25 anos de Mamonas Assassinas: Como um disco com temas polêmicos, letras politicamente incorretas e guitarras pesadas roubou a atenção do Brasil

Primeiro e único álbum de estúdio da banda foi lançado no dia 23 de junho de 1995

Felipe Grutter Publicado em 23/07/2020, às 07h00

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Os Mamonas Assassinas (Foto: Divulgação)

"Atenção, Creuzebek. Ao toque de quatro já vai. Já, já, já, já vai!"

Há exatos 25 anos e um mês atrás, aconteceu o lançamento do primeiro e único disco de estúdio do Mamonas Assassinas, pela gravadora EMI e leva o mesmo nome da banda. Com 14 faixas no total, o álbum entrou para a história da música brasileira com humor escrachado e pela pegada de rock com mistura de alguns outros gêneros musicais, como brega, heavy metal, pagode, forró, música mexicana e vira.

A banda era formada por Dinho (vocal), Samuel Reoli (baixo), Júlio Rasec (teclado), Sérgio Reoli (bateria) e Bento Hinoto (guitarra).

Mamonas Assassinas foi um sucesso absoluto e, em menos de um ano de lançamento, vendeu mais de três milhões de cópias, a primeira vez que esse marco foi atingido na música brasileira. A obra foi certificada como 3x diamante pela ABPD.

Após o lançamento do disco, os Mamonas Assassinas saíram em turnê pelo Brasil. Além disso, o grupo se apresentou em diversos programas de televisão da época e sempre atraíram atenção da audiência.

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No entanto, com um caminho muito promissor no futuro, Dinho, Samuel, Júlio, Sérgio e Bento acabaram por falecer no dia 2 de março de 1996, quando o jatinho da banda se chocou na Serra da Cantareira. A banda e o restante da tripulação morreram na aeronave. Eles viajavam de Brasília ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Mesmo com uma carreira curtíssima e com um disco repleto de temas polêmicos, letras politicamente incorretas e guitarras pesadas conseguiram fazer os Mamonas Assassinas roubarem a atenção do Brasil.

Para falar sobre o disco e a banda, a Rolling Stone Brasil conversou com Rick Bonadio, produtor musical, e Ricardo Alexandre, jornalista e autor do livro Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar: 50 causos e memórias do rock brasileiro.

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Origem do Mamonas Assassinas

Antes dos Mamonas, veio Utopia, formada em 1989 por Bento Hinoto e pelos irmãos Samuel e Sérgio Reoli. Dinho entrou no grupo em 1990, durante um show deles no Parque Cecap, conjunto habitacional de Guarulhos. O público pediu para Hinoto e os Reoli tocarem "Sweet Child o' Mine", do Guns N' Roses, mas nenhum deles conheciam a letra.

Então eles pediram a ajuda de alguém da plateia, o escolhido foi o próprio Dinho. Assim, ele virou o vocalista do Utopia. O último a entrar na banda foi Júlio Rasec.

Já em 1992, os membros do Utopia conheceram Rick Bonadio, quem viria a trabalhar com eles e ajudá-los a criar o Mamonas. “Eu tinha um estúdio (chamado Bonadio Produções, situado na Serra da Cantareira) que eu alugava e gravava muitos artistas e novos”, disse o produtor. “Eles alugaram o estúdio e apareceram com a banda dizendo: ‘a gente quer gravar um disco, você pode produzir, a gente não sabe como gravar e tal’. E eles me contrataram para produzí-los”.

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Capa de Utopia

Junto de Bonadio, Utopia fez o disco, com o mesmo nome da banda e seis faixas: "Horizonte Infinito", "Utopia 2", "Inconsciência", "O Outro Lado", "Joelho" e "Sabedoria". O grupo produziu 1000 cópias do CD, mas foi um fracasso e vendeu cerca de 100.

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Rick Bonadio disse já prever sobre o fracasso comercial do disco. “Eles faziam um som tentando fazer o rock dos anos 1980 voltar, muito influenciado pelo Titãs, Capital Inicial e Ira”, comentou. “E eu falava pra eles que esse som não vai voltar mais, a gente já tava no começo dos anos 1990”. 

Depois de trabalhar com o Utopia, Bonadio ficou amigo dos integrantes. Ele dava alguns trabalhos para Dinho. O vocalista cantava nas “vinhetas de publicidade, jingle e tal” do produtor. Não demorou muito tempo para o Mamonas Assassinas surgir.

Um certo dia, Dinho falou para Rick Bonadio sobre conhecer uma dupla sertaneja chamada Celi & Campelo, e eles faziam show para o mesmo vereador que Utopia também fazia, por isso o vocalista os conhecia. Os sertanejos queriam gravar um disco, e o cantor faria a ponte ao produtor e um bem bolado com Bonadio para conseguir uma grana com o produto.

“A gente tava gravando o Celi & Campelo só que aí um dia, a dupla não conseguiria vir ao estúdio e Dinho queria ir lá pra poder gravar umas músicas para um churrasco que eles iam fazer, e também, gravar umas zueiras”, explicou Bonadio

Rick Bonadio deixou Dinho gravar de madrugada com Rodrigo Castanho, produtor amigo de Bonadio.

No dia seguinte, Castanho falou ao amigo: “Rick, você precisa ouvir o que o Dinho gravou aí, cara eu morri de rir a noite inteira. É muito legal, você vai rachar de rir”. Dinho havia gravado nada mais nada menos que "Pelados em Santos", mas era “uma versão meio Reginaldo Rossi, bem brega”.

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Ao ouvir o produto de Dinho, Rick Bonadio teve uma ideia: e “se pegar essas letras e misturar com rock acho que dá pra conseguir uma gravadora”. O pessoal do Utopia não acreditou na hora, mas seguiram com isso mesmo assim.


Surge o disco Mamonas Assassinas

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Capa de Mamonas Assassinas

Inicialmente, os integrantes queriam fazer um disco com metade de músicas sérias e o restante o rock engraçado, mas Rick Bonadio achou melhor seguir com o LP todo com canções humorísticas. Os Mamonas gravaram uma demo, com as músicas "Pelados em Santos", "Robocop Gay", "Vira-Vira" e "Jumento Celestino".

Gravamos essas quatro músicas e aí pusemos em uma fita demo e eu liguei para Arnaldo Saccomani, amigo meu que tinha o contato das gravadoras. Ele foi ao estúdio, e falou [sobre as canções]: “Isso é bom pra cara***, vou mandar para a EMI”. Enquanto rolou esse processo, a banda tentou fazer outras músicas, e surgiram outras letras e riffs. João Augusto, da gravadora, decidiu contratar os Mamonas Assassinas.

Todavia, antes de fechar, Augusto “queria ver o show e na outra semana marcamos um show no Lua Nua”. O processo todo de mandar a demo, compor novas músicas, fechar contrato e fazer o disco demorou cerca de um mês.


Quem diabos é Creuzebek?

O famoso, icônico e ilustre Creuzebek citado nas vinhetas de Mamonas Assassinas é Rick Bonadio. No estúdio do produtor na época, ele trabalhava com um grupo de forró, cujo sanfonista se chamava Brezequeba

“Aí o Dinho tava num dia de uma gravação desse grupo de forró, e aí ele ficou meio que sacaneando, como uma brincadeira”, disse Bonadio. Então, quando eles foram gravar Uma Arlinda Mulher, o vocalista da banda iria chamar o produtor de Brezequeba, mas acabou, sem querer, por chamar o amigo de Creuzebek.

O momento seria no final da música, quando eles cantam: “A canção está acabando e o Creuzebeck / Está abaixando ali o volume (volume)”


Mas como um álbum feito em um curto período de tempo, com temas polêmicos, letras politicamente incorretas e guitarras pesadas conseguiu roubar a atenção do Brasil?

Para o jornalista Ricardo Alexandre, vários elementos na indústria da música daquela época contribuíram para o sucesso dos Mamonas Assassinas. “Uma coisa que a gente não pode esquecer é que a receita dos Mamonas era testada há pelo menos dois anos no mercado de rock”, afirmou. “Esses elementos da mistura, essa coisa das guitarras pesadas misturadas com ritmos regionais, o humor mais escrachado”.

Isso se deve porque, de acordo com Alexandre, o Brasil teve disco dos Raimundos, Chico Science e Nação Zumbi com misturas musicais inusitadas, uma das marcas mais forte de Mamonas Assassinas.

Além disso, o cenário musical da época era interessante e favorável ao público da banda. “A MTV deixava aquela fase mais experimental e se transformava numa emissora mais pop e influente junto ao público jovem. A 89 FM, a principal rádio de São Paulo que tava numa fase de grande audiência, abraçou o disco dos Mamonas desde o início”, pontuou o jornalista.

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Um outro ponto também ajudou no processo de popularização dos Mamonas Assassinas, segundo Ricardo Alexandre, a gravadora “EMI ainda não tinha a banda daquela época, quem de certa maneira contratou o grupo ali como um representante da geração”. 

Essa geração se definia muito bem com temas polêmicos, letras politicamente incorretas e guitarras pesadas, sinônimos perfeitos dos Mamonas.

Por fim, “o Brasil vivia um boom da indústria do disco, o mercado estava superaquecido esperando novidades”. Naquela época, diversos artistas “vendiam 1 milhão de discos”.

Porém, existia um fator igualmente importante que ajudou Dinho, Samuel, Júlio, Sérgio e Bento a serem um enorme sucesso na música brasileira. Eles sempre se mostravam bastante espontâneos, davam ótimas entrevistas - não à toa, eles colocavam lá em cima a audiência dos programas de TV da época - e o show deles era uma grande experiência. Eles proporcionavam um ótimo entreteniemento.


Certo, e as letras?

Não tem como negar que algumas letras dos Mamonas Assassinas possuem piadas as quais não seriam aceitas hoje em dia, e com toda razão. Se for analisar, eles fizeram piadas de cunho machista, homofóbico, com zoofilia, entre outros. 

No entanto, nos anos 1990, pautas sociais importantes não eram discutidas como hoje. Era normal, infelizmente, ver esse tipo de comportamento em programas de TV, no trabalho, em casa, entre outros. O debate não era evoluído como atualmente.

Como pontuou Rick Bonadio, “a sociedade brasileira não estava nessa evolução que a gente tá vendo hoje, ela ainda era uma coisa muito arcaica, então se aceitava tudo, assim como os preconceitos e as piadas também, fazia parte do dia a dia”. 

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Ricardo Alexandre seguiu a mesma linha de pesnamento. “Os Mamonas eram como a turma do fundão”, disse o escritor. “A própria história deles, de ter composto o álbum muito rapidamente e de ter um repertório pequeno, que eram músicas feitas como piada, reforça por um lado esse lado espontâneo deles e tira um pouco dessa carga preconceituosa”.

Alexandre continuou: “Essa fase dos Mamonas Assassinas também é muito própria de um humor mais preconceituoso. Hoje a gente trouxe discussões sobre a legitimidade de certos tipos de humor que não existiam naquela época”. Basicamente, aquele era um humor próprio daquele período, mas vale a pena ser considerada a rapidez e a despretensão de como as músicas foram feitas.


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