80 anos de Elvis Presley: o retorno e o fim

Elvis entrou com tudo na década de 1970, mas antes de ela acabar, ele já havia partido

Paulo Cavalcanti Publicado em 08/01/2015, às 16h24 - Atualizado às 16h50

Elvis Presley
AP

Um dos poucos fracassos profissionais de Elvis tinha sido sua temporada em 1956, em Las Vegas. A cidade, meca do entretenimento adulto, não estava preparada para o jovem roqueiro. Em 1963, ele tirou um pouco do gosto ruim deixado pela experiência ao filmar lá o hit Amor à Toda a Velocidade, ao lado de Ann-Margret. E Las Vegas foi o local escolhido para o Coronel Parker para ao retorno de Elvis aos palcos. O empresário achou necessário ter um local fixo para que o cantor fosse exposto antes de sair pelo resto do país. Em Vegas, o dinheiro era alto e corria fácil. Qualquer tipo de perda financeira poderia ser compensada. Alguns fãs argumentavam que, na endinheirada Vegas, Elvis estaria longe de suas raízes. O Coronel rebatia dizendo que Elvis agora tinha um perfil sofisticado e aquele era o local certo. Na verdade, ele tinha feito um acordo milionário para Elvis se apresentar no International, um luxuoso hotel que em breve seria inaugurado na cidade

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Para esse retorno, Elvis não queria o som rústico e básico dos anos 50, com apenas baixo, guitarra e bateria. Ele queria um som encorpado, com orquestra e inúmeras vozes o acompanhando. Mas nada no estilo big band de artistas consagrados de Vegas, como Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e outros. Ele almejava um som cheio de groove e escolheu pessoalmente os músicos que tocariam com ele.

A estreia no International Hotel foi em 31 de agosto de 1969. No palco, estava o grupo de músicos que logo seria conhecida como a TCB Band: James Burton (guitarra solo), Ron Tutt (bateria), John Wilkinson (guitarra rítmica), Larry Muhoberac (piano), Jerry Scheff (baixo) e o sempre presente amigo Charlie Hodge, tocando guitarra rítmica e ajudando nas harmonias vocais. Nos microfones, The Imperials, The Sweet Inspirations e Millie Kirkham. A condução da orquestra ficou a cargo de Bobby Morris.

Antes de subir ao palco naquela noite, Elvis estava explodindo de nervosismo. Mas foi só ele abrir a boca que a mágica aconteceu. O instinto musical inato do Rei se fez presente - ele sabia exatamente o que o público esperava. E estava deslumbrante, magro, com os cabelos e costeletas longos. Trajava o que mais pareceria uma vestimenta de caratê modificada – não queria usar smoking ou algo que pudesse limitar os movimentos. Elvis requebrou, fez um monte de piadas, cantou hits dos anos 1950, seus novos singles, distribuiu beijos, encantou e causou histeria entre as 2 mil pessoas que lotavam o salão do International. Os shows agora eram os mais concorridos dos Estados Unidos. A crítica, que até então só batia no cantor, teve de se dobrar. Muitos jornalistas escreveram que não era apenas um artista retomando a carreira: Elvis agora era descrito com uma espécie de herói folk, alguém que tinha se perdido. A Rolling Stone norte-americana dedicou uma capa ao retorno, afirmando que Elvis tinha sido “sobrenatural”.

O ano de 1970 foi frenético. A segunda temporada em Las Vegas, que começou no dia 26 de janeiro, trouxe novidades. O novo maestro e diretor musical era Joe Guercio. Ele ajudou a definir o novo som de Elvis, mais bombástico e grandiloquente O cantor também tinha um novo pianista: Glen D. Hardin, que tinha tocado no Crickets e era um versátil arranjador. Elvis introduziu novas músicas e as críticas continuavam excelentes. Em agosto, o Rei voltou a Las Vegas para uma nova temporada e a ocasião serviu para a filmagem do documentário Elvis é Assim, que mostrava como era excitante um show de Elvis Presley.

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O dinheiro entrava com água e Elvis, convenientemente, gastava como um sultão. Mesmo com tanta prosperidade, Priscilla, sua esposa, e, seu pai, Vernon reclamaram que Elvis tinha gasto uma fortuna em presentes de Natal – ele tinha comprado dez Mercedes-Benz e mais de 30 armas de fogo para dar de presente. Elvis reagiu: reclamou que o dinheiro era dele, ele tinha ganhado e assim fazia o que desse na telha. Então, por puro impulso, saiu de casa e pegou o primeiro avião disponível. Foi parar em Washington DC. Ficou em um hotel e rumou para o Texas. Em Dallas, chamou o amigo Jerry Schilling, que agora morava em Los Angeles. Contou que iria voltar para Washington para encontrar o presidente Richard Nixon. O problema é que ninguém sabia disso, muito menos o presidente e seus assessores. O motivo: Elvis queria desesperadamente receber uma carteira de agente de Federal da Narcóticos.

Essa tinha sido a maior aventura da vida de Elvis. Desde os 21 anos de idade, ele nunca tinha saído por conta própria ou circulado sozinho sem um exército de guarda-costas ou auxiliares. Mesmo com todos os riscos possíveis, Elvis parecia estar se divertindo. Nos aviões e aeroportos, alegremente interagiu com os populares, que não acreditavam estar cara-a-cara com o maior astro de rock de todos os tempos. Já em Graceland, Vernon e Priscilla arrancavam os cabelos. Elvis nunca tinha se ausentado sozinho por tanto tempo e não havia absolutamente nenhuma notícia de seu paradeiro.

Elvis então foi para Los Angeles para se encontrar com Schilling. O cantor alugou uma limusine e foi com Schiling para a mansão californiana. Lá, chamou um médico para cuidar de uma intoxicação causada pelo excesso de consumo de chocolate. Com a permissão de Elvis, Schilling ligou para Graceland e avisou que o dono da casa estava com ele, e em ótimo estado. Só que, a pedido do cantor, não revelou seu paradeiro. Elvis também mandou o companheiro chamar Sonny West e pediu para o guarda-costas encontrá-los em Washington.

No voo, Elvis escreveu uma carta a ser endereçada ao presidente. Depois de muitas idas e vindas, várias negociações e conversas com assessores, Elvis finalmente foi recebido por Nixon no Salão Oval. Ele, Schilling e West, com seus cabelos compridos e trajes berrantes, contrastavam com o ar conservador da Casa Branca. Apesar das óbvias diferenças culturais e de postura existentes entre eles, Elvis e Nixon se deram bem. Mais tarde, o cantor ganhou sua cobiçada carteirinha de agente honorário contra as drogas. Orgulhoso, Elvis levava o distintivo para todos os lados. O documento deu ainda mais moral para ele seguir com sua mania de colecionar armas. Desde o tempo de exército, Elvis mantinha um verdadeiro arsenal em suas residências - e ele achava que todo mundo deveria se armar. Ele até levava uma pequena pistola escondida no cano bota em suas apresentações. Justificava que isso era para caso de algum engraçadinho tentasse alguma coisa contra ele.

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Para alguns, o encontro entre Elvis e Nixon foi um ato de irresponsabilidade e auto-indulgência por parte do cantor. Só que ninguém poderia negar o poder de fogo de Elvis. Se ele quisesse, poderia simplesmente encontrar o presidente dos Estados Unidos.

A partir de 1971, o furacão Elvis varreu os Estados Unidos. Até então, ver o Rei era privilégio da elite que podia se locomover a Vegas. Agora, ele tocava em vários pontos do país, em locais maiores e a preços populares. Os shows eram verdadeiras experiências. Depois de uma sugestão do maestro Guercio, Elvis entrava no palco com toda pompa ao som da solene “2001”. Logo aos primeiros acordes, as pessoas mal conseguiam respirar, tamanha era a expectativa e excitação. Resplandecente em seus extravagantes macacões de gola alta e recheados de pedraria criados por Bill Belew, ele mais parecia um super-herói – ou, como disse um jornal, “um príncipe vindo de outro planeta”. Charlie Hodge trazia os lenços que Elvis jogava às fãs, como se fosse um de ritual religioso. Elvis seguia cantando bem e fazia de tudo para que suas apresentações fossem as mais excitantes do planeta. Os shows exigiam um batalhão de roadies. Al Dvorin, que trabalhava com Elvis desde 1955, agora tomava conta do merchandising durante as apresentações e, no final de cada show, entoava a frase “Elvis has left the bulding” (Elvis deixou o prédio) para avisar aos fãs de que o cantor já tinha ido embora e assim não faria bis e não atenderia ninguém.

A vida pessoal de Elvis agora era outra. A volta aos palcos abriu uma verdadeira caixa de pandora. Las Vegas era um território livre, uma verdadeira terra do vale tudo para quem estivesse interessado em mulheres, substâncias ilícitas e libertinagem. Os tempos loucos de curtição ao lado da Máfia de Memphis tinham voltado. Elvis agora necessitava de mais gente ao seu lado para ajudar na logística dos espetáculos. Havia ainda a questão da segurança. Elvis via ameaças de morte por todos os cantos. Red West, que tinha se afastado depois de se sentir esnobado no casamento de Elvis, agora tinha retornado à cena como o principal guarda-costas do astro. Ele, ao lado do primo Sonny, era a linha de frente da segurança do artista e não se incomodava em ser brutal com estranhos que por ventura se aproximassem de Elvis.

Desde criança, o músico sempre sofreu de insônia e, com o estrelato, virou uma criatura noturna. Na época do exército, muito a contragosto, era obrigado a dormir durante a noite e acordar cedo. Os filmes também exigiam que ele estivesse cedo no set de filmagem. Já as sessões de gravação dos discos eram sempre agendadas para a noite. Nos primeiros tempos do casamento com Priscilla, ele tinha hábitos mais normais. Com a nova rotina das apresentações ao vivo, efetivamente trocou o dia pela noite de uma maneira vampiresca. Os shows em Vegas não terminavam antes da uma da manhã. Ele ia para cama com o dia raiando e acordava às cinco da tarde. Para aguentar o tranco, as anfetaminas, soníferos e antidepressivos eram companhia constante. Com a idade avançando e levando um estilo de vida nada saudável, o peso do cantor, que sempre foi flutuante, agora subia de uma forma inexorável. Uma das suas principais distrações era o caratê. Elvis praticava o esporte regularmente, financiou torneio de amigos instrutores e quase produziu um filme sobre o tema, o qual narraria. Nesse período, também adotou o lema TCB (Taking Care of Business) e passou a distribuir adereços com o símbolo, que mostrava um raio ao lado das letras.

No meio disso, veio o grande golpe: Priscilla deixou Elvis. O relacionamento dos dois já capengava desde o nascimento de Lisa Marie. Elvis tinha um problema, o de não conseguia fazer sexo com uma mulher que tivesse sido mãe. Bizarramente, incluiu Priscilla nisso. Magoada, ela teve um caso com um instrutor de dança e Elvis nem percebeu. Depois, o cantor fez com que a mulher também se dedicasse ao caratê. A esposa foi ter aulas com o havaiano Mike Stone, um charmoso ex-campeão do esporte que tinha uma academia no subúrbio de Los Angeles. Carente, ela se envolveu com Stone e Elvis novamente não se ligou. Com o cantor passando cada vez mais tempo na estrada – e ele impedia que ela o acompanhasse -, a mulher ficava progressivamente mais distante. Quando se encontravam, eram só brigas. No começo de 1972, Priscilla falou que não o amava mais e iria embora. Não o torturou com detalhes. Pegou a filha e saiu de Graceland. Em poucos meses, já dava entrada com os papeis para o divórcio.

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Logo que retornou aos palcos, Elvis disse que seria ótimo fazer uma turnê mundial, talvez passando ela Europa e Japão. Mas, conforme os anos 1970 foram avançando, ficou claro isso não aconteceria. Até hoje esse fato é envolto em polêmicas. Um dos motivos seria o fato de Tom Parker ser um imigrante estrangeiro ilegal e sem passaporte e que não queria atrair atenção do governo. Elvis também era acomodado. Para ele, viajar para fora dos Estados Unidos seria trabalhoso. Sabia que seria difícil passar pela segurança dos aeroportos internacionais carregando armas, drogas e medicações.

O Coronel Tom Parker veio com um compromisso: os fãs do mundo inteiro veriam um show de Elvis, mas não exatamente do jeito que esperavam. Em julho de 1972, logo depois das bem sucedidas apresentações do cantor no Madison Square Garden, em Nova York, o Coronel anunciou um show transmitido via satélite, a primeira vez que um espetáculo desse porte seria realizado.

Isso seria bom para todo mundo. Elvis, que enfrentava o divórcio com Priscilla, agora teria mais um desafio gigantesco para esquecer as mágoas. Para dirigir o show, a NBC chamou Marty Pasetta, que já tinha trabalhado em especiais de Don Ho, na época o mais popular astro da música havaiana. No começo, Pasetta não se encantou com Elvis. Ele tinha assistido à algumas apresentações do artista em 1972 e o achou “inchado e sem dinamismo”. O diretor ordenou que Elvis emagrecesse. O cantor não se incomodou com as alfinetadas e cooperou. Esbelto e resplandecente no American Eagle, ele nunca foi tão icônico quanto em Aloha From Hawaii. O Elvis que aparece no especial é referência definitiva para imitadores. Sentindo o aspecto grandioso do momento, ele se comporta como um monarca. A apresentação parece impessoal, bem diferente do tom intimista do especial de 1968. Ele fala pouco, passeia pelo palco e faz muitas poses. Aloha foi um fenômeno global e colocou o nome de Elvis novamente na boca das pessoas. Infelizmente, o triunfo nunca mais poderia ser repetido e Elvis sabia muito bem disso. O jeito era voltar a rotina. O cantor novamente passou por várias partes do país e agendou mais uma temporada em Vegas.

Na metade de 1972, Elvis passou a ter uma nova namorada fixa, Linda Thompson, ex-miss Tennessee. Linda era tudo o que poderia se esperar de uma companheira: fiel, preocupada, divertida. Sendo uma garota do sul, ela tinha até mais afinidades com Elvis do que Priscilla. Linda, por exemplo, também era fanática por música gospel. O começo do relacionamento foi promissor, mas a euforia acabou depois de um tempo. Elvis começou a dispersar. Fidelidade não era uma palavra que constava em seu dicionário. Ele sempre precisava de companhia feminina, não necessariamente para atividades sexuais. As drogas que tomava faziam de Elvis uma companhia difícil e a as mulheres com as quais ele saía logo perceberam que, em vez de namorada, elas cumpriam papel de babás ou mães substitutas. Elvis se enjoava delas logo. Mas antes de acabar, ele enchia as garotas de todo o tipo de presente dispendioso.

Em julho de 1973, Elvis foi gravar na lendária Stax, em Memphis. No dia 9 de outubro, o divórcio dele e Priscilla foi finalmente formalizado. Eles saíram de braços dados da corte de Santa Monica. Elvis disse aos jornalistas que estava tudo bem e que eles continuavam amigos, o que era verdade. Priscilla recebeu US$ 725 mil em dinheiro e ainda ficaria com metade de três propriedades, além de vários automóveis de luxo. Também receberia uma boa quantia por mês. A guarda de Lisa ficou com Priscilla, embora não houvesse restrições para Elvis. Alguns dias depois, Elvis teve sua mais séria crise de saúde até então e foi levado às pressas, em estado comatoso, para a UTI do Hospital Batista de Memphis. A morte chegou bem perto pela primeira vez e Elvis prometeu ser um paciente modelo e se emendar. O Dr. George Nichopoulos, que agora era a companhia médica inseparável de Elvis, apontou que isso aconteceu devido a uma intoxicação causada por uma combinação de cortisona, Demerol, Novocaína e esteroides, tudo receitado por outro médico de Elvis, em Los Angeles. O Dr. Nichopoulos tentou fazer com que o paciente fosse tratado como um dependente químico, mas o pessoal do hospital tratou o VIP com indulgência e o liberou logo. Elvis voltou para Memphis para descansar. A moderação e autodisciplina anteriormente prometidas logo foram esquecidas. Em dezembro, participou de outra sessão na Stax e passou fim de ano ao lado de Linda.

O relacionamento com o Coronel Tom Parker se deteriorava. O empresário e o artista viviam às rusgas. O cantor ficou enfurecido com o lançamento - sem autorização dele - do álbum Having Fun With Elvis on Stage, que era vendido exclusivamente pelo selo Boxcar, pertencente ao Coronel. O LP não tinha canções – apenas diálogos de Elvis entre as canções, e incluía piadas totalmente sem graça e até alguns arrotos. “Se Deus quisesse que Elvis fosse comediante stand-up, então teria que ter dado a ele uma guitarra que explode”, escreveu um crítico na época.

Assim como Vernon, Parker não se conformava em ver Elvis ganhando rios de dinheiro, e, mesmo assim, indo rapidamente para o vermelho depois de gastar tudo de forma irresponsável. Elvis não baixava seu padrão de vida e continuava comprando carros, jóias e casas para amigos, empregados e namoradas. Mas também ajudava inúmeras instituições de caridade – sempre de forma anônima. O Coronel também tinha lá seus problemas financeiros. Ele, que sempre foi muito severo em relação ao próprio dinheiro, ficou viciado em jogo depois que Elvis começou a se apresentar em Las Vegas. De tempos em tempos, a conta bancária do Coronel também ia para o vermelho.

Em 1973, o Coronel foi tirar satisfação com Elvis depois que ele, em pleno palco, atacou duramente Barron Hilton, o dono do hotel Hilton. Tudo porque um dos cozinheiros favoritos do cantor tinha sido mandado embora. Elvis e o Coronel bateram boca, gritaram e se xingaram. Elvis, então, despediu o empresário que, enfurecido, respondeu: “Você não vai me mandar embora, eu me demito”. Parker pediu US$ 2 milhões para encerrar o contrato, além de quantias atrasadas que supostamente lhe eram devidas. Vernon, que cuidava das finanças pessoais do filho, entrou em pânico e falou que nunca conseguiria levantar a quantia para pagar o Coronel. Depois de duas semanas se insultando e mandando recados por meio de intermediários, os dois resolveram deixar tudo de lado. Parker também vendeu para a RCA os direitos do catálogo de Elvis por U$ 5.4 milhões. O empresário ficou com boa parte da quantia. Naturalmente, foi um péssimo negócio. O catálogo de Elvis se tornaria um dos mais valiosos de todos os tempos, e o astro (e depois sua família), a partir daquele momento, não teria nenhum controle sobre ele. Também não receberia nenhum royalty adicional. Era uma situação complicada - Elvis não tinha recursos para comprar o catálogo. Ele também tinha pedido para o Coronel conseguir dinheiro rapidamente, já que o divórcio e outros gastos haviam drenado seu enorme poderio financeiro.

Em 1974 as coisas realmente passaram a ficar fora de controle. Elvis até começou o ano bem, um pouco mais magro e disposto. Mas com o passar dos meses já estava novamente gordo e deprimido. Os shows começaram a ficar erráticos. Elvis mais falava do que cantava. Em uma determinada performance, foram 40 minutos de blá-blá-blá. As palhaçadas e brincadeiras com a banda eram mais importantes do que interpretar as canções de forma séria. Elvis também parava de cantar e começava a fazer demonstrações de caratê, o que irritava profundamente o Coronel Parker. Os monólogos se tornaram bizarros e reveladores. No dia de 2 setembro, no palco do Hilton, em Las Vegas, em um episódio que ficou conhecido como “a tempestade do deserto”, ele explodiu. Priscilla e Lisa Marie estavam na plateia, assim como Sheila Ryan, outra garota com que ele passava o tempo quando não estava com Linda Thompson. Depois de cantar “You Gave me a Mountain”, falou: “Essa música não tem nada a ver com minha vida pessoal. Nada a ver com meu divórcio. Eu e Priscilla somos os melhores amigos do mundo. Nossa separação não foi causada por possíveis envolvimentos com outras pessoas. Aconteceu por causa da minha carreira. Eu estava viajando muito. Bem, nós temos uma filha de seis anos para criar. Lisa, levante para o pessoal te ver. Ali está também minha nova namorada. Aplausos para ela! Sheila, mostre o anel que eu te dei, levante a mão direita! Olhem o anel que dei para ela. Olhem que baita anel!”. Na sequência, exaltado, atacou as revistas de celebridade. “Essa gente tem um trabalho para fazer. Se eles não têm nada para falar, então inventam. Eu não presto atenção. É puro lixo.” Ainda negou seu envolvimento com qualquer tipo de droga. “Eu nunca estive chapado na minha vida, a não ser pela música. Na outra noite, eu estava gripado, com febre, e não pude me apresentar. Simplesmente escreveram que eu tinha tomado heroína.” Aos berros, emendou: “Se eu achar o filho da puta que escreveu isso, eu vou partir o pescoço dele! Eu sou membro da Associação Antidrogas. Não dão distintivos pra quem é drogado.” Priscilla depois contou: “Fiquei chocada, não era da natureza dele se expor. Elvis guardava a sete chaves sua vida pessoal e seus sentimentos. Ele mostrava o que sentia exclusivamente através das canções.”

Se nos anos 60 Elvis viveu um impasse criativo por causa dos filmes, agora ele estava metido em outra encruzilhada. E percebeu isso. Na abertura da temporada de agosto em Vegas, no Hilton, ele tentou mudar um pouco as coisas. Deixou de lado a introdução bombástica ao som de “2001”, acrescentou mais blues, dispensou os medleys desleixados dos hits dos anos 1950, o papo furado e as palhaçadas. As críticas foram boas e ressaltaram que o astro tinha mexido positivamente na estrutura do espetáculo. Lamentavelmente, Elvis voltou à velha rotina na noite seguinte. Inseguro, ele achou que a plateia não tinha reagido bem às mudanças.

O Natal em Graceland foi ruim. Elvis estava desmotivado e seu pai, Vernon, tinha se separado de Dee Stanley, depois de quase 15 anos que eles estavam juntos. Os jornalistas noticiaram que o cantor passou as festividades deprimido e isolado. No dia 29, o Coronel Parker ligou para o cliente e viu que era verdade. Depois de várias desavenças, os dois agora só falavam o mínimo possível. Na conversa, Parker percebeu que Elvis estava mesmo sem nenhuma condição física, psicológica e emocional, e assim não poderia honrar os compromissos assumidos no Hilton para o final de janeiro do ano que iria começar. O Dr. Elias Ghanem, outro médico que cuidava de Elvis, assinou um atestado de que Elvis não teria condições de se apresentar por um bom tempo. Parker engoliu seco e viu que ele já não poderia garantir que as obrigações profissionais poderiam ser cumpridas à risca.

Elvis começou 1975 acuado pela imprensa, que escrevia histórias sobre ele virar um quarentão gordo, paranóico e com medo de ser considerado um dinossauro ultrapassado sem sex appeal. No dia 8, chateado com os ataques gratuitos, passou o aniversário de 40 anos isolado. Amigos e empregados preparam um bolo, mas ele nem saiu do quarto. Apenas Linda e o primo Billy Smith tiveram acesso ao cantor. O Coronel Parker ficou sabendo do estado depressivo de Elvis e apresentou a ele um desafio. No caso, um show beneficente para ajudar vítimas de McComb, uma cidade do Mississippi que tinha sido arrasada por um tornado. Parker sabia que Elvis sempre se animava nesse tipo de situação. Mesmo relutante, concordou que iria se cuidar para realizar os shows.

Havia um bom tempo que Elvis queria comprar um avião. Em abril, ele adquiriu um Convair 880 Jet que tinha pertencido à Delta Airlines. O cantor pagou US$ 250 mil e, com as reformas e customização – incluindo pia de ouro e todo o tipo de luxo -, o custo total da aeronave chegou a US$ 600 mil. Elvis rebatizou o avião com o nome da filha, Lisa Marie. Em agosto, comprou um jato menor, um Lockheed JetStar, batizado de Hound Dog II.

No dia 29 de janeiro, Linda acordou e percebeu que Elvis respirava com muita dificuldade. O cantor foi levado às pressas para o Hospital Batista de Memphis. No dia 5 de fevereiro, por uma macabra coincidência, Vernon se juntou ao filho no hospital depois de ter sofrido uma parada cardíaca. O cantor recebeu alta no dia 13 daquele mês. Os problemas diagnosticados eram muitos: cólon dilatado, início de glaucoma e fígado danificado. Elvis comia mal, não se exercitava e o uso de drogas complicava um quadro geral que já era ruim. Ele saiu do hospital desintoxicado e novamente prometeu que iria se cuidar – tudo em vão.

Elvis voltou aos palcos em março, em Vegas, no Hilton. Lá, recebeu uma visita inesperada: Barbra Streisand. A cantora e atriz, que ao contrário de Elvis estava no auge, foi para fazer uma proposta. Ela queria que Elvis fosse seu coastro em uma nova versão do clássico Nasce Uma Estrela, que ela estava produzindo com o namorado Jon Peters. Elvis ficou animado e lisonjeado. Queria muito voltar ao cinema em um papel dramático e em uma produção de grande orçamento. Esta seria a oportunidade ideal. Naturalmente a proposta teria que passar pelo Coronel Parker, que não gostou nada do projeto e o sabotou ao máximo - colocou uma porção de empecilhos para que Elvis não ficasse com papel. Pediu para a United Artists, a companhia produtora, US$ 1 milhão, metade da bilheteria e os direitos da trilha sonora. No final, Elvis foi convencido pelo empresário e por outros que não seria interessante desempenhar um astro decadente. O papel foi para Kris Kristofferson. Nasce Uma Estrela estreou em dezembro de 1976 e se tornou um enorme sucesso. Elvis ainda estava vivo quando viu que a grande chance de seu renascimento artístico passou por entre os dedos como areia.

O ano de 1975 seguiu cheio de problemas e decepções. Elvis foi internado novamente em junho e agosto, sofrendo de exaustão e problemas diversos. Devido às hospitalizações, alguns shows foram cancelados. As apresentações eram altamente irregulares. Em algumas noites ele estava inspirado, brincava e mandava Charlie Hodge ir à plateia pedir para os fãs escolherem músicas, que ele cantava de improviso. Na maioria das vezes, se mostrava aborrecido, cantando de qualquer jeito. O mau-humor e a falta de cortesia agora eram uma constante. Em uma apresentação em Springfield jogou a guitarra na plateia e disse: “Quem pegar pode ficar com essa porcaria, eu não preciso”. Em outro, meteu a boca no público por ele não se mostrar receptivo. Depois, para compensar, saiu distribuindo jóias. Nessa turnê, insultou, em pleno no palco, o grupo vocal The Sweet Inspirations e a cantora de apoio Kathy Westmoreland. Ele e Kathy tinham tido um caso, mas agora ela se recusava a sair com o patrão. Depois, pediu desculpas e, para compensar, encheu as cantoras de jóias. As pessoas ao seu redor estavam decepcionadas e até mesmo com raiva com o atual comportamento do cantor. A rotina de gastos continuava e as vendas de disco despencavam. Graceland até foi hipotecada. Assim como no ano anterior, foi mais um Natal deprimente. Na véspera, Elvis sonhou que todos seus amigos o tinham abandonado e ele estava na miséria. Na virada do ano, Elvis estava no palco, cantando para 80 mil pessoas no Estádio de Pontiac. Em seus contratos estava escrito que ele nunca trabalharia nos feriados. Dessa vez teve de quebrar a palavra. Precisava muito do dinheiro – pela perfomance de pouco mais de uma hora, recebeu US$ 300 mil livres. O show foi ruim. Devido à configuração do palco, Elvis ficou isolado músicos. O local estava congelando, o som era uma porcaria os instrumentos não seguravam afinação. No começo da performance, as calças de Elvis se rasgaram. No final, ele explodiu – culpou todo mundo e falou que sua vida e carreira tinham se transformado em uma miséria sem tamanho. Linda o acalmou e eles voltaram para Memphis.

A queda pessoal e profissional continuou no ano seguinte. Para comemorar seu aniversário de 41 anos, Elvis foi para a estação de esqui em Vail, Colorado. Foi uma confusão logística tão grande que Elvis, com seus caprichos, manias e mau-humor, conseguiu irritar todo mundo. A Máfia de Memphis se desintegrava. Em fevereiro, Jerry Schilling abandonou Elvis de vez depois de se desentender com ele no Colorado. Outros veteranos como Marty Lacker e Alan Fortas não apareciam mais. O indispensável Joe Esposito mantinha sua posição de valete número 1, mas procurava manter sua individualidade, longe dos aspectos mais desagradáveis da personalidade do patrão. Mesmo assim, não escapou da fúria de Elvis. O cantor estava descontente com Esposito depois que ele e o Dr. Nick o convenceram a investir uma boa soma em um centro de raquetebol. O cantor achou que os amigos usaram seu nome indevidamente. No final, o empreendimento foi um desastre financeiro, justamente quando Elvis estava com caixa baixo. O cantor não queria mais frequentar estúdios de gravação e já não havia nenhuma sobra ou material inédito para ser utilizada. Em fevereiro, a desesperada RCA, com enorme custo e esforço, levou o equipamento de gravação para Graceland. As sessões foram complicadas e pouco produtivas. Elvis não saía do quarto. Tinha acessos de raiva e deixava os músicos esperando na parte de baixo da casa. Com muito custo, cerca de uma dúzia de faixas (a maioria bem para baixo) foram aproveitadas.

Em julho, Vernon demitiu Red West, Sonny West e Dave Hebler. O pai do cantor alegou que precisava cortar os custos. Também disse que os guarda-costas eram muito truculentos com os fãs e os processos se acumulavam. O trio de demitidos reagiu, acusando Elvis de ser omisso. Disseram que escreveriam um livro expondo a bem-guardada vida pessoal do músico. O grosso da receita de Elvis vinha da estrada. Ele nunca tocou para um assento vazio e a lealdade dos fãs ainda continuava a mesma, independente das apresentações do cantor terem se tornado irregulares. O problema é que, ao vivo, os pontos baixos superavam os altos. Ele entrava em cena como se fosse um sonâmbulo, mal falava com a plateia e ficava encostado no pedestal do microfone. Balbuciava as letras e às vezes as esquecia. Com todos os problemas, alguns shows até foram bons, como o de julho no Mid-South Coliseum, em Memphis. Seria última vez que Elvis cantaria na cidade onde morava.

Cansada de infidelidades e da vida irregular do parceiro, Linda Thompson finalmente deixou o cantor no final de 1976. Ele não se abalou. Em breve, teria uma nova namorada a tiracolo - era Ginger Alden, uma beldade de 20 anos que foi apresentada a ele por George Klein. No começo, Ginger não estava interessada e até tinha um namoradinho. Aos poucos, Elvis venceu a resistência da garota, embora ela relutasse em viajar com ele e passar longas temporadas em Graceland. Segundo os mais chegados, ela nunca amou o cantor e o relacionamento não era sexual. Elvis queria mesmo uma companhia feminina para passar o tempo, conversar e falar sobre religião. A essa altura, por causa das medicações e drogas, sexo era algo secundário. Ironicamente, quando indagado se não seria melhor ele procurar alguém de sua idade, Elvis respondeu furioso: “O que me interessa uma mulher de 40 anos?”.

Em dezembro, cumpriu temporada em Las Vegas, no Hilton. Como sempre, a casa estava lotada, mas os shows foram ruins. Elvis insultou os músicos durante os ensaios e disse que odiava Vegas. Foi última vez que cantou na cidade que reergueu sua careira. A passagem de ano foi novamente em cima do palco, desta vez, no Civic Center Arena em Pittsburgh.

No inicio de 1977, foi agendada mais uma sessão de gravação em Nashville. Elvis foi até a cidade, mas não compareceu ao estúdio. Deixou os músicos e produtores esperando e se desculpou, dizendo que estava com a garganta doendo. Ele seguia doente, muito acima do peso e entupido de medicamentos, legais e ilegais. Insistia para que Ginger fosse com ele nas turnês, o que ela insistia em não fazer isso. Pelo menos conseguiu que a namorada, a família, parentes e amigos o acompanhasse em uma merecida viagem de descanso para o Havaí, em março.

Até o proscrito Larry Geller tinha voltado para ver se Elvis conseguia sair do atoleiro espiritual. A velha gangue não existia mais. Seus chefes de segurança agora eram Sam Thompson e Dick Grob. Charlie Hodge ainda estava por perto e Esposito, mesmo um pouco distante, seguia com suas funções. Elvis, mesmo sem condições, continuava se apresentando. Ele até resolveu fazer mais um especial de TV, chamado Elvis In Concert, a ser exibido em data indeterminada, na CBS. A turnê foi em frente. A derradeira aparição em um palco foi no dia 26 de junho, na Market Square Arena, em Indianapolis, Indiana.

Depois, voltou para Graceland para descansar. No começo de agosto, o horizonte começou a escurecer com a publicação de Elvis: What Happenned?, escrito por Steve Dunleavy, com os depoimentos dos três guarda-costas demitidos no ano anterior. Pela primeira vez, a bem guardada vida particular de Elvis vinha à tona. O livro era maldoso, ressentido e não citava fonte. Ninguém poderia se enganar: ele foi feito para se vingar e levantar um dinheiro fácil. Os autores se defendiam: “Só queremos que ele leia e reflita sobre a vida”. Mas o livro, mesmo com distorções, continha verdade e Elvis sentiu o baque das revelações.

O Rei nunca esteve tão deprimido quantos naqueles dias. Seu único assunto era o livro e a traição dos West e de Hebler. Mas falava que iria dar a volta por cima: no dia 17 de agosto sairia em nova turnê – ela começaria em Portland, Maine, e seria a maior de todas. Ainda, pediria Ginger em casamento. Ao ver o ex-marido desolado, Priscilla enviou Lisa para passar uns tempos com o pai. No dia 7, Elvis alugou Libertyland, um parque de diversões local, de 0h até o nascer do sol. Lisa, Ginger e amigos passaram a noite nos brinquedos. Empenhado em fazer bonito na nova turnê. Elvis começou a malhar e ingerir iogurte e comida saudável.

A rotina da última semana de vida de Elvis era essa: brincava com a filha, via programas gospel na TV, jogava raquetebol e ensaiava as músicas para sua turnê. Na segunda, 15 de agosto, acordou tarde como sempre. Ele queria assistir à MacArthur em um cinema alugado exclusivamente para ele e amigos, mas não conseguiu um projecionista disponível. À noite, foi dar uma volta por Memphis em seu Stutz Bearcat e passou pelo consultório do dentista, o Dr. Hoffman. Voltou para Graceland depois da 0h e um fã ainda o clicou dirigindo, entrando na mansão. Elvis acenou de volta. Depois de se trocar, foi para a quadra de raquetebol e jogou com o primo Billy Smith e sua esposa Jo até o final da madrugada da terça-feira, dia 16 de agosto. Para descontrair, tocou um pouco de piano – segundo o primo, as músicas foram “Blue Eyes Crying in the Rain” e "Unchained Melody”. Ele e Ginger, então, foram deitar. Em um momento, Elvis levantou - disse à garota que tinha insônia e iria ler um pouco. Mais tarde, a namorada acordou e achou Elvis caído no chão do banheiro, com o rosto em meio uma poça de vômito. Ginger imediatamente pediu ajuda e o segurança Al Strada e Joe Esposito viraram o corpo e tentaram em vão reanimar o cantor. Lisa apareceu no meio do caos e perguntou: “O que está acontecendo com meu pai?” Ginger tirou a garota de lá. O auxilio médico chegou rápido. Quando o corpo do cantor era colocado na ambulância pelo pessoal do hospital e por Charlie Hodge e Esposito, o Dr. Nichopoulos chegou para ver se podia fazer algo. O médico oficial de Elvis também tentou de tudo no caminho para o hospital. Elvis foi declarado morto às 3h33 da terça, no Hospital Batista de Memphis. “Acabou, ele se foi”, disse o Dr. Nick. Mais tarde, a autópsia apontou como causa da morte “arritmia cardíaca”. Tudo o que aconteceu naqueles dias foi frenético e intenso. Mas o fato é que, para os fãs, o tempo parou em 16 de agosto de 1977.