Aos 65 anos, Arnold Schwarzenegger volta à forma em O Último Desafio

Filme dirigido por sul-coreano Jee-woon Kim marca o retorno do ex-governador da Califórnia aos filmes de ação e brinca com a sua idade; Rodrigo Santoro interpreta um antigo soldado que busca redenção

Pedro Antunes Publicado em 18/01/2013, às 09h35 - Atualizado às 13h09

Arnold Schwarzenegger
Divulgação

"Velho", diz Arnold Schwarzenegger em dado momento de O Último Desafio, ao explicar como se sentia após uma cena de ação. Uma única palavra que ecoa por uma hora e meia de filme, dançando entre balas perdidas e carros furiosos. Mas ele não parece se preocupar com isso. São 65 anos, dez desde o seu último grande papel, em O Exterminador do Futuro 3 - A Rebelião das Máquinas , e ainda assim lá está o austríaco ex-governador da Califórnia, de farda, arma nas mãos, pronto para desferir socos, pontapés e um punhado de munição disparada à revelia. Schwarzenegger está de volta, mas sem se levar muito a sério.

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"Velho". É aí que está toda a graça do filme que estreia nesta sexta-feira, 18. A habilidade em rir de si mesmo, de volta ao papel de exército-de-um-homem-só, desafiando um perigoso mafioso fugitivo (Gabriel Cortez, interpretado por Eduardo Noriega) mais jovem e mais rápido, é o grande trunfo do filme dirigido pelo sul-coreano Jee-woon Kim (de Os Invencíveis , lançado em 2010). A brincadeira tira o público da função crítica quase inevitável de ver aquele que já fora um sujeito durão, hoje um senhor, fazendo (ou tentando fazer) as mesmas peripécias dos anos 80, de Conan, o Bárbaro , O Exterminador do Futuro (1984) e O Predador (1987). Arnie, voltando à sua eterna zona de conforto, tira o espectador da sua, deixando-nos surpresos e livres para encarar o filme sem pré-julgamentos.

"Velho". O longa está longe do grande clássicos de ação - muito da fórmula que já se esgotou -, e Jee-woon Kim coloca mais ingredientes nesse turbinado caldeirão. Inclui perseguições fabulosas (e miraculosas) em carros possantes, elementos de faroeste e mortes inesperadas. O caldo, se não é de primeira, é de segunda com todo orgulho possível: há frases de efeito típicas de filme B, exageros de violência por todos os lados, inclusive de velhinhas aparentemente inofensivas.

"Velho". Tudo soa trash, até mesmo o personagem de Schwarzenegger. Ele vive Ray Owens, o xerifão de uma cidadela chamada Somerton, localizada na zona limítrofe entre Estados Unidos e México. Não há nada a fazer por ali, a não ser dar broncas nos próprios oficiais sob o seu comando (três, no total) e sorrir para a comunidade. Era o que ele precisava, depois de anos trabalhando no combate de tráfico de drogas em Los Angeles. Isso é só a história de fundo, criada para dar alguma profundidade ao personagem. A ação logo chega à cidade quando o FBI, liderado pelo agente John Bannister (o vencedor do Oscar Forest Whitaker), tenta fazer a transferência do mafioso Cortez - "o maior rei do tráfico de drogas desde Pablo Escobar" - para onde ele será executado. Um desenrolar óbvio, mas sem deixar de tirar o fôlego em alguns momentos, faz com que o tal Cortez se veja livre e em posse de um carro conhecido por ser um dos mais rápidos do mundo. O destino é justamente a cidade onde Ray vive e a ideia é conseguir ultrapassar a fronteira e ser livre novamente, no México. Detalhe cascateiro: o roteiro explica as habilidades do criminoso no volante ao dizer que ele havia sido um piloto de corrida, dos bons, na juventude. Aí está o trash puro, explicativo, embora com histórias mirabolantes e coerência quase nula.

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“Velho”. Assim como o papel do brasileiríssimo Rodrigo Santoro como Frank Martinez, um veterano de guerra, embora bem jovem, que é constantemente preso por arruaça na cidade e ex-namorado de Sarah (Jaimie Alexander), uma policial do condado. Quando a crise se instala, Ray decide transformar ele – lembre-se, ele estava preso -, em policial local. O mesmo acontece com o afetado Lewis (Johnny Knoxville), um alucinado por armas, novas e antigas, que inclusive dá nomes à elas.

“Velho”. Jee-woon Kim espalha sangue e explosões pelo pequeno território da cidade, como um bom western moderno, com carros no lugar dos cavalos. E, como todo bom filme de caubói, é o xerife local que precisa lidar com o bandido. Um latino substituiu o índio malvado – há aí um grande gancho para a discussão da intenção do diretor e seus questionamentos quanto ao “inimigo” norte-americano. O filme se dirige para uma interessante história de barricada, fórmula usada e abusada no Velho Oeste, e para a inevitável redenção de personagens tipicamente desajustados.

“Velho”. No fim, é a figura de Schwarzenegger que leva o filme para frente. E, admita, mesmo que secretamente, é bom voltar a vê-lo na telona, com arma na mão, com pose de machão, falando seu inglês sofrível. Mesmo que ele esteja “velho”.