Ana Frango Elétrico e os delírios surrealistas de um 'Little Electric Chicken Heart'

Com o segundo disco, artista encontra maturidade estética para tratar de temas que brilham como pinturas surreais

Pedro Antunes, editor-chefe Publicado em 24/05/2020, às 10h00

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Capa de Little Electric Chicken Heart, de Ana Frango Elétrico

Quando era pequeno, assisti a um filme de terror escondido numa madrugada. Deveria ter 7 ou 8 anos, acho. Escapuli do beliche onde dormia na surdina, fui até à sala na ponta dos pés e liguei a TV de tubo e sem controle remoto. Deixei o volume bem baixinho e grudei na frente da tela para não acordar ninguém. Adoraria hoje, aos 33 anos, saber qual filme passava. Não lembro, por motivos óbvios. Nas imagens, mãos saíam de um colchão e agarravam algum adolescente e o puxavam. Aquilo foi aterrorizante para a minha cabecinha jovem. Desliguei rápido o televisor, voltei para o quarto dividido com a minha irmã fugindo das mãos da ficção. Naquela noite, dormi no chão.

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Lembrei-me desse momento quando ouvi "Saudade", da Ana Frango Elétrico. É a música de abertura de Little Electric Chicken Heart, disco que entrou na lista de '30 Discos de 2019 que Você Deveria Ter Ouvido' de 2019, da Rolling Stone Brasil.


Ali, naquela canção, uma delicinha lo-fi de backing vocals "pa-ra-pa-pá", ela admite: "Talvez não tenha mais tanto medo assim de trovão".

 

Ana Frango Elétrico, nome artístico de Ana Fainguelernt, tem um encontro com um medo passado, no caso aquele sentido pelo trovão, em um encontro de "eus". É como se o eu-presente falasse com o eu-passado. O comum é esquecer de medos antigos.

Eles ficam lá, guardados (talvez, inclusive, gerando traumas na vida adulta que só a ajuda de um psicólogo possa resolver). Mas Little Electric Chicken Heart propõe um movimento: não esquecer, de nada, nadinha, mesmo daquilo que machuque (em diferentes níveis). Faz parte do processo de lidar com questões que a gente esconde até de nós mesmos.

É isso que propõe, de forma voluntária ou não, o segundo disco da Ana Frango Elétrico, por baixo das qualidades mais evidentes das primeiras camadas de Little Electric Chicken Heart, como a estética tropical-punk-retrô-futurista, a voz doce de Ana (ouça a bela "Promessas e Previsões"), os backings vocals sortidos e a vibe "dia ensolarado" que o disco tem na totalidade.

É um álbum que vale o mergulho sem o celular na mão - você sabe do que eu tô falando -, sem distrações. Não são muitos os discos que pedem por esse ritual, alguns rendem inclusive experiências piores se ouvidos com atenção demais. Não é o caso de Little Electric Chicken Heart. O segundo disco da Ana Frango Elétrico, sucessor de Mormaço Queima (de 2018) cresce, adensa, te puxa para lugares que nem a terapia foi capaz fazer às vezes.

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Para entender como o disco de Ana Frango Elétrico se comunica em diferentes níveis, o crítico e youtuber norte-americano Anthony Fantano deu uma bela nota 8/10 para Little Electric Chicken Heart no canal Needle Drop, que tem 2,1 milhões de assinantes.  Você pode assistir ao vídeo no player abaixo: 


E talvez ele tenha absorvido o álbum mais pela sensação estética que o disco possui, pelas harmonias, pelas referências que ele sacou de samba, de bossa, de tropicália, do que necessariamente o significado das palavras.

Quando ouvi Little Electric Chicken Heart também tive essa primeira impressão. O lance retrô-futurista que esse disco carrega é viciante, mesmo. Ele mexe no ouvinte logo de início por trazer a tona sonoridades que não estão no nosso presente musical. Como se fosse uma cápsula do tempo, guardada por 40 anos, aberta agora, no ano 2019 ou 2020. Isso tudo, aliada à contemporaneidade do álbum, já garante um lugar de destaque para o disco.

Mas daí a importância dos rituais perdidos: de ouvir a música. Realmente ouvi-la. Deixá-la entrar, de porta e ouvidos abertos. Assim, Little Electric Chicken Heart explode em novos significados.

O segundo álbum de Ana Frango Elétrico me leva a uma filmagem em câmera super 8. Na imagem, um barquinho pequeno, o mar azul, levando-o pra lá e pra cá. Nada é muito direto em Little Electric Chicken Heart, assim como não conseguimos visualizar a maré e correnteza levar o barquinho. Ele se mexe, apenas.

O especial desse disco é como ele leva você para dentro desse barquinho localizado no mar do inconsciente do ouvinte. Ali, lembranças e memórias se misturam com o atual e real. Amores e desamores estão presentes, mas em um subtexto, em nuances.

"Chocolate" pode ser intensamente devastadora, apesar do refrão chiclete e psicodélico. "Você pensando / Na falha do concreto, olhando pra parede / E os futuros incertos / Das bancas de jornais e jornadas matinais", canta Ana Frango Elétrico, no início da música, cujo ápice se dá aqui: "Suas narinas sangram chocolate / Você está comendo chocolate".

Atinge como uma pintura surrealista de um casal que está desconectado, aos poucos, absorvidos, cada um, nas suas próprias cabeças e inquietações. Distantes, um do outro, apesar da proximidade física.


A inquieta "Tem Certeza?" trata com humor e ironia de um pé na bunda dolorido - daquele que você insiste em tentar algo ("Você tem certeza? / Que não vai me aproveitar? / Posso morrer cedo ou até me matar / Taquicardia deitada no sofá"), enquanto finge superioridade ("Mas se você não vem / Eu não vou também").


Surrealismo, aliás, e dadaísmo, unidos às camadas de punk-bossa, transformam Little Electric Chicken Heart em uma passagem por um mundo que é só seu, o do ouvinte, porque é a imaginação que leva o álbum para esse lugar.

Brinco que é um disco que existe fora do tempo, em grande parte dele, justamente porque ele avança por memórias, afetivas ou doloridas, de quem o ouve. Como se, ao ouvi-lo, você pudesse embarcar em uma aventura no estilo de De Volta Para o Futuro para revisitar momentos do passado, lembrando-se sempre da regra fundamental na viagem no tempo de Doc Brown, de que, em hipótese alguma, você pode entrar em contato com o eu-passado para evitar uma ruptura drástica no tempo-espaço.

Perdão a nerdice excessiva.

Little Electric Chicken Heart leva ao passado se você o permitir fazê-lo, é claro, mas também trata do presente, é quando ele situa quem o escuta a voltar para o momento. "Torturadores" é fenomenal nesse sentido: "Pesquisando o nome e o endereço de torturadores / Só pra contar pros netos e porteiros / Que têm todo o direito de saber".


Estamos diante desse pequeno e elétrico coração de galinha. Ele tem cicatrizes, mas as trata com humor ou ironia. Tem também memórias de medos que já não fazem sentido na vida adulta. Nutre o desejo de justiça em um País no qual incontáveis injustiças são cometidas por segundo. Colorido, vibrante. Melancólico também - a vida é isso, afinal, um pouquinho de alegria, um pouquinho de tristeza.

Ana Frango Elétrico não tem tanto medo assim de trovão. E eu já não imagino que mãos aterrorizantes brotarão da minha cama para me levar para o Inferno. Quer dizer, não sei. Talvez eu durma no chão hoje, só para garantir.


*Pedro Antunes é editor-chefe da Rolling Stone Brasil, fala de música no Instagram em um programa chamado Tem um Gato na Minha Vitrola e foge de filmes de terror até hoje - embora assista um ou outro por sadismo.