O Adeus a Janis Joplin

Há quatro décadas, morria tragicamente a lendária cantora que redefiniu o papel feminino no rock and roll

Reportagem publicada originalmente na edição 69 da RS EUA (outubro de 1970) Publicado em 04/10/2010, às 14h21

Janis em sua, em casa em São Francisco, em setembro de 1968
Ted Streshinsky/CORBIS

Já eram 18h e Janis Joplin ainda não havia aparecido no Sunset Sound Studios. Paul Rothschild, o produtor da cantora, teve uma sensação estranha e mandou John Cooke, um dos roadies da Full Tilt Boogie Band, até o Landmark Motor Hotel para ver por que ela não estava atendendo ao telefone. "Eu nunca tinha me preocupado com ela antes, apesar de seus atrasos. Normalmente era porque parava para comprar uma calça ou fazer alguma outra coisa de mulher", disse Rothschild. Mas o dia 4 de outubro era um domingo e havia poucos lugares abertos, mesmo em Hollywood. O Landmark é uma construção grande de estuque na Franklin Avenue. Fica perto dos estúdios de gravação no Sunset Boulevard e é próximo aos escritórios das gravadoras e das editoras de música. Um ambiente bem tolerante a algazarras. Era o tipo de lugar de que Janis gostava.

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Quando John Cooke chegou lá, eram quase 19h. Ele viu que o carro de Janis estava no estacionamento e que as cortinas do quarto dela, no andar térreo, estavam fechadas. Ela não atendeu a porta quando ele bateu, nem quando ele esmurrou a madeira e berrou. Cooke falou com o gerente, Jack Hagy, que concordou em entrar no quarto. Janis estava estirada entre a cama e a mesa de cabeceira, usando uma camisola curta. Os

lábios dela estavam ensanguentados quando eles a viraram, e seu nariz estava quebrado. Ela segurava US$ 4,50 em uma mão.

Cooke chamou um médico e então ligou para o advogado de Janis, Robert Gordon. Ele afirma ter examinado o quarto com muito cuidado, mas sem encontrar qualquer narcótico ou equipamento para o uso de drogas. A polícia foi chamada. Quando os oficiais chegaram, por volta das 21h, também não encontraram drogas nem "apetrechos". Mas disseram aos repórteres que Janis tinha "marcas novas de seringa no braço, entre dez e 14, no braço esquerdo".

Quando o apresentador do telejornal das 23h tinha terminado seu breve relato, telefonemas espalhavam boatos malucos: Janis tinha sido morta por algum sujeito ciumento, por um traficante, até mesmo pela CIA; ela teria acabado com a própria vida por causa de algum homem, porque achava que estava caindo no ostracismo ou porque sempre tinha sido uma pessoa autodestrutiva. Cada nova teoria tinha alguma pessoa "informada" por trás, e cada uma delas era igualmente sem embasamento.

Thomas Noguchi, legista do condado de Los Angeles, não contribuiu em nada para esclarecer a confusão, muito pelo contrário: seu relatório preliminar, emitido na manhã seguinte, dizia que ela "morreu de overdose de drogas", mas não especificava quais drogas - álcool, soníferos ou algo mais pesado.

Gordon tentou rebater muitos dos boatos bizarros e amenizar as manchetes mais loucas, dizendo acreditar que as alusões a drogas não tinham embasamento e que Janis teria morrido de overdose de soníferos, seguida de uma queda da cama. Na terça-feira, no entanto, Noguchi relatou que Janis, que estava com 27 anos, tinha de fato injetado heroína no braço esquerdo várias horas antes de morrer, e que uma overdose a tinha matado. Disse que um inquérito seria instaurado.

Ao serem questionados a respeito dos ferimentos no rosto, policiais afirmaram que tinham eliminado a possibilidade de violência. "Ela podia ter quebrado o nariz ao cair", falou um detetive. A quantia estranha de dinheiro que ela segurava continua sendo um mistério e vai alimentar a imaginação das pessoas que precisam explicar de algum modo a morte dela. No momento, as explicações vão desde "era o troco de um saquinho" - um saquinho de heroína hoje custa uns US$ 15 em Los Angeles - até teorias grotescas sobre "troco para fazer uma ligação de emergência" - apesar do telefone do quarto dela, como acontece na maior parte dos hotéis, não precisar de moedas para funcionar.

O advogado Gordon disse que Janis o tinha visitado alguns dias antes "para falar de negócios". Ela parecia feliz. Disse que estava pensando em se casar. "Ela também estava muito contente com o álbum", prosseguiu. "Estava na cidade fazia mais ou menos um mês, gravando, entusiasmada com a banda. Ela disse que 'se sentia como uma mulher de verdade'".

Quando indagado a respeito dos "negócios" que Janis foi tratar com ele, Gordon respondeu: "É melhor eu falar logo. Ela foi assinar o testamento". Ele enfatizou, no entanto, que não achava que o fato de ela o ter assinado significasse alguma coisa.

Paul Rothschild, produtor da Elektra, mas que também estava produzindo as sessões da Columbia, relatou que Janis estava "emocionada e em êxtase". Disse que conhecia a estrela há muito tempo e que ela parecia "mais feliz e mais ligada do que qualquer pessoa pudesse se lembrar". Ele disse que o álbum estava "80%" pronto. Uma fonte da Columbia, no entanto, informou que as gravações "não estavam andando bem", que estavam "devagar" e que, depois de um mês passando entre oito e dez horas no estúdio, 11 faixas tinham sido editadas e apenas quatro tinham sido consideradas "boas o suficiente". Quando confrontado com essa informação, Rothschild ficou furioso. Ele observou que tinha precisado "brigar com todo mundo na Columbia" ao longo de todas as sessões. Disse que o álbum era o primeiro feito por um produtor "de fora" que a Columbia tinha permitido, e que "o disco podia não estar indo assim tão bem para a Columbia, mas estava para Janis Joplin". Uma fonte da Columbia divulgou o nome de algumas faixas, incluindo "Me and Bobby McGhee", "A Woman Left Lonely", "Ain't Nobody's Business", "Trust in Me", "Cry Baby", "Get It While You Can", "Half Moon" e "Got My Baby". [Nota: O disco acabou sendo lançado em fevereiro de 1971 com o nome Pearl].

A última pessoa que viu Janis viva foi Hagy, o gerente do Landmark. Ele disse à polícia que falou com ela brevemente à 1h da madrugada de domingo, e que ela "parecia animada". Janis tinha terminado uma sessão de gravação por volta das 23h da noite de sábado e foi com vários integrantes da banda ao Barnie's Beanery. John Cooke disse que Janis tomou alguns drinques e então levou o organista de carro para o hotel, deu boa-noite e foi para a cama. Os pais de Janis, logo que chegaram a Los Angeles, preferiram não declarar nada à imprensa. Albert Grossman, o empresário dela, chegou de Nova York e também se recusou a fazer comentários. Mas um porta-voz de seu escritório disse que ele "sentia que ela era uma filha para ele".

Myra Friedman, uma das assessoras de imprensa de Grossman e amiga próxima de Janis, disse que a imagem que ela cultivava, de ser do tipo de pessoa que aproveita tudo enquanto pode, não era exata: "Acho que Janis sabia que ela não era assim. Talvez uma parte dela acreditasse nisso, mas acho que a parte mais honesta não acreditava. Ela não era conservadora - isso é ridículo -, mas tinha muitas necessidades que simplesmente eram iguais às de qualquer outra pessoa. Ela aceitava diferentes tipos de pessoas".

O promotor de shows Bill Graham, falando de São Francisco, negou as "conexões" que inevitavelmente estavam sendo feitas entre a morte de Hendrix e Joplin: "Nenhuma. Hendrix foi um acidente - e Janis, ninguém sabe ainda. Tenho certeza de que alguém deve estar jogando I Ching ou olhando para um mapa ou para as estrelas e dizendo: 'Eu sabia, eu sabia'. Só falo isso porque sei que muita gente vai ficar procurando razão e lógica - não significa que aquele homem tinha que partir, que aquela coisa tinha que acontecer, não estava escrito em lugar nenhum. Se, hipoteticamente a morte de Jimi e Janis for o resultado de heroína, a ironia é que isso pode surtir um efeito positivo. Muitos jovens poderão largar a droga. Eu gostaria de pensar que algumas das pessoas que fizeram sucesso vão começar a avaliar se elas controlam o sucesso ou se são controladas por ele. Quanto a Janis, acho que ela nunca soube lidar com isso".

Você lê esta matéria na íntegra na edição 49, outubro/2010