Alceu Valença faz show magistral no encerramento do Carnaval de Recife

Único ponto negativo da apresentação do cantor foi a falta de bis

Bruno Raphael, de Recife Publicado em 22/02/2012, às 12h48 - Atualizado às 19h40

Alceu Valença
Divulgação

Alceu Valença deu a esta quarta de cinzas, 22, um suspiro de alegria. Mesmo sabendo que seu show era o prenúncio do fim do Carnaval de Recife, o trovador das multidões apresentou um repertório escolhido a dedo para a apresentação no Marco Zero, completamente lotado de foliões fantasiados. E a chuva, vilã da abertura das celebrações, não fez questão de desfilar no último dia.

Antes do cantor pernambucano subir ao palco, Elba Ramalho aqueceu o público com seu ânimo fascinante. Canções como "Frevo Mulher" (Zé Ramalho) e "Vou Deixar" (Skank) ganharam roupagem totalmente diferente em seu show, que é um misto de rock, axé e o jeito Elba de ser. Mostrando que ainda tem a voz potente aos 60 anos, Elba cantou uma versão épica de "A Praieira", de Chico Science & Nação Zumbi, que colocou todos os foliões para dançar e sacudir os braços.

Com cerca de uma hora de atraso, Alceu Valença, 65 anos, subiu ao palco à 0h50. Quase como uma entidade, o cantor se vestiu de toureiro e amarrou seus cabelos brancos, outrora castanhos e cacheados, na nuca. Mostrando um carisma inabalável, ele começou com "Bicho Maluco Beleza", um dos seus clássicos. Ao final da canção, um coro envolvendo todo o Marco Zero prosseguiu com a música, entoando "ô ô ô, Bicho Maluco Beleza!"

Em "Diabo Louro", Alceu interagiu com suas duas dançarinas e brincou com o guitarrista Paulo Rafael, que também foi um destaque à parte no show, mostrando solos virtuosos ao melhor estilo Stevie Ray Vaughan. "Bom Demais", outra do repertório de Alceu que homenageia o frevo e relata como ninguém o sentimento do carnaval pernambucano, seguiu para manter o estado de êxtase do público em "Luanda".

"Anunciação", clássico que já tivera uma ótima recepção na voz de Karina Buhr na abertura do Carnaval, foi veículo para um dos primeiros discursos de Alceu naquela noite. "Sou um artista livre", disparou o cantor. "Canto o que quero e quando quero, o que vem do meu coração. E viva a nossa cultura!"

Com "Madeira Que Cupim Não Rói", Alceu comoveu o público, em um arranjo delicado sobre uma canção a respeito de um bloco que se sente campeão do Carnaval, mesmo que os juízes não digam o mesmo. "E se aqui estamos cantando esta canção, viemos defender a nossa tradição e dizer bem alto que a injustiça dói: nós somos madeira de lei que cupim não rói", versou Alceu, que ao fim da canção foi recepcionado por mais um coro do público sorridente. "Eu voltei de Paudalho ouvindo o rádio e não ouvi uma canção referente ao nosso carnaval", refletiu Alceu, em dado momento, só para ironizar: "Isto é, como diz [o apresentador de telejornal] Boris Casoy: 'uma vergonha!' Não vou falar mais, me segura que senão eu caio!"

Além do talento como artista, Alceu conseguiu levar o público a inúmeras risadas durante seu show no Marco Zero. "Olha a bruxa!", gritava de repente o músico, apontando para um boneco presente no meio da multidão, antes de "Frevo da Lua", um poema de paixão declarado à cidade de Olinda, um dos locais mais amados pelo trovador de São Bento do Uma. Ele o emendou, então, a "Ciranda da Rosa Vermelha".

Talvez o momento mais emocionante e inusitado do show tenha sido com o "Hino do Elefante de Olinda", tradicional canção que foi reinventada pelo guitarrista Paulo Rafael. Com sintetizadores ao fundo e a guitarra dele emulando solos delicados, Alceu versou, como um hino: "Olinda, quero cantar a ti esta canção. Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar faz vibrar meu coração. De amor a sonhar, minha Olinda sem igual: salve o teu carnaval."

Após o momento de emoção, "Tropicana" em versão frevo foi o momento de maior animação dos foliões do Marco Zero. Acelerada, a canção levantou o mar de mãos nas ruas e travessas. "Gente tão bacana, eu quero teu sabor!", declamou Alceu, que cantou em seguida "Beijando a Flora" e fez uma imitação de Chacrinha, para chamar o seu bis. "Alô, Terezinha? Vocês querem frevo? Eu vou chamar o meu conterrâneo Alceu Valença!"

"Roda e Avisa" veio em seguida, com direito a chuva de papel picado. O final de um show como este, no entanto, não poderia ser mais decepcionante para o público. Depois de "Voltei, Recife", Alceu se retirou do palco e, infelizmente, não voltou mais, após pouco mais de uma hora de show. Em seguida, os engenheiros começaram a retirar os equipamentos. Paulo Rafael apareceu e convocou o público a pedir por Alceu, mas já era tarde demais. Indignado, o público recifense vaiou e começou a esvaziar as ruas antes do início da Apoteose com a Grande Orquestra Multicultural, regida pelo Maestro Spok.

Veja abaixo o setlist da apresentação:

"Bicho Maluco Beleza"

"Diabo Louro"

"Bom Demais"

"Luanda"

"Anunciação"

"Madeira Que Cupim Não Rói"

"Me Segura Que Senão Eu Caio"

"Frevo da Lua"

"Ciranda da Rosa Vermelha"

"Hino do Elefante de Olinda"

"Tropicana"

"Beijando A Flora"

"Roda e Avisa"

"Voltei, Recife"