“Ainda brigamos como loucos, mas não temos mais medo do fim da banda”, diz Matt Berninger, vocalista do The National

Enquanto o líder do grupo aprendia a lidar com a paternidade, a banda descobriu que o conflito entre os integrantes é o combustível para a criação

Pedro Antunes Publicado em 05/10/2013, às 11h42

The National
AP

A paternidade e o senso de provedor da família demoraram a atingir Matt Berninger, vocalista e principal letrista do The National. Pai de Isla, uma menina de quatro anos, e casado com Carin Besser, ele parece ter precisado de um tempo para conseguir digerir esta nova “função” no mundo. Depois disso, contudo, todos os conceitos de vida e morte do vocalista foram chacoalhados e, então, expostos como nunca antes no disco Trouble Will Find Me, lançado no Brasil pela gravadora Lab 344.

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Aos 42 anos, Matt encara a ideia da mortalidade com franca sinceridade. “Quando eu era jovem, não pensava em coisas como ‘e se eu for atingido por um raio?’. Agora, essas coisas passam pela minha cabeça”, conta o cantor à Rolling Stone Brasil, em uma reveladora entrevista na qual ele relata seus pensamentos sobre vida pós-morte, a necessidade de estar próximo do público e a paixão por vinhos.

A ideia da morte aparece de várias formas em Trouble Will Find Me. Como isso aconteceu? Você acredita na existência de uma vida após a morte?

Não tinha percebido isso até que já estávamos mixando o disco. Foi então que percebi a ocorrência dessas referências à mortalidade. Quando escrevo, não penso no que vai ser, sobre o que vai estar no disco. Só depois descubro. Foi uma surpresa e me fez pensar no que aconteceu. Quero dizer, não há uma música que fale exclusivamente sobre a morte. Mas a ideia de mortalidade veio de vários lugares, de formas diferentes: de uma forma divertida, às vezes triste, outras vezes séria...

Acho que tem a ver com o fato de eu ser pai. Quando eu era jovem, não pensava em coisas como ‘e se eu for atingido por um raio?’. Isso não acontecia. Eu não ligava tanto, entende? Agora, sou casado, tenho uma filha, e tenho esse senso de que elas precisam de mim por perto. Eu sou necessário aqui. Alguém depende de mim. Então, em parte, acho que a temática veio disso.

Mas você acredita na ideia de um pós-vida?

Eu realmente não acredito nesta ideia de paraíso e inferno. Sou um humanista, acho que somos apenas nós aqui. E tudo segue como nós nos relacionamos. Tendo minha esposa e minha filha ao meu lado, o conceito de vida após a morte é bem claro. Quando a minha luz apagar, eu continuarem vivo com eles. A minha filha é o maior exemplo disso. Eu me vejo nela. Eu sei que, se for um bom pai, terei uma boa vida após a morte, porque ela será uma boa pessoa. Então, sim, em algumas músicas, como “Heavenfaced”, nós falamos sobre isso. De uma forma esquisita, o disco fala sobre vida e a morte, mas não traz respostas. São apenas pensamentos e temas.

Vemos você tomando vinho nos shows do National. E a música de vocês, mais cadenciada, com voz melancólica, parece combinar com uma taça da bebida. Você concorda com essa relação?

Eu bebo bastante. E não precisa ser necessariamente vinho. Mas bebo no palco para sair um pouco da realidade. Não é muito, especialmente quando tocamos por noites seguidas. Mas também bebo vinho quando estou escrevendo as músicas ou quando estou ouvindo alguma coisa. Então, o vinho é uma parte importante para a banda, já até escrevi músicas sobre isso, sobre ir para algum lugar e encher a cara. Mas eu sou um bêbado legal, na verdade. Costumo beber e ficar feliz. Quando o show acaba, eu paro de beber. Eu não tenho problema com isso, em parar. E não é que eu esteja me acabando de beber, ou coisa do tipo. O álcool me ajuda a chegar a outros lugares que não chegaria sem.

Em “Don't Swallow the Cap”, você fala algo assim: “Se você quiser me ver chorar, coloque para tocar Let it Be ou Nevermind”. Isso é autobiográfico? São discos que tocam você profundamente?

Escolhi esses dois, mas, na verdade, poderiam ser três, por causa de Let It Be, do Replacements. Talvez, eu tenha ouvido mais até do que o Let it Be dos Beatles. Todos esses discos têm uma tristeza que os acompanha, não é? As três bandas perderam integrantes, que morreram. Há essa tristeza neles, ainda que sejam brilhantes. Por isso escolhi. Mas não são, necessariamente, os discos que eu acho mais tristes. Era uma forma de dizer: “Se você quer me ver chorar, coloque música para tocar”.

Em São Paulo, em 2011, você desceu do palco e caminhou pelo público. Sei que é algo que você costuma fazer, mas queria entender o motivo disso. Qual é a razão de caminhar pelo público daquele jeio?

Não consigo lembrar com exatidão quando comecei a fazer isso. Mas deve ter sido em algum lugar grande. Estava me acostumando a ficar no palco e ver as pessoas olhando para mim. Senti a vontade de mudar essa dinâmica. Quis sair lá e tocar nas pessoas. É incrível ter as pessoas te abraçando, cantando junto, gritando as letras no microfone. São canções que escrevemos sozinhos em nossos quartos. De repente, elas estão sendo cantadas pelas pessoas, com todas as forças. É uma forma de se estar em contato com todas aquelas pessoas, cantando junto. É ótimo.

Scott Devendorf (baixista do The National) me falou que vocês tiveram vários problemas de convivência nos dois discos anteriores, Boxer (2007) e High Violet (2010). E neste, como foi?

Acho que as gravações de Trouble Will Find Me tiveram bem menos tensão do que as anteriores. Quero dizer, é sempre difícil, ainda que seja ótimo. É um processo cheio de ansiedade e tensão. Somos cinco adultos, com paixões e ideias próprias muito fortes. A maior parte das vezes, nós brigamos porque ficamos muito excitados com alguma coisa e não se pode ter tudo. É preciso fazer escolhas e, às vezes, essas escolhas são conflitantes. Nós somos passionais, ligamos demais para tudo isso. Então, brigávamos pelas menores coisas. O que era até engraçado, porque, para nós, era uma briga importante. Não sei se essas brigas valiam a pena. Neste disco, em especial, acho que não brigamos tanto. Aproveitamos mais, porque respeitamos o processo. No passado, brigávamos a ponto de pensar que a banda iria acabar. Isso causava ainda mais ansiedade, porque todos queriam que a banda seguisse em frente. Mas ficávamos tão bravos uns com os outros que pensávamos que iria acabar. Neste disco, percebemos que este é o nosso processo. Não é algo que irá matar a banda. Ficamos mais tranquilos quanto a isso. Ainda brigamos como loucos, mas não temos mais medo do fim da banda.

O fato de o The National ser formado por você e duas duplas de irmãos não cria um ambiente familiar demais? Quero dizer, em um ambiente no qual as pessoas se sentem mais à vontade do que normalmente deveriam estar e, por isso, essas brigas todas?

Definitivamente é isso. Algumas vezes, você mais briga com aqueles que são os mais próximos. E eu tenho um irmão também, que foi para a turnê conosco. É interessante falar sobre as brigas e os conflitos das pessoas. São os temas da nossa banda, na verdade: família e brigas.

Por falar no seu irmão, o Tom Berninger, gostaria de saber o que achou do documentário que ele fez sobre a banda, The National: Mistaken For Strangers.

Foi a minha esposa que o ajudou a dar forma ao filme. É um filme sobre ele, além de ser sobre a banda. É muito divertido, muito triste, muito esquisito e, principalmente, muito tocante. Como foi feito na minha casa, eu assisti enquanto o filme estava sendo feito. Tem várias coisas que eu teria dito para ele: “Não coloque isso”. Ele colocou tudo o que não queríamos e foi isso que tornou este um grande filme.

Os discos do National possuem um característica interessante: eles sempre trazem personagens femininas fortes, como “Ada”, “Karen” e “Victoria”. Neste álbum você nos apresenta Jennifer, na música “Fireproof”. Como essas personagens surgem para você?

Eu acho que elas costumam ser baseadas em pessoas reais. A minha esposa, que se chama Carin, é muito parecido com Karen. As músicas são, de diversas formas, sobre ela. Acho que a maioria das mulheres das nossas músicas são baseadas na minha esposa. Algumas vezes, também são personagens, entende? Eu sempre gostei que elas parecessem reais. Por isso gostava de colocar nomes, isso os traz para o nosso mundo real.

No disco Boxer (2007), vocês lançaram uma música chamada “Slow Show”, um dos maiores sucessos de vocês. Só que essa música trazia versos de outra canção já lançada por vocês, “29 Years”, que saiu no primeiro álbum, de 2001.

Quando escrevemos “Slow Show”, queríamos fazê-la ir para outra dimensão no meio da música. Naquela época, eu achava que ninguém nunca iria ouvir aquele primeiro álbum. E a versão original de “29 years” era mais um rascunho, gravado por mim mesmo, com um gravadorzinho. É a única música que fiz por conta própria. Dá para perceber que ela não possui instrumentos, apenas um tecladinho, eu tocando violão nada bem – e por isso você sabe que sou eu. Eu não sei, acho que foi ideia do Aaron [Dessner, teclado e guitarra] colocar as duas letras. Acho que ninguém pensou na versão original como uma música, era mais um rascunho esquisito do disco. Foi divertido reencontrar sentido para ela, redefini-la. Eu roubo de mim mesmo tanto quanto roubo dos outros [risos].

As pessoas perguntam muito sobre isso?

Acho que não. Você e mais seis caras têm esse disco. Então, ainda era meio secreto.