileira?
Ben Pierce: Claro que a crítica foi forte, mas amamos o Brasil e amamos os brasileiros. Pedimos desculpas por qualquer um que se sentiu machucado, sempre estamos tentando crescer e ser melhores.

Rolling Stone Brasil: Qual a relação com o grupo Steiger e como tornaram a turnê brasileira viável economicamente com shows gratuitos?
Ben Pierce: Somos parte da Steiger. Nossos shows são financiadas através de doações de pessoas ao redor do mundo.

 

A polêmica envolvendo a apresentação do NLM no Brasil ganhou fôlego na terça-feira (21), após críticas online viralizarem. Segundo usuários, a plateia de uma festa emo em São Paulo teria sido surpreendida pelo teor religioso- e por vezes gráfico - da apresentação do grupo na última sexta (17), durante sua passagem por São Paulo.

 Pelas redes sociais, representantes do Scalene e do Sebastianismos afirmaram que não sabiam do conteúdo do show - que envolvia uma encenação de morte no palco e uma frase envolvendo 'libertação da escravidão'.

 
 
 
 
 
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Em seu perfil no Instagram, o NLM postou um comunicado nesta quarta-feira (22), chamando a situação de 'controvérsia' e dizendo que entende 'que muitas pessoas se sentiram traídas e enganadas pela mensagem' do show. O grupo ainda pediu desculpas repetidamente, declarou que estão 'sempre procurando formas para crescer' e que estão 'disponíveis para qualquer um que queira ter uma conversa respeitosa'.

A turnê do NLM pelo Brasil já passou por Guarulhos, São Paulo, São José dos Campos, Rio de Janeiro, Araucária e Blumenau. A banda ainda tem shows marcados em Criciúma, Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba.