Aos Prantos Com Letrux

Uma ficção-análise de 'Aos Prantos', o segundo disco de Letícia Novaes como Letrux, lançado três anos depois de Letrux em Noite de Climão, de 2017

Pedro Antunes, editor-chefe Publicado em 23/05/2020, às 10h00

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Letrux aos Prantos (Foto: Ana Alexandrino / Divulgação)

Depois da festinha, do climão, da bebedeira, vem a ressaca. Às vezes, ela chega durante o rolê, também. Coisa da idade, a ressaca que bate enquanto o rolê ainda não acabou. É duro admitir, mas elas chegam: a idade e a ressaca. Pior, é inevitável viver o dia, mesmo que os olhos sigam abertos e pregados, o corpo não tenha dormido e siga em pé, agora à espera do ônibus para voltar para casa.

Letrux está aos prantos no segundo disco dela. Quem não?


Por que não pedir um carro pelo Uber e voltar mais rápido para cama e tentar dormir algumas horas? Também não sei. Existe algo tragicômico de estar ali, na estação, à espera do transporte público, enquanto pessoas passam para lá e para cá. Cheiros de perfumes e desodorantes recém-passados chegam de todos os lados. Alguns bons, outros lembram pessoas que já tinha esquecido, uns são só ruins, mesmo.

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"Que mancada que eu dei /
Tomei um ar de lucidez /
Quando o sol me refez /
Eu me mandei /
Triste cena que eu vi /
Eu era o fiasco da estação /
Ninguém me deu a mão /
E eu tava bem ali na frente", canta Letrux em "Fora da Foda"


Sim, Letrux, eu era o fiasco da estação. Isso estava na cara. Só queria ter essa guitarrinha meio disco music, anos 1980, do Chic, me acompanhando também, com as vozes da Lovefoxxx (CSS) e Letrux mais sussurradas e tal.

Mas eram 6h32 da manhã, acredita? E eu de corpo coberto de glitter (biodegradável, óbvio) e roupas mínimas, já que carnaval é uma desculpa para andar na cidade como se estivesse tomando sol na praia. Alguns colares pendurados no pescoço, um tênis colorido e uma pochete frutador para guardar celular, carteira de motorista, cartão de crédito e uns trocados.

Fora uma Noite de Climão daquelas. Letícia Novaes, a pessoa por trás da persona artística criada com o final da antiga banda dela, Letuce, ficaria orgulhosa, tenho certeza. A festinha no apartamento da @ de beijos bêbados que viraram um rolinho. "Acho que apaixonei", escrevi para a amiga dias antes. E, agora, tô aqui: pós-embriaguez, à espera de um milagre chamado "Chegar na Minha Cama antes das 8 da manhã".

- Moço, esse ônibus demora assim? - pergunto.
- Tá demorando. Carnaval, né? - responde o rapaz.
"Quarta-feira de cinzas. Que dia", pensei, enquanto assentia com a cabeça.

"Não aguento mais chorar. Não aguento mais chorar", diz um verso de uma das músicas de Aos Prantos, "Dorme Com Essa". Versos sinceros. Não aguento mais, também, Letícia Novaes. Entendo você.

Vivi o meu Noites de Climão (discaço de Letrux de 2017) particular em uma festinha. Que vexame. Divertido, mas um vexame. Uma delícia, também, mas um vexame, preciso admitir.

A festa tinha uma vibe retrô oitentinha, assim como esse álbum que marcou a estreia da nova fase musical da Letícia. Tudo à flor da pele, luzes neon e globo espelhado no teto. Bebidas fortes, drinques mal feitos por minhas mãos embriagadas. Lucidez zero. Gosto de gim e limão na boca.

Não era lugar de encontrar ex-amor. Ainda mais com alguém.


"Dorme com essa /
Dorme com ela /
Dorme comigo /
Pinta o cabelo /
Vai pra Lisboa /
Some da minha vida /
Dorme com essa", canta Letrux em "Dorme Com Essa"

Tá, não lidei bem com esse encontro, mas quem lida bem com uma coisa dessas? Aquele que vê a quem amou perdidamente com outra pessoa, de mãos dadas, de beijinhos e carinhos, e sobrevive sem um vexame não merece meu respeito. É isso.

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Pelo menos não quando é um fim tão recente. Às vezes, a gente imagina que superou até a realidade dar um tapa na cara e diz: "Não superou porr* alguma". Exagerei na festa, eu sei. Culpo o gim tônica com menos gelo do que deveria por isso.


"Querendo ou não /
Eu não sabia o que você ia virar /
Te amei com tudo /
E entretanto sobrou nada pra guardar /
Ao passo que o mundo é podre /
E você escolheu sumir /
Se você já tá cansada /
Ai que abuso faz me rir", canta Letrux em "Contanto Até Que". É, Letícia, entendo o que você sente nessa música.

Não imaginava que seria eu a viver a Noite de Climão. Também não poderia supor, portanto, que experimentaria Aos Prantos, o segundo disco lançado pela Letrux. Mas isso que é a vida, acredito. Um climão e um choro. Assim seguimos. 

E Leticia Novaes sabe encontrar o cômico no trágico, e o trágico no cômico. Tem uma caneta encantada, me parece, dona de crônicas musicais tão sinceras que, quando a gente percebe, se transforma na trilha sonora da nossa própria vida. Que loucura, né?

A ressaca ainda bate, mas os pensamentos ficam mais lúcidos. Com a embriaguez que vai embora, chegam as memórias, em flashbacks. Costumo olhar para a minha própria vida como uma narrativa de cinema de um filme clichê, admito. Por isso crio esses momentos de flashback com letras garrafais que surgem na tela imaginária: "HORAS ANTES..."

Beijei bastante, disso lembro com razoável clareza, não sei quantas bocas, foram muitas. Bocas delas, bocas deles, derramei bebida no tapete algumas vezes nesses beijaços. Pedi desculpas, tropecei, fui preparar mais um drinque.

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Não soube lidar com esse momento do tempo-espaço no qual um ex-grande amor e a nova paixão se conheciam, eram próximos o suficiente para estarem no mesmo espaço, na última festinha oficial do carnaval em uma terça-feira. Parecia ficção. Será que é? Virei personagem da Letrux?

Então é isso: saí de Em Noites de Climão e fui parar em Aos Prantos.


"Todo corpo têm água /
Lágrima, suor e gozo /
Todo corpo têm água /
Lágrima, suor e porra /
Ou a gente chora ou a gente sua /
Ou a gente goza /
Só não pode magoar", diz "Déjà-Vu Frenesi", que abre o disco Aos Prantos. Mágoa, eu tenho, mas também tenho água, lágrimas, suor e gozo.

Estava lá eu, na fila improvisada do único banheiro do apartamento quando senti uma fungada no cangote e ouvi essas palavras, desse jeito: "Eu ainda te amo". Vacilei, eu sei. Vivia um início de uma paixãozinha com outra pessoa, mas quando a porta do banheiro abre, mergulhei para dentro com um ex-amor.

E foi ótimo, como sempre foi. Batidas enfurecidas na porta. Pessoas put*s porque precisavam fazer xixi ou sei lá. Nos vestimos. Que mico. O ex-amor se desespera e sai em busca do date trazido para a festinha que, a essa altura, já havia partido. Óbvio.

"Cê ficou cínico com o tempo /
Eu fiquei muito mais espiritualizada /
Acreditando em carta, sonho e passe /
Cê surgiu mímico no templo /
Eu deixei cê brilhar com a sua palhaçada /
Acreditando em grana, sexo e classe", canta Letrux em "Vai Brotar". Essa música veio à mente enquanto lembrava da cena. Uma palhaçada. Pelo menos o ônibus chegou. Ufa, são 7h04 ainda.


Já a nova paixão estava ali, no sofá. Um casal se beijava e se entrelaçava ao lado dele. Tinha as maquiagens carnavalescas já borradas, como as minhas. A festa definhava aos pouquinhos, a música estava baixa, mas não tanto assim ainda. 

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- Não esperava por isso -, ouvi, enquanto sentia o cheiro do bafo de cerveja, ao me ajoelhar ali. Rosto com rosto, muito próximos.
- Eu sei... Fui idiota... - respondi. Sentia que as palavras não saiam exatamente no ritmo que eu imaginava.

Ficou um silêncio entre nós.

- Tchau - murmurou a nova paixão
- Te amo, também - disse, rapidamente.

Sim, ouvi "tchau", mas entendi "te amo". Trágico. Cômico. Socorro, Letrux!

"Me confundi quando cê disse tchau /
Entendi te amo /
Now it's too late baby, it's too late /
Te amo, te amo, te amo /
Tchau tchau tchau tchau tchau", diz a letra de "Cuidado, Paixão".


Fiz a única coisa que achei possível depois disso, depois de tanto. Corri sem dizer mais uma palavra. Tropecei em um tênis largado no corredor que levava para a porta de saída, cambaleei, apoiei em uma mesinha, derrubei um vaso de flores. CRAC! Silêncio, a festa toda (ou o que restou dela), parou e olhou para mim, pochete caiu aberta, espalhando tudo na entrada da casa. "Só vai embora", pensei enquanto pegava as coisas no chão. "Desculpe", murmurei. Corri para fora dali.

Pausa dramática (falei para vocês que eu era clichê).


"Me abalo e me abalo muito /
Nasci abalada, um tanto enrolada /
Por isso eu canto com essa cara de espanto /
E não entendo quem mente que nem sente /
Mente que nem meme, gargalha /
Dá teu showzinho na sala, faz tua mala /
Bota pra fora os demônios /
Pendurados na tua orelha dizendo 'Vai lá, vai', canta Letrux em "Abalos Sísmicos".

O cobrador do ônibus não deveria ter ficado tão espantado com meu look brilhante nem com a maquiagem borrada. É quarta-feira de cinzas e eu sou a representação máxima do pós-carnaval neste momento. Peguei o celular e procurei a conversa com a "Nova Paixão" - sim, sou dessas pessoas intensas que salvam contatos desse jeito: "Nova Paixão", "Ex-Melhor Amiga", "Nunca mais ligar para esse número", coisas assim.

Mandei mensagens ao longo de todo o caminho de uns 40 minutos. Foram todas visualizadas. Nenhuma respondida. Ótimo, agora eu que sou o clichê. "Desculpe", "Errei, "Entendo se nunca mais quiser falar comigo", escrevi. Nada, nadinha. Poderia, pelo menos, não ter visualizado, para que eu tivesse a ilusão de que estava dormindo, sei lá. Algumas coisas bobas me irritam.

Chovia quando chegava no meu prédio e entrava dando um "oi" constrangido e molhado ao porteiro do turno da manhã. Elevador demorado. "Estou chegando em casa", escrevo para "Nova Paixão", como se fosse ter alguma resposta.

Foi então que percebi um problema gigante. Sente o drama aqui abaixo:

"Sente o drama /
Saí de casa, perdi o metrô /
Esqueci a chave e começou a chover /
E eu nem sei o nome da pessoa chata /
Que eu encontrei", canta Letrux em "Sente o Drama", música na qual divide os vocais com a Liniker.


Sim. Esqueci. A. Chave. Corta para um novo flashback digno dos filmes de Christopher Nolan que insiste em explicar tudo, tintim por tintim, como se duvidasse na sagacidade de quem assiste. Eu não duvido da sagacidade de ninguém, só gosto de flashbacks.

Letreiro: HORAS ANTES...

Voltemos para a cena da saída da festinha. Pochete escancarada, tudo no chão, pego as coisas olhando de volta para os presentes assustados com o barulho do vaso quebrado. Recolho cartão de crédito, celular, trocados, carteira de motorista. Falta a chave de casa, que fica ali, com um chaveiro bem chamativo justamente para não ser esquecido. Bom, corri e agora estou aqui.

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Ressaca, corpo ensopado de chuva, glitter pelo corredor do prédio. "Vou levar uma advertência ou uma multa por isso", penso. Acho que a ressaca até está passando, acredita? Mas não sei o que fazer agora.

Obrigado, Letícia Letrux. Trágico e cômico. Eu estou aos prantos, quem não?


*Pedro Antunes é editor-chefe da Rolling Stone Brasil, fala de música no Instagram em um programa chamado Tem um Gato na Minha Vitrola, e sabe que Aos Prantos foi lançado depois do carnaval de 2020. É uma ficção, afinal. E uma análise também. Letrux esmiúça sentimentos díspares no segundo disco e faz todo mundo perceber que entre o riso e o choro, existe o gozo - e entre o riso e o gozo, existe o choro.