40 anos de O Iluminado: como o filme influenciou todo o gênero de terror nos cinemas [ANÁLISE]

O clássico filme de Stanley Kubrick é resultado da adaptação do livro do gênio do horror, Stephen King

Malu Rodrigues Publicado em 28/07/2020, às 07h00

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Jack Nicholson em O Iluminado (Foto: Reprodução)

O clássico filme de Stanley Kubrick, O Iluminado, é um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. A produção foi resultado da adaptação do livro homônimo do gênio do horror, Stephen King

Lançado em 1980, recebeu críticas mistas e só depois se eternizou como um dos longas mais incríveis do gênero. Também, com o desempenho fantástico do lendário vencedor do Oscar, Jack Nicholson, o filme foi abraçado pela cultura pop. Quem poderia se esquecer da frase improvisada do ator, "Here's Johnny"?

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Apesar de não ter sido amada por King e ter tido muitas liberdades criativas, é inegável a influência da obra de Kubrick no terror. A história sobre a família Torrance revela como o pai, Jack, aceita o trabalho de zelador em um hotel isolado durante o inverno, o Hotel Overlook. 

Para a temporada, leva a esposa, Wendy (Shelley Duvall), e o filho, Dan (Danny Lloyd), que tem habilidades psíquicas. Aos poucos, os personagens desvendam segredos do local, descobrem o passado terrível de quem já morou nele e percebem mudanças nos próprios comportamentos.

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O Iluminado surpreendeu o público com um ritmo mais lento do que estava acostumado em uma produção de terror. Com um enfoque em jogadas psicológicas, a narrativa se destacou na década de 1980 e, 40 anos depois, ainda se mostra como relevante e aterrorizante. Por isso, a Rolling Stone Brasil elencou alguns detalhes da produção que refletem como a obra influenciou todo o gênero nos cinemas.


Trilha sonora 

Um dos grandes trunfos de O Iluminado foi saber experimentar com o próprio som. A trilha sonora do filme é incômoda e difícil de ouvir. A sonoridade é lançada para brincar com as nossas emoções e nos levar até o ápice do estresse e desgaste emocional.

No entanto, o filme vai além no experimentalismo. Diferente de grandes produções do terror que utilizam a trilha para anunciar momentos surpresas, aparições de assassinos e sustos, o longa de Kubrick faz exatamente o contrário.

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Em muitas cenas, não há nenhuma trilha sonora. Na verdade, por vezes, não há nenhum som. A ausência dele tira o senso de direção do espectador, além de não dar a ele o direito de saber quando algo inusitado acontecerá. 

Essa escolha permite uma experiência imersiva do público na cena e a deixa ainda mais sinistra e imprevisível. A falta de som nos coloca em uma posição de perigo iminente e sem aviso prévio (mesmo que inconscientemente). Em exemplo recente, o recurso da ausência sonora também é visto em Um Lugar Silencioso (2018).


Sem gore, sem jumpscares e uma nova versão de contar histórias

Apesar do filme ter cenas como as gêmeas mortas e personagens machucados, não há muito gore na produção. Há muito sangue, não vamos nos esquecer disso, mas não notamos cenas muito violentas e ataques físicos diretos.

A cena da onda de sangue, por exemplo, é uma das mais implícitas do terror ao evidenciar uma ameaça de violência, mas não ela por si só. Em entrevista à Entertainment Weekly, a roteirista Diane Johnson comentou como essa cena é "mais ornamental e metafórica - é diferente de ver as pessoas serem esfaqueadas".

O grande segredo de Kubrick é fugir do gore e desafiar o público em um nível emocional. Não somos levados a ficar muito incomodados com visuais de agressões, por exemplo. Na verdade, ficamos ansiosos com simples aparições de pessoas que não deveriam estar no Hotel.

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Outro elemento não muito explorado são os famosos jumpscares - muito utilizados nos slashers. O Iluminado nos avisa com antecedência de como algo não está certo ou como alguma coisa está atormentando os personagens. Não há muito sustos e surpresas, os protagonistas são os primeiros a ver o que está acontecendo - antes mesmo do público.

Inclusive, demora alguns segundos para ser revelado o que o personagem está vendo e o motivo para atormentá-lo tanto. 

Em um dos encontros inesperados do pequeno Danny com as gêmeas Grady, a câmera foca por cerca de quase cinco segundos no jovem antes de mostrar para os espectadores a visão dele. Dessa forma, O Iluminado não tenta nos aterrorizar com sustos inesperados.

Ele obviamente deixa claro que algo ruim irá acontecer em instantes - e nós não seremos os primeiros a testemunhar. 

O Iluminado também surgiu como uma nova forma de contar histórias envolvendo crianças. Antes de ser lançado, os longas traziam o tropo do jovem 'anticristo'. Os pequenos eram colocados nas tramas para representar todo o Mal. No entanto, a produção de Kubrick subverteu esse arquétipo.

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Ela mostrou Danny como uma esperança durante a obra inteira. Ele representa um arco de redenção e de sobrevivência por meio da perspectiva inocente e infantil. Depois da estreia do terror nos cinemas, outras produções dos anos 1980 e início dos 1990, como A Hora do Pesadelo, Os Goonies e It, também revelaram crianças como protagonistas e com a construção positiva - bem longe do aspecto 'anticristo'.


Mais luz, mais sombrio

Um dos filmes mais recentes a ter uma paleta clara e ser filmado inteiro com luz foi Midsommar (2019). No entanto, ele não foi o primeiro a brincar com essa perspectiva. O Iluminadoabusou das cores claras e brilhantes no longa.

Se notarmos, a maioria das cenas foi filmada à luz do dia, o que, acredite ou não, deixa tudo ainda mais perturbador. O longa abre para o espectador um enredo repleto de imagens macabras e aterrorizantes sem necessariamente estar tudo escuro.

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Mesmo com cenas gravadas à noite, há sempre a presença de muitas luzes e velas no cenário. Os variados objetos do filme, também, são escolhidos pelas cores vibrantes e saltadas. Eles são posicionados perfeitamente para aparecerem como elemento-chave da narrativa.


Jogadas psicológicas

O filme inteiro nos coloca em uma posição de limite psicológico. O isolamento dos personagens é um exemplo. No longa, sempre vemos os protagonistas em um lugar aberto, isto é, a câmera faz questão de indicar a dimensão do lugar e como eles estão sem nenhum contato com pessoas reais.

Essa é uma das jogadas com a nossa noção de espaço. Assim como a família Torrance, o público também se sente sozinho - e tudo o que aparece de 'novo' nos passa uma sensação de incertezas e medo.

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Além disso, o filme também lida com o comportamento complexo do ser humano. Durante toda a narrativa são revelados traumas e dores dos personagens. Ainda, eles são colocados em situações estressantes e questionáveis em diversas sequências. Tudo isso é para mostrar como os protagonistas estão inseridos em uma realidade cruel e em uma batalha pessoal com os próprios sentimentos sombrios.

A mistura do terror com o sobrenatural é desenvolvida com muita potência e todo o filme é construído em volta da tensão e espera pelo pior cenário possível. 

Filmes como A Bruxa (2015), Midsommar (2019) e Hereditário (2018) se destacaram nos últimos anos pelos atributos psicológicos e mitológicos entrelaçados nas histórias de terror. É importante entender como o clássico de Stanley Kubrick foi um dos primeiros longas a moldar essa narrativa. Afinal, ele não é considerado um clássico a toa.

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O Iluminado chega aos 40 anos de lançamento ainda com a personalidade nova. Os detalhes da produção são encontrados em diversos filmes sucessores e que agora fazem sucesso na indústria. O longa de Kubrick, adaptado da obra homônima de King, ainda se revela como uma obra- prima no terror que moldou estruturas e influenciou todo o gênero.

A experiência de assistir O Iluminado se mantém com o espectador muito tempo depois dos créditos rolarem. A história aterrorizante e viciante, e os detalhes tão bem colocados em cenas ditam a eternidade desse filme e evidencial em como ele intervém em outras obras.


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