15 anos sem Chico Science

"Chico era inovação, era a ideia de seguir em frente", relembra Dengue, baixista da Nação Zumbi

Murilo Basso Publicado em 02/02/2012, às 07h01 - Atualizado às 09h32

Chico Science
Divulgação

Chico Science nasceu no interior pernambucano. Inquieto e dono de uma criatividade singular, era muito ligado em diferentes batidas musicais, ao hip-hop, e buscava incorporar elementos do maracatu e ciranda as suas canções, contrapondo toda diversidade cultural de seu estado à biodiversidade do mangue.

Chico morreu de maneira trágica, em um acidente de carro no dia 2 de fevereiro de 1997, deixando apenas dois álbuns ao lado da Nação Zumbi (Da Lama ao Caos e Afrociberdelia). Mesmo assim, ajudou a modificar a cultura pop no Brasil. “Inquieto era uma palavra que o definia bem. Você olhava e ele estava sempre com uma expressão honesta, com os olhos arregalados, como ele diz em uma musica: ‘Fechando os olhos e mordendo os lábios, sinto vontade de fazer muita coisa’ [“Enquanto o Mundo Explode”]. Ele era esse cara”, conta o baixista Alexandre Dengue, o antigo companheiro de Nação.

O cantor era um garoto do subúrbio, que acabou encontrando uma maneira de atrair a atenção – na época, embora culturalmente rica, Recife era considerada umas das piores cidades para se viver. Nesse cenário, Science se tornou uma referência, se reinventando sem perder suas raízes. Boa parte disso se deve a sua capacidade para compor, como lembra Dengue. “Era incrível. As palavras viravam música naturalmente, era algo absurdo. Mesmo que não tivesse a letra, ele simplesmente assobiava a melodia e depois a encaixava.”

Science conquistou seu espaço graças à originalidade na mistura de ritmos regionais. E se hoje a receita é considerada clássica, na época, com Da Lama ao Caos, era algo inovador. Produzido por Liminha (Mutantes), o álbum abriu as portas para o movimento que ficou conhecido internacionalmente como manguebeat. “Não acho o álbum nem um pouco datado. É tão atual como um disco do Mutantes, como um disco do Secos e Molhados. Você ouve e percebe que ainda não perdeu o frescor. Sempre irá soar a frente de seu tempo, contemporâneo”, analisa Dengue.

“Nós ainda comentamos quando tocamos uma canção antiga ou quando fazemos uma nova: ‘Pô, será que ele iria gostar disso?’”, continua o baixista. Ele acredita que Science soube desempenhar bem seu papel, e a importância dele para a música nacional só cresce conforme o tempo passa. “Algumas pessoas ainda estão descobrindo o Chico, tanto a nova geração como a galera da nossa idade.”

Para Dengue, há muita influência do ex-vocalista no atual trabalho da Nação Zumbi. A ideia de sempre estar em constante evolução ainda se faz presente e, se há algum segredo na fórmula da banda, é a liberdade para mudar, sem medo e sem preconceitos. “Chico era inovação, era a ideia de seguir em frente, colocar a cara pra bater. Essa é a lição que aprendemos com ele. Vamos carregar isso para sempre, não só na Nação, mas também em qualquer projeto paralelo que fizermos. E, gostem as pessoas ou não, é isso que estamos fazendo. Estamos seguindo em frente.”

Chico uniu a tradição cultural a suas necessidades de expressão. Questionava e propunha mudanças através de uma linguagem crítica. “Algo que ele sempre dizia era ‘o futuro é agora’. Dizia isso e trabalhava em cima. Hoje, com ele, tudo seria ainda mais fora de espaço. Se assim [como a banda é atualmente] a galera já ouve e entende, com o Chico estaríamos dois, três degraus acima.”

Relembre alguns momentos de Chico Science com a Nação Zumbi nos vídeos abaixo.