Alanis perde para brasileiros

Cantora canadense faz boa apresentação na última noite do Festival de Verão e é respeitada pelo público soteropolitano, mas tem menos receptividade que atrações nacionais

Por Bruna Veloso, de Salvador Publicado em 03/02/2009, às 19h11

Alanis Morissette teve seu maior público em palcos brasileiros neste sábado, 31, no Festival de Verão de Salvador. Diante de uma platéia de 60 mil pessoas, a canadense mostrou boa forma, uma banda pra lá de competente e hits do passado, em um setlist repleto de faixas de seu elogiado disco Jagged Little Pill, lançado há cerca de 14 anos.

O público soteropolitano, que já havia assistido ao Olodum e ao Capital Inicial na noite deste sábado, recebeu bem a cantora, que retribuiu mostrando o mesmo jeito de cantar e de mexer o corpo de mais de uma década atrás. Alanis envelheceu, mudou, cresceu - mas no palco, ela continua a mesma.

Sem querer saber de conversa, ela praticamente não usou os camarins dispostos no backstage, apesar de ter exigido que neles houvesse marcas específicas de vinho, água, leite e muitas toalhas. Do hotel, aonde chegou na tarde de ontem (lá, ela também não se pronunciou), a cantora seguiu para o Parque de Exposições em uma van, cercada por seguranças.

Depois de uma introdução da banda, com parte da música de "The Couch", Alanis apareceu para cantar "Uninvited", que entrou no repertório do MTV Unplugged da cantora. Com dois ótimos guitarristas, uma enorme bateria, um baixista cheio de estilo e um tecladista que sabia exatamente o momento de aparecer, sem cometer exageros, Alanis só ganhou verdadeiramente o público nos grandes hits, os primeiros de sua carreira, entre eles "Head Over Feet", "You Oughta Know" e "Hand in My Pocket". Em "Sympathetic Character" e "Flinch", mais lentas e longas, muitos começaram a se dispersar. "Moratorium", de seu mais recente disco, Flavors of Entanglement, também começa morta demais - quando ganhou peso, muita gente já estava indo buscar cerveja na porção central da arena.

Para o bis (depois de alguns gritos de "Alanis"), "You Learn", a emblemática "Ironic" e "Thank You". Alanis saiu respeitada pelo público, mas escorregou em um line-up cheio de oscilações entre faixas de ânimo e outras de atmosfera mais pesada. A cantora ainda se apresenta em São Paulo (3/2), Rio de Janeiro (4/2), Belo Horizonte (5/2), Florianópolis (7/2) e Porto Alegre (10/2).

Mistura improvável

A programação do palco principal no sábado fez jus ao tema "movido pela mistura" adotado pelo festival. Em uma escalação mais do que improvável em palcos de festivais paulistanos, por exemplo, a noite teve, além dos já citados, a dupla pop sertaneja Victor & Léo e grupo de pagode Psirico. Quem paga para ir ao festival ouve tudo que lhe é apresentado sem nenhuma reclamação, e segue conforme a música - dançando nos momentos mais animados, arrumando um par nos mais românticos ou simplesmente indo dar uma volta nos que considera menos interessantes. Mas em nenhum momento, há demonstrações de atitudes de desrespeito ao artista, como vaias.

A noite do "eclético" começou com as batidas do Olodum. Talvez por estar situado em Salvador e realizar ensaios abertos ao público semanalmente, o ótimo show do grupo não pareceu causar muito impacto. Mas para quem não está acostumado, as batidas dos tambores chegam a causar arrepios. Ouvir "Alegria Geral" (do "Olodum tá hippie, Olodum tá pop, Olodum tá reggae, Olodum tá rock / O Olodum pirou de vez") ao vivo se faz como uma obrigação para quem visita a Bahia - o bloco de percussão completa 30 anos de existência, sendo um dos mais icônicos da cidade de Salvador. A nova vocalista Nadjane Souza (exuberante e dona de uma bela voz) cantou à África e dançou ao lado dos dois percussionistas da linha de frente, que chamam a atenção pelos cabelos coloridos e as coreografias com seus tambores. Também subiram ao palco Neguinho do Samba, o "inventor" do samba-reggae, e Jau, ex-vocalista do Olodum.

No intervalo após o término do show, uma bateria de fogos de artifício serviu para marcar os 11 anos de festival, além da última noite desta edição. Em seguida, chegou o Capital Inicial, uma das surpresas da noite em termos de resposta da platéia. O vocalista Dinho Ouro Preto se viu diante de seu maior público em Salvador, como disse depois da apresentação, e recebeu uma resposta surpreendentemente intensa. Os hits já conhecidos, como "Mais", "Geração Coca-Cola" (do Aborto Elétrico) e "Não Olhe para Trás" foram cantados de forma ensurdecedora pelo público. "Poucas coisas me dão tanto prazer quanto falar mal de políticos", disse Dinho antes de "Que País É Esse", outra entoada fortemente.

Pop stars sertanejos

De música sertaneja no sentido original da palavra, eles têm pouco. Mas como outras duplas que estouram nas rádios e se multiplicam nos CD players pelo país, Victor & Leo ainda são rotulados dentro do estilo, apesar de, assim como as demais, trazerem muito mais elementos do country do que da música sertaneja de raiz. Com pinta de galãs, jeito e discurso de bons-moços, os dois arrebataram o público do Festival de Verão, apresentando-se depois de Alanis. Com músicas românticas, eles levaram à loucura as meninas presentes. Bastava dar uma volta pelas áreas mais "circuláveis" do lugar (extremamente lotado) para ouvir comentários elogiosos à aparência dos rapazes.

Enquanto os irmãos mineiros conversavam com a imprensa, um som ensurdecedor veio do backstage. Era o grupo Psirico, responsável pelo fechamento do festival. Com uma linha de trombones, caixas, surdos e outros instrumentos de sopro e percussão, os integrantes, todos com uma camiseta estampada com o título da banda, mandaram "Cadê Dalila" (nova música de trabalho de Ivete Sangalo, e a julgar pelo número de vezes que foi reproduzida, um dos próximos grandes hits do carnaval baiano), "Toda Boa" (sucesso emplacado pelo grupo no verão passado), entre outras. Só depois, surgiu o vocalista, uma espécie de Kanye West (visualmente) tupiniquim: o figurino contava com boné amarelo, paletó branco, camiseta com estampa de Barack Obama e óculos amarelos iguaizinhos aos do rapper norte-americano. Às seis da manhã, Psirico ainda comandava o pagode, terminando a festa em clima de carnaval. Para fechar, o grupo promoveu um arrastão: desceu do palco, passando pela arena com uma multidão em volta, e seguiu tocando até os portões de entrada do festival, repetindo o mesmo feito do ano passado.