Exclusivo: após hiato de dez anos, grupo de rap RZO anuncia volta

“Nessa fase do rap de hoje, muita gente falou que estava sentindo falta do estilo do RZO, da forma como nos apresentávamos no palco”, diz o DJ Cia

Lucas Brêda Publicado em 28/04/2014, às 17h22 - Atualizado em 06/05/2014, às 20h34

RZO
Divulgação

“Fiquei bons anos na mente dos caras”, diz o DJ Cia, se referindo às tentativas de volta do grupo de rap RZO, formado por Helião e Sandrão, além dele. Foram dez anos durante os quais os integrantes tocaram projetos paralelos e se reuniram apenas uma vez antes de anunciar o retorno definitivo. “Uma das maiores motivações foi que os fãs pediam”, ele revela. “É uma parada muito louca saber que [o grupo] ainda está vivo”.

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No festival Tamo Aí Na Atividade, realizado em 13 de abril, em homenagem ao legado do Charlie Brown Jr., o trio participou cantando a música “A Banca” – lançada no disco Nadando com os Tubarões, de 2000, e posteriormente em Acústico MTV, em 2003, ambos da banda de Santos. “Aquela foi a primeira apresentação da volta oficial do RZO”, diz o DJ Cia. Entretanto, o show que vai marcar definitivamente o retorno acontecerá na Virada Cultural, que será realizada em São Paulo nos dias 17 e 18 de maio.

“Sim, vai sair disco”, confirma o DJ. “A gente tem algumas músicas que à época não foram lançadas”. Apesar de se encontrarem em diversos projetos, o último álbum em que os três tocaram juntos foi Evolução é uma Coisa, de 2003. “Tem muito moleque novo que não conhece nada de rap”, ele diz. “Não só o RZO. Não conhece o Consciência Humana, Realidade Cruel, Gog, Da Guedes. Não conhece um monte de gente que abriu caminho para essa rapaziada que está aí hoje”, justifica ele sobre a importância do retorno do trio.

Da “rapaziada que está aí hoje”, o DJ Cia cita Emicida, Criolo e Projota como artistas que reconhecem o trabalho do RZO. “Isso é incontestável”, ele diz, “com certeza a gente abriu caminho para muitos manos que estão aí”. O Rapaziada da Zona Oeste (RZO), nos anos 1990, revelou nomes como Sabotage e Negra Li, além de ter feito rap em tempos mais difíceis para o estilo no Brasil.

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“Tinha show em que a gente estava no meio do palco e tinha policial esperando a gente descer porque estava falando tal fita”, ele conta. “Tem policial que, na época, não aguentava ouvir aquelas paradas. Não entendiam”. Além do RZO, ele se lembra de grupos como o Racionais MC’s e o MRN, que também entravam em conflito com os policiais. “Hoje, nego sabe um pouco mais de direito que antigamente, e o rap colocou essa parada”, analisa. “Se você anda na linha, não tem porque o cara te agredir”. “Antigamente, mesmo estando certo, se você tomasse um enquadro e falasse ‘por que?’, já tomava um tapão na orelha, entendeu?”.

Para um novo disco, além da produção mais refinada – graças à experiência adquirida pelo DJ em parcerias com Seu Jorge, viagens ao exterior e turnês solo –, a adição de instrumentação variada deve ser a novidade no som do grupo. Segundo Cia, a percepção necessária ao RZO tem a ver com se encaixar no rap atual. “A grande parada é dar essa remodelada sem perder a essência do RZO”, ele explica. “A gente sabe o que está acontecendo”, comenta a respeito da composição de novas letras. “O rap sempre canta tempos atuais. Canta o que está vendo”.

Apresentando-se aos jovens como um dos nomes mais representativos do rap brasileiro, o RZO se prepara para entrar em estúdio, mas antes, mantém o foco no show agendado para a Virada Cultural. “Tem que voltar pesado, bonito, com sintonia – porque ficamos afastados uns dos outros”. Ele deseja “sentir mesmo aquela coisa que era o RZO”.

O rap nacional, que recebe de volta o trio, evoluiu muito em relação àquele de dez anos atrás. E grande parte dessa mudança se deve ao DJ Cia, Helião e Sandrão. “Hoje a grande diferença é a aceitação”, ele analisa. “Hoje, se você fala que canta rap, nego quer se envolver, quer estar junto”. Apesar do respeito adquirido, absorver o tempo parado e encontrar espaço no rap atual é o grande desafio do trio. “Nessa fase do rap de hoje, muita gente falou que estava sentido falta do estilo do RZO, da forma como a gente se apresentava no palco”, diz DJ Cia.