Alvo de polêmica, exposição Pourquoi Pas? quer levantar debate sobre racismo enraizado na sociedade brasileira

“É um país que tem a segunda maior população negra do mundo e onde tem essa ‘segregação cordial’ fazendo parte da cultura”, diz a artista Alexandra Loras, que assina a mostra

Redação Publicado em 12/12/2017, às 17h27 - Atualizado em 12/01/2018, às 17h43

Pourquoi pas?

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Dilma Rousseff, Gisele Bündchen, Donald Trump, Marilyn Monroe e diversos outros famosos e líderes políticos ganharam traços de negros pelas mãos da artista e ex-consulesa da França no Brasil Alexandra Loras. As obras integram a exposição Pourquoi Pas?, em cartaz na galeria Rabieh, em São Paulo, até 7 de janeiro.

A mostra gerou polêmica e foi acusada de fazer “blackface”, prática que era comum na comédia – e que hoje é altamente repudiada – em que atores negros pintavam o rosto para representar negros. “Não é blackface”, crava Alexandra em entrevista à Rolling Stone Brasil. “Blackface era uma narrativa usada pelos brancos, no século 19, para inferiorizar os negros, ridicularizar, era uma narrativa pejorativa, para colocá-lo no papel do bêbado, do idiota. Ninguém nas minhas imagens virou idiota.” Em Pourquoi Pas? (“por que não”?), Alexandra aponta a falta de negros em papéis de liderança no país manipulando digitalmente fotos de gente influente e perguntando “por que a pessoa que exerce esse papel não poderia ser negra?

“É um país que tem a segunda maior população negra do mundo e onde tem essa ‘segregação cordial’ fazendo parte da cultura”, diz. “É muito difícil questioná-la, porque ela é tão enraizada que não conseguimos enxergar coisas do tipo o uniforme branco da babá. Que é uma segregação. Então eu sabia que ia provocar um desconforto, mas nunca achei que fosse gerar uma ofensa. E, claro, meu objetivo não era ofender ninguém. Ouvi todas as críticas e respeitei cada ponto de vista, mas ficou fora do contexto, ficou um debate muito confuso, muita gente atacou sem entender direito o que estava acontecendo.”

Ela foi duramente criticada, especialmente dentro da própria militância, que viu na ação uma maneira inadequada de levantar esse debate. “Não tem receita para resolver o racismo. Se tivesse, estaria resolvido”, rebate.

“Meu papel é mais trabalhar com os brancos da elite brasileira para eles enxergarem o racismo e o preconceito, que é muito maior do que se imagina”, afirma. “Fiz essa exposição justamente para eles, mas no final me dei conta que quando se trata de racismo e preconceito, o branco não é o único em questão. O preconceito do negro está em olhar para a Dilma Rousseff como negra e conseguir ver a ex-presidente ali. A cidade de Salvador é formada por 80% de negros. Por que todo o poder e a liderança lá são formados por brancos?”, questiona a artista, que tem sido atacada pelos dois lados: segundo ela, não é bem vista no ativismo, por ser uma pessoa de elite, mas também vê de perto o quanto a alta classe tem dificuldade de enxergar os negros como pessoas merecedoras de estar em uma posição de poder. Com obras sobre o assunto realizadas em diversas plataformas, incluindo o livro Gênios da Humanidade, no qual fala sobre cientistas, artistas e inventores negros que foram essenciais para a história, Alexandra conta que até quando vai dar palestras sobre o assunto é vítima de racismo. “Quando vou palestrar na Globo ou entrar na fila de prioridade de embarque do avião, sempre vem alguém, muitas vezes uma mulher negra também, para me corrigir e dizer que eu não posso estar ali.”