“Sinto hoje a mesma culpa que sentia em 1980”, diz Peter Hook sobre o suicídio de Ian Curtis

Baixista, que retorna ao Brasil para se apresentar como DJ, relembra as memórias da banda Joy Division

Pedro Antunes Publicado em 25/10/2012, às 19h09 - Atualizado às 19h55

Peter Hook
William Ellis

Peter Hook passou 44 horas contando sobre sua vida como baixista do Joy Division para dar origem ao livro Unknown Pleasures: Inside Joy Division, lançado recentemente no Reino Unido. A obra reconta a história da mítica banda do fim dos anos 70 que revolucionou o universo musical post-punk até se desintegrar com a morte do vocalista Ian Curtis, em 1980, dois meses antes do lançamento do segundo álbum do grupo, Closer. Mesmo depois de tanto tempo revivendo essas memórias, Hook parece levar a conversa com a Rolling Stone Brasil como mais uma parte do processo.

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Relembrar momentos marcantes da sua vida ao lado de Curtis, morto aos 23 anos, serve talvez até como uma terapia, ou como técnica para exorcizar os fantasmas que o assombram desde aquele dia 18 de maio de 1980. “Foi difícil voltar a tudo aquilo. Tudo o que aconteceu... Foi muito triste”, diz um soturno Hook, normalmente um senhor bonachão de 56 anos de idade. “Sinto hoje a mesma culpa que sentia em 1980”, confessa.

O sujeito com voz derrotada que fala do seu celular, de Manchester (Inglaterra), onde mora, ainda não entende como não compreendia o que acontecia com Curtis e seu sofrimento em conviver com epilepsia e depressão. “Não percebíamos os efeitos que aquilo, a epilepsia, tinha nele. Isso foi o problema. Éramos jovens e aquilo o deixava numa posição diferente”, diz.

Curtis, segundo ele, era sempre o primeiro a “dizer que estava tudo bem”. “Ele falava: ‘está tudo OK, não se preocupe comigo’. Era o que queríamos ouvir. Parecia que ele estava nos fazendo um favor. Todos nós queríamos que o grupo fosse um sucesso, queríamos ver o fruto do nosso trabalho.”

Os 32 anos que o separam desse fato não curaram Peter Hook, mas ele encontrou na música uma saída para manter a cabeça no lugar. Depois do Joy Division, os membros remanescentes do grupo formaram o New Order, banda com a qual ele permaneceu até 2007. Foi somente ao lembrar da última passagem do baixista por aqui para a entrevista ganhar nova vida. O show, realizado em 2011, teve a sua nova banda, The Light, em uma homenagem ao disco Unknown Pleasures, tocado na íntegra, com Hook cantando.

“Aquilo foi fantástico, não foi?”, perguntou ele, já com outro tom de voz. “Tivemos uma recepção ótima na América do Sul e no México, até na Europa, enfim, em lugares que nunca poderia esperar. Foi um elogio ao legado do Joy Division e para o que a música pode conseguir fazer mesmo mais de 30 anos depois”, diz.

Hook, agora, está se divertindo com o fato de que o público da turnê era formado, em sua maioria, por jovens nem nascidos quando o disco foi lançado, em vez dos “caras velhos e gordos, como eu”, brinca ele. “É o mito do Joy Division, não é? A morte do Ian tão jovem é a ideia romântica do rock and roll. Viva alucinadamente, morra jovem! Basta lembrar do Jimi Hendrix, do Jim Morrison, da Janis Joplin. É uma combinação tóxica.”

Desta vez, contudo, Hook retorna ao país como DJ, uma outra atividade relacionada à música que, segundo ele, é exercida para que ele se “mantenha interessado”. “O alcance das músicas é enorme, costumo tocar de coisas de 1977 até os dias de hoje”, explica, listando uma série de artistas que o interessam atualmente, todas com direcionamento eletrônico, claro. Entre eles estão Chromeo, Tinie Tempah, Calvis Harris e até David Guetta, “por mais que eu odeie admitir isso [risos]”.

Hook apresenta o seu DJ set no recém-inaugurado Na Mata Café de Belo Horizonte, nesta sexta, 26, e na filial de São Paulo, no dia seguinte, 27. “A internet tem ajudado bastante em conhecer muita coisa nova”, explica. “No meu tempo, tínhamos que ir aos clubes de Manchester ou ouvir algo por indicação”, completa.

Para 2013, os planos de Hook são ainda mais ousados do que a turnê com o disco do Joy Division. Ao lado da The Light, ele fará shows baseados nos dois primeiros discos do New Order, Movement (1981) e Power, Corruption & Lies (1983). Questionado sobre o que Bernard Sumner, guitarra e voz do New Order e também integrante do Joy Divison, acha desta turnê, Hook ganha uma terceira personalidade. Agora, como um senhor rabugento. “Nós estamos em guerra”, diz. “Não mantenho contato com ele.”

Datas de Peter Hook no Brasil

Belo Horizonte

Dia 26 de outubro, às 18h.

Na Mata Café SP - Rua da Mata, 70 – Itaim Bibi

Informações (31) 3654-1733

Valores: R$ 100

São Paulo

Dia 27 de outubro, às 20h.

Na Mata Café BH - Rua Maria de Dirceu, 56 - Lourdes

Informações: (11) 3079-0300

Valores: R$ 40 R$ 100