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Análise: Após #OscarSoWhite, Oscar histórico consagra Mahershala Ali, Spike Lee e Pantera Negra

Diretor recebe seu primeiro Oscar 'oficial', enquanto Mahershala Ali se torna o segundo ator negro a ganhar duas estatuetas na carreira

Pedro Antunes Publicado em 25/02/2019, às 02h46

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Spike Lee e Mahershala Ali exibem suas estatuetas do Oscar (Foto: Jordan Strauss/Invision/AP)

"Há 400 anos nós fomos roubados da África e trazidos para a Virginia, escravizados", disse Spike Lee, diretor e roteirista, ao ganhar o seu primeiro Oscar "oficial", por assim dizer, já que ele havia recebido a estatueta honorária, na cerimônia realizada neste domingo, 24, no Dolby Theatre, em Los Angeles.

Mas o peso das suas palavras é maior do que simplesmente virem de um artista reconhecido por um trabalho de décadas. É muito mais. Tem o peso de muitas vozes. Tantas outras. Na plateia, o fino de Hollywood o reverenciava em pé. Jordan Peele, também diretor, de Corra!, ia às lágrimas.

Lee falou pela história. Pela dor e sofrimento de quem foi arrancado de sua terra, escravizado e, mesmo depois do fim da escravidão, ainda discriminado.

O Oscar de 2019 tem uma cara. Foi uma cerimônia, mas também um grito de liberdade, igualdade, de orgulho das raízes. De resistência, também, é claro, afinal a luta por igualdade está longe de terminar. O mesmo Oscar de tanta negligência no passado e, agora, faz referência.

Sim, é claro, também foi o ano de Bohemian Rhapsody se sagrar como o filme com o maior número de estatuetas (foram quatro, das cinco indicações) e de Green Book: O Guia, filme sobre um pianista negro, em turnê pelo sul extremamente racista dos Estados Unidos, conduzido por um imigrante italiano, eleito o melhor do ano - e também viu Mahershala Ali, novamente, vencendo o Oscar de melhor ator coadjuvante.

Mas em tempos tão conturbados, nada foi mais bonito que o salto de Spike Lee para os braços de Samuel L. Jackson. O diretor subia ao palco para ganhar o Oscar de roteiro adaptado por Infiltrado na Klan, filme com o qual também concorreu na categoria de diretor e melhor filme, mas perdeu para Alfonso Cuarón (diretor de Roma) e o já citado Green Book.

Em 2006, quando Lee levou o Oscar Honorário, uma manobra da Academia de Cinema (responsável por organizar o Oscar) para tentar apaziguar as injustiças cometidas pelos seus votantes, o diretor criticou da quantidade de negros indicados ao prêmio.

Agora, ele era anunciado por Jackson com vibração. E retribuía com um abraço. Dois homens negros que lutaram lutas que sequer imaginamos para estar ali, dentro de uma indústria de entretenimento que ainda dá os primeiros passos para entender o real significado de igualdade.

Lembrem-se do #OscarSoWhite

A tensão sobre igualdade em Hollywood chegou a níveis estratosféricos na cerimônia de 2016, como um resultado do que havia ocorrido no ano anterior, quando Selma: Uma Luta Pela Igualdade foi excluída das principais categorias.

Em 2016, todos os indicados nas categorias de atuação eram brancos. Assim, a hashtag #OscarSoWhite tomou conta da internet. Protestos de profissionais negros da indústria criou um tremendo barulho. O próprio Spike Lee e Jada Pinket Smith iniciaram um boicote à festa.

Isso ocasionou em uma revisão do júri da Academia, em busca de mais diversidade.

O discurso de Spike Lee

Ao se posicionar em frente ao microfone, Spike Lee exibia seu figurino todo roxo, em homenagem a Prince. Fez um discurso tocante e impactante:

"Hoje é 24 de fevereiro, o mês mais curto do ano. Também é o mês do ano da história negra. 1619... Há 400 anos nós fomos roubados da África e trazidos para a Virginia, escravizados. A minha avó, que viveu até 100 anos de idade, apesar de sua mãe ter sido escrava, conseguiu se formar. Ela viveu anos com seu seguro social, e conseguiu me levar para a universidade NYU. Diante do mundo, eu gostaria de reverenciar os ancestrais que construíram esse país, e também os que sofreram genocídios. Os ancestrais que vão ajudar a voltarmos a ganhar nossa humanidade. As eleições de 2020 estão chegando, vamos pensar nisso. Vamos nos mobilizar, estar do lado certo da história. É uma escolha moral. Do amor sobre ódio. Vamos fazer a coisa certa".

Simplesmente histórico.

Mahershala Ali, o homem do momento de Hollywood

Mahershala Ali é a representação máxima de tudo escrito acima, de um Oscar historicamente branco. Em 2019, na sua 91º edição, a Academia premiou um ator negro duas vezespela segunda vez na sua história.

Isso, mesmo, Ali é apenas o segundo ator negro a ganhar duas estatuetas na carreira. A primeira vitória dele se deu com o belo Moonlight - Sob A Luz Do Luar.

Ali se junta a Denzel Washington, cujas vitórias como melhor ator em Dia De Treinamento e melhor ator coadjuvante em Tempo De Glória o levaram o posto de primeiro ator negro a conseguir dois prêmios da Academia.

Em Green Book, cada movimento de Mahershala Ali é uma poesia, da delicadeza fina do início do filme, quando ele se apresenta como esse pianista refinado, ao processo de transformação pelo qual ele se obriga a passar ao cruzar pelos estados mais racistas dos Estados Unidos. Um homem deslocado, negro para os brancos - e "branco demais" para os negros que o encontram. Brilhante.

'Pantera Negra' faz história

Pantera Negra é provavelmente a produção da Marvel, dentro dessa tal caixinha de "filmes de heróis", a ser lembrado em algumas décadas - certamente o posto não será Homem de Ferro 2 - justamente por ele saltar dessa mesma caixa para escancarar outras cicatrizes.

Crianças negras enfim tiveram um herói e um elenco para torcer. Identificação, tão importante e tão relegada por anos a fio.

No Oscar, o longa de Ryan Coogler foi indicado em dez categorias (entre elas, foi a primeira produção de filmes de super-heróis indicado na principal delas). Levou três: melhor figurino, design de produção e trilha-sonora (fenomenal, diga-se de passagem).

Fez história outras duas vezes. Ruth E. Carter e Hannah Beachler foram as primeiras mulheres negras a ganharem nas respectivas categorias, de melhor figurino e design de produção.

Oscar em transformação

A Academia recebeu, nos últimos anos, inúmeras pancadas - a questão da pequena representatividade negra é uma delas. E também viu sua audiência despencar nos últimos anos.

A solução foi ser mais pop. A consagração de Bohemian Rhapsody é a prova disso. Impossível tratar a cinebiografia do Queen e de Freddie Mercury como um grande filme - há buracos na construção da história, e nem estou falando aqui sobre as incoerências históricas -, mas esse foi o grande vencedor da noite.

Foram três vitórias em categorias técnicas e uma das principais. Rami Malek, escolhido como o melhor ator, venceu Christian Bale (Vice), Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela), Willem Dafoe (No Portal da Eternidade) e Viggo Mortensen (Green Book - O Guia).

"Eu não era a primeira escolha de vocês, mas até que deu certo, né?", brincou Malek, ao receber a estatueta, e lembrar que, à princípio, o papel de Freddie Mercury seria de Sasha Baron Cohen.

Lady Gaga rouba a cena, ganha o Oscar e emociona

No começo da temporada de premiações, Nasce Uma Estrela tinha o que torcedores do Flamengo explicariam como "cheirinho de Oscar". Embora fosse um remake, o filme tinha forte apelo sentimental, com boas doses de sacarose, drama e duas ou três canções daquelas que grudam na cabeça.

O ator e protagonista Bradley Cooper despontava até como favorito na categoria de diretor, veja só.

Praticamente nenhum desses favoritismos se manteve, com exceção da previsível vitória de "Shallow", música cantada por Lady Gaga e Cooper. A canção, escrita por Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando e Andrew Wyatt, levou o prêmio.

Gaga, por sua vez, foi um espetáculo à parte durante toda a cerimônia, e não somente nas duas vezes que subiu ao palco, para receber eu Oscar e para apresentar a canção-tema de Nasce Uma Estrela ao lado de Cooper.

Emocionada, ela frequentemente era exibida com os olhos molhados e de sorriso no rosto.

Netflix "invade" a festa do cinema

Depois de tantas e recentes discussões sobre a possibilidade de filmes produzidos pela Netflix, serviço global de vídeo em streaming, o Oscar deu seu veredito. A Netflix também pode disputar premiações, sim.

Com Roma, o serviço se sagrou o grande campeão da noite, com três estatuetas. Isso, é claro, se deve ao trabalho de Alfonso Cuarón. O mexicano ganhou dois Oscars, de melhor diretor e fotografia. Roma também foi escolhido na categoria de melhor filme estrangeiro.

México está com tudo, senhor Trump

Enquanto nos Estados Unidos as discussões sobre a construção de um muro na divisa com o México, no Oscar, os diretores nascidos no país dão um espetáculo.

Nas últimas seis edições da premiação, somente em uma vez não vimos um diretor mexicano como vitorioso na categoria. 

A "dinastia" teve início em 2013, quando Cuarón levou o prêmio por Gravidade. Depois, em 2014 e 2015, foi a vez de Alejandro Iñarritu ficar com as estatuetas por Birdman e O Regresso, respectivamente. Em 2017, Guillermo del Toro ganhou na categoria por A Forma da Água.

Antes de Cuarón voltar a ganhar com Roma, em 2018, o vencedor foi Damien Chazelle, premiado por La La Land.

Sem mestre de cerimônias - e tudo bem

Kevin Hart foi anunciado como apresentador da cerimônia do Oscar. E, pouco depois, pediu demissão do cargo, ao ver antigos tuítes dele expostos. A Academia procurou por um novo mestre de cerimônias, mas não encontrou um substituto.

A edição de 2019, com um ritmo bastante ágil, mostrou funcionar sem a necessidade de ter alguém para conduzir a festa. O formato veio a calhar. 

Veja a lista completa de vencedores do Oscar aqui.