Arqueólogos da música

Thomas Lauderdale, o líder do grupo Pink Martini, comenta o estilo único da banda, que desembarca pela primeira vez no Brasil para shows na Virada Cultural Paulista

Por Stella Rodrigues Publicado em 13/05/2011, às 15h46

Thomas Lauderdale e China Forbes, os cabeças do Pink Martini

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São mais de 20 idiomas, no mínimo dez músicos de múltiplas nacionalidades e uma infinidade de instrumentos. Simples e básico são palavras que não constam no vocabulário do Pink Martini. A banda, que vem ao Brasil pela primeira vez para participar da Virada Cultural Paulista, em Piracicaba e São José do Rio Preto (veja mais informações ao fim deste texto), prima pela pluralidade em tudo que faz.

Em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, o cabeça de toda essa "orquestra", Thomas Lauderdale, mostrou que não estava tão por dentro da ocasião que o trazia ao país, mas adorou o fato de sua estreia em solo verde e amarelo ser em um evento de tal magnitude. "Eu acho uma ideia ótima, ótima mesmo. É um programa ótimo, queria que o nosso governo fizesse algo parecido. Mas, pensando bem, a maior parte das pessoas nos Estados Unidos sequer dança, então... fica difícil!", brinca Lauderdale. "Mas é incrível fazer parte de um festival tão grande. Eu não acho que a gente seja tão conhecido no Brasil, então é bom para pegarmos carona no público de outras bandas", ele completa.

Para estes dois shows no interior paulista, a azeitona do Martini, que é a seção de cordas, não virá junto ("contrataremos uma local, o que será fantástico", conta), mas isso não diminuirá o brilho do que Lauderdale tem planejado: "Estamos especialmente animados para ir ao Brasil porque muitos dos meninos, especialmente nossos percussionistas, passaram muito tempo no Rio de Janeiro e em São Paulo estudando samba com vários professores. É ótimo poder levar a banda inteira que, em sua maioria, é muito influenciada pelo samba, música e percussão do Brasil. Vai ser um show para cima, animado, uma loucura em várias línguas, que inclui português, inglês, francês, chinês, turco, árabe", revela.

Mesmo com tantos elementos, essa torre de babel musical funciona de forma harmoniosa. "A banda é conduzida pela melodia. A letra é secundária", explica. "A melodia tem que ser linda. Se não for, não vale a pena nem fazer nada. Compomos música em 20 línguas diferentes e a maioria das pessoas não fala tudo isso de idiomas. Aliás, nem a gente fala! Então, o que sobra é a melodia, ela tem que ser fantástica para ressoar bem com o público."

O Pink Martini gosta de desafios. Se Thomas Lauderdale é o pai desse grupo que ele chama, como muitos bandleaders, de "grande família", a mãe é a vocalista China Forbes, sua colega de Harvard. China aceita constantemente as ideias, por mais malucas que sejam, propostas por Thomas. Elas vão desde cantar em outras línguas sobre as quais ela não sabe nada até o complexo trabalho de arqueologia musical que ele elabora para manter essa "família" sempre em contato com os mais diversos tipos de música. Quando indagado sobre seus mais recentes achados, Thomas para, reflete e, de repente, seu tom de voz vira outro, ele dispara a falar de mil projetos e descobertas. "Ultimamente temos trabalhado em um projeto com um uma cantora chamada Saori Yuki, que é tipo a Barbra Streisand do Japão", compara. "A gente tem descoberto muita música de 1969. Isso porque estamos trabalhando em um disco só com música de 1969 e estamos fazendo parceria com ótimos artistas japoneses. Tem também o trabalho da Sylvia Rexach, uma compositora de Porto Rico, dos anos 40 e 50, que descobri recentemente."

Onde um norte-americano vai para achar coisas que acontecem em várias partes do mundo? Na internet, presume-se. Mas não é o caso: Thomas é "old school". "Não costumo achar muita informação na internet, as pessoas que pesquiso são obscuras a esse ponto. A Sylvia, por exemplo, morreu há mais de 50 anos. Nesse caso, específico, um cineasta que está fazendo um filme sobre a música dela me achou por meio de um amigo e tenho fuçado muito, pesquisado, achando partituras e as pouquíssimas gravações [que existem]. Fazer essas escavações é sempre um desafio ótimo e isso quer dizer ir a bibliotecas, às vezes embaixadas, lojas de discos escondidas. Aliás, eu acabei de descobrir em uma loja um monte de discos dos anos 20 e 30, do Brasil. Ainda vou começar a ouvir. Isso é muito empolgante, você nunca sabe o que vai descobrir."

Não basta descobrir. Thomas ouve, gosta, se apropria, trabalha e devolve isso ao público como deseja. "As pessoas por aqui estão familiarizadas com a Carmen Miranda, mas não necessariamente conhecem o trabalho que fez antes de vir para os Estados Unidos. É muito empolgante pra gente descobrir e incorporar. Aqui, quando as pessoas pensam em Carmen, pensam na garota com as frutas na cabeça e as músicas em inglês. Mas tem toda uma história e uma música de antes de ela vir que é muito mais fascinante e inesquecível. Ela canta em português e pouquíssima gente sabe do que ela está falando... é meio por aí, é incrível poder ter contato com essas outras músicas que são menos conhecidas e usar isso do nosso jeito."

Fotografia

Além de ser pianista e de ter o espírito de um Indiana Jones da música, Thomas também se interessa por outra arte, a fotografia. A cada novo lugar que vai, saca sua Polaroid e a coloca para trabalhar. No Brasil não será diferente, praticará seu hobbie de sair pelas ruas flagrando pessoas em momentos interessantes. "Amo fotografar as pessoas que conhecemos! Amo fotografar... o que mais mesmo? Ah! Prédios e arquitetura. Mas gosto mesmo de clicar pessoas na rua. Vou ficar por uns dois dias só, mas no segundo que o avião pousar, estarei com a câmera na mão. Preparem-se."

Pink Martini

Piracicaba

Sábado, 14, às 17h

Palco externo: Engenho Central

Grátis

São José do Rio Preto

Sábado, 14, para domingo, 15, à 0h

Palco externo: Anfiteatro Nelson Castro (Represa)

Grátis