Ana Frango Elétrico celebra o "paralelismo miúdo" entre o pop e o estranho com o clipe de Roxo; assista

Em 2018, a artista lançou o disco de estreia, Mormaço Queima, e se projetou com um som "bossa-pop-rock decadente com pinceladas punk" - entenda isso como quiser

Pedro Antunes Publicado em 20/02/2019, às 09h25

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Ana Frango Elétrico lança o clipe de "Roxo" (Foto: Reprodução)

Amanhã, de repente, você pode encontrar o passeador que parece o Lenny Kravitz. Dessa forma, com uma situação tão simples e corriqueira, embora cheia de detalhes e sub-textos a serem notados e algumas pitadas de nonsense, Ana Frango Elétrico coloca fogo na música "Roxo", canção do álbum de estreia dela, Mormaço Queima, lançado no ano passado.

A Rolling Stone Brasil lança, com exclusividade, o videoclipe de "Roxo", o primeiro da artista carioca, cuja trajetória, embora curta, já inclui apresentações ao lado de artistas fundamentais da nova música brasileira, caso de Rubel, O Terno, Ava Rocha e Maria Beraldo. Ana Frango Elétrico também foi escolhida como ato de abertura para a apresentação do amalucado neo-zelandês Connan Mockasin, no Rio.

O vídeo pode ser assistido no player ao final do texto.

"Roxo" tem uma narrativa surrealista, de cabeça nas nuvens, ao mesmo tempo, com pés bem fixos no chão. A situação do "passeador parecido com Lenny Kravitz" vem em um momento de calmaria em uma canção saltitante, de altos e baixos, corridas e calmarias.

A narrativa parte de um eu-lírico que funciona como uma voz da consciência amalucada, que sugere acender um pau-santo, ou misturar as cores azul e magenta, ou torce pelo tal encontro com o Lenny Kravitz carioca.

Todos os pensamentos não-lineares de "Roxo" são um cartão de visitas de Mormaço Queima. Nada é concreto, nos versos e igualmente nas melodias e harmonias de Ana Fainguelernt, artisticamente conhecida como Ana Frango Elétrico.

“Escolhemos 'Roxo' porque ela representa bem o modelo de produção musical que escolhemos pra gravar meu primeiro disco, Mormaço Queima, que se baseia em mim e na minha guitarra, sem click, em que o restante dos instrumentos vem colorindo as bases, dando textura, num processo de pintura mesmo", ela explica.

Na música, ela criou algo chamado pela própria de paralelismo miúdo, "que é uma poética de chão e céu". Cita, por exemplo, outro momento divertido de "Roxo", daqueles que merecem um gif de meme de cabeça explodindo:

"Se de noite, cada vez que liga luz, é um novo dia para o seu peixe".

Existe um delicioso compromisso descompromissado com as regras (nada nesse disco é absoluto, afinal). Os ouvidos captam algo pop, ali, também sacam o estranho - e não há problemas nisso. 

"Acontecimentos paralelos [como o caso das noções de dia e noite para peixe] e relações insuspeita [o encontro com a figura similar à Lenny Kratitz] norteiam toda a minha produção, seja na escrita, na música ou nas artes visuais."

"Pra não falar da letra", ela segue, "quando eu canto “mistura magenta com azul e vai”, numa referência óbvia à pintura".

Por isso, conta Ana Frango Elétrico, ela e o diretor Lucas Cunha decidiram criar a linguagem do vídeo a partir de um fundo verde (ou cromaqui, essa versão aportuguesada e horrível do termo em inglês, "chroma key").

"[O fundo verde] permitiu que a gente inserisse algumas pinturas em acrílica minhas como cenário, algumas que já existiam, outras feitas para o clipe", explica Ana, que interage com as projeções no clipe.

"A gente chamou as figurinistas Raquel Dimantas e Bárbara Tavares, que são duas figurinistas incríveis, e elas bolaram os figurinos todos pintados à mão", ela ressalta.

Por fim, ela explica: "Na verdade, é uma grande metalinguagem, uma sinestesia que fala de som e de cor, mas, dentre várias coisas, fala principalmente desses mini-universos, e também da transposição do pensamento da pintura para o universo sonoro e poético.”

Mormaço Queima marca a estreia da cantora é o que foi definido em um texto de apresentação como "bossa-pop-rock decadente com pinceladas punk". E tudo bem se você não entender exatamente o que isso significa, a viagem pelo disco é melhor sem tentar encaixotá-lo em algum conceito pré-estabelecido, mesmo.