Alanis continua a mesma

Canadense faz show impecável em São Paulo, mostrando os mesmos trejeitos - e a mesma voz - que a consagraram na década passada

Por Bruna Veloso Publicado em 04/02/2009, às 18h43

Ela não é mais a garota raivosa de "You Oughta Know", nem a porta-voz de meninas em crise existencial. Ela amadureceu, variou seus rumos, mas continua sofrendo por amor e compondo boas letras. Alanis Morissette mudou, como não poderia deixar de ser, mas também manteve muito do que a fez uma das cantoras de maior destaque da década de 1990. Nesta terça-feira, 3, em São Paulo, a canadense mostrou um show conciso, repleto de hits e os mesmos trejeitos de anos atrás.

Como nas outras apresentações da turnê, a banda introduz "The Couch" sem a cantora no palco. Lançada no disco Supposed Former Infatuation Junkie (1998), a música é dividida em três partes, cantadas separadamente até a metade da apresentação. Alanis só surge - já ovacionada - em "Uninvited", trilha do remake de Cidade dos Anjos. Na faixa, em meio ao som característico do piano, sua voz antecipa um momento catártico: os ótimos músicos que a acompanham exibem absoluta sintonia entre si e com a frontwoman, colocando peso em seus instrumentos, em um crescente de sons.

Em seguida, a cantora agradece, mas, como que seguindo o tom introspectivo de suas melhores letras (reveladas para o mundo em 1995, com o álbum Jagged Little Pill), dirige-se poucas vezes ao público.

Diferentemente do show em Salvador (a Rolling Stone Brasil assistiu à apresentação), todo mundo estava ali especialmente para ver a canadense. Por isso, mesmo as músicas do novo álbum, Flavors of Entanglement, foram recebidas com entusiasmo, é claro, sem a intensidade do coro para os hits. A ótima "Versions of Violence", primeira da nova safra a ser mostrada, perde um pouco do toque eletrônico do CD e ganha peso das guitarras, com ares mais soturnos.

Em "All I Really Want", Alanis assume a gaita, tão presente em seus primeiros trabalhos de sucesso. No palco, tudo igual: balança o pescoço e a cabeça de um jeito que virou quase uma marca, enquanto une e mexe as mãos como se estivesse diante de alguém que a deixasse nervosa. E pula e gira os cabelos e anda de um lado para o outro. E ainda canta sem errar uma nota e sem buscar inovações desnecessárias ou improvisos.

A linha um tanto depressiva que percorre boa parte de seu trabalho se mostra clara na nova "Not As We", que, como tantas outras suas, é perfeita para uma fossa. Entre uma faixa e outra, Alanis apresenta os músicos, responsáveis, em muito, pela qualidade do show. Depois da queda de ânimos (o setlist é todo seqüenciado entre altos e baixos musicais), a cantora pega o violão para enlouquecer o público com "Head Over Feet", representante da lista de sucessos estrondosos de Jagged Little Pill.

Não há grandes efeitos visuais. O fundo do palco tem a imagem de uma grande árvore com galhos secos, um pôr do sol, e Alanis, meio curvada, de perfil. Os telões da casa não foram ligados, a pedido da produção da artista. Nas luzes, tons discretos de vermelho e roxo.

A influência de Guy Sigsworth se faz presente em "Moratorium". O produtor e compositor, que já trabalhou com Madonna e Björk, é responsável pela presença de toques eletrônicos no novo disco. Mas no show, é quase tudo sublimado (nesse caso, para o bem da platéia, que consegue perceber a interação sonora entre os instrumentos, sempre muito bem comandados). "Moratorium" é um bom exemplo: no disco, começa com uma batida que pode ser comparada a um drum'n'bass desacelerado; no show, começa mais lenta, mais tensa, e termina com Alanis girando durante intermináveis segundos.

Ótima para se jogar na cara de alguém de quem se levou um fora (e deve ter servido como trilha para adolescentes desiludidas em meados da década de 90), "You Outgha Know", é cantada em um coro ensurdecedor, antes da surpresa da noite: um pequeno set acústico (desta vez, o baixo de Cedric Lemoyne conseguiu - ainda sem a intensidade merecida - se destacar), que teve "Hand In My Pocket", "Underneath" (primeira música de trabalho de Flavors... e a que mais se parece com os últimos discos) e "Everything".

Depois de sair do palco, ela volta dizendo que "essa música é para vocês" (exatamente como fez em Salvador), antes de mandar "You Learn" e seu grande hit "Ironic" (ode à "Lei de Murphy"). Alanis termina o show agradecendo em forma de canção, com "Thank U".