As 20 melhores músicas de Keith Richards

Jon Dolan, Patrick Doyle, Kory Grow, Will Hermes, Rob Sheffield Publicado em 15/10/2015, às 19h35

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Charles Sykes/AP

Na metade de todo show dos Rolling Stones, Mick Jagger deixa o palco para Keith Richards cantar duas músicas. Toda vez, Richards prova que ele próprio é um formidável frontman. Além das cruciais contribuições como guitarrista e compositor, Richards é responsável por entregar alguns dos melhores momentos da discografia dos Rolling Stones como vocalista.



Com o lançamento de Crosseyed Heart, seu terceiro álbum solo – e primeiro desde Main Offender (1992) –, Keith Richards adiciona mais momentos de brilho único em sua carreira. A seguir, veja a lista com as melhores músicas do lendário guitarrista.


10 – “Eileen” (Main Offender, 1992)



A banda X-Pensive Winos era “um grupo um pouco mais esfarrapado” quando gravou Main Offender (1992), sequência de Talk Is Cheap (1988), com o qual estreou. As sessões para o álbum rotineiramente começavam entre 1h e 3h da manhã, abastecidas por Jack Daniel's “e outras coisas também”, conforme lembra Richards (diversos integrantes da banda largaram as drogas em seguida).



O ponto alto é esta cativante e desleixada faixa roqueira. Acesa pelo jeito de tocar furioso e os vocais de Richards, a simples e sincera súplica desperta a imagem dos Beatles em início de carreira tocando em um bar de motoqueiros. “É uma voz com personalidade”, disse Richards.


9 – “Wanna Hold You” (Undercover, 1983)



Um tipo de tributo aos Beatles – lançado 20 anos depois de Lennon e McCartney escreverem “I Wanna Be Your Man”, o segundo single dos Stones – “Wanna Hold You” conscientemente ecoa “I Want to Hold Your Hand”, tanto no título quanto na batida.



Richards e Jagger gravaram a primeira demo da música no fim de 1982, em um estúdio em um porão de Paris, com Jagger na bateria. Depois, ela foi finalizada na Hit Factory, em Nova York, no ano seguinte. “Eu poderia tê-la reescrito, mas decidi deixá-la como uma música pop bobinha”, disse Richards. “Ela exprime um desejo muito universal, especialmente quando você está muito assustado, sozinho ou com frio.”


8 – “Thief in the Night” (Bridges to Babylon, 1997)



“Tirei o título da Bíblia, que eu lia frequentemente”, relembra Richards. “[Tem] algumas frases muito boas lá”. Em meio a um lento e abafado riff composto pelo técnico de guitarra Pierre de Beauport, Richards canta uma letra inspirada na própria vida romântica. “É uma música sobre diversas mulheres e, na verdade, começa quando eu era adolescente”, escreveu ele.



Quando Jagger teve dificuldade para captar a pegada certa, Richards assumiu os vocais, acumulando três faixas cantadas somente por ele em Bridges to Babylon. Aquilo já era demais para Jagger, o que resultou em um impasse. Então, o produtor Don Was mixou “Thief in the Night” em outra faixa, mantendo a cota de Richards, tecnicamente, em duas canções.


7 – “Take It So Hard" (Talk Is Cheap, 1988)



Depois de Jagger decidir sair em carreira solo na metade dos anos 1980, Richards fez o mesmo, promovendo jams com o baterista Steve Jordan, que apareceu no álbum de 1986 dos Stones Dirty Work. “Ele ouviu algo na minha voz e achou que poderia fazer discos”, lembra Richards. Eles recrutaram uma banda, chamada X-Pensive Winos, que incluía o tecladista Ivan Neville e o guitarrista Waddy Wachtel, e foram ao Canadá gravar Talk Is Cheap.



“Era tão excitante que você nem conseguiria acreditar”, disse Richards. “Trouxe-me de volta à vida. Senti como se tivesse acabado de sair da cadeia.” Uma das primeiras faixas que eles fizeram foi esta, que tornou-se o primeiro single do álbum – uma conversa para levantar o ânimo com groove pesado e o rugido da Telecaster de Richards.


6 – “Thru and Thru” (Voodoo Lounge, 1994)



A faixa que encerra Voodoo Lounge era um blues influenciado por Jimmy Reed que Richards fez em 1993, quando estava trabalhando em novas músicas com Jagger e Watts em Barbados. Richards e o técnico de guitarra dele de longa data, Pierre de Beauport, foram ao estúdio depois de sair "para a noite" e rapidamente montaram a faixa. “Sempre pensei em músicas como dádivas”, diz Richards. “Elas simplesmente vêm.”



A proeminente bateria de Watts foi gravada no fim de uma escadaria. A música ganhou vida nova quando apareceu em Família Soprano quase dez anos depois de lançada. Richards recorda: “De repente todo mundo estava dizendo: ‘Que música maravilhosa é essa?’ E eu respondia: ‘Bem, é uma última faixa de Voodoo Lounge’.”


5 – “Slipping Away” (Steel Wheels, 1989)



Richards emocionadamente evoca a própria mortalidade na sombria faixa de encerramento de Steel Wheels. Gravada em 1989, com as guitarras de Richards e Wood soando sutis ao lado do piano de Chuck Leavell, esta foi uma maneira comovente de encerrar um álbum que marcou um momento de paz na tempestuosa relação entre Richards e Jagger.



A banda retornou à canção em Stripped (1995), dando a ela um tratamento acústico. “Gosto de baladas”, disse ele à Rolling Stone EUA em 2002, quando perguntado sobre músicas como “Slipping Away”. “Você consegue uma canção de rock melhor ao escrevê-la primeiramente como lenta e aí vendo até onde pode chegar.”


4 – “Make No Mistake” (Talk Is Cheap, 1988)



Richards estava imerso no reggae e no soul de Memphis enquanto compunha Talk Is Cheap, a estreia solo dele, de 1988, e ele casou as duas coisas em “Make No Mistake”. O músico gravou a canção em Mmephis com o lendário produtor de Al Green, Willie Mitchell.



Sarah Dash adicionou backing vocals (“Que mulher, que foz”, disse Richards), e o guitarrista usou um acorde não convencional que deu à faixa um aspecto arrepiante. “Meu acorde favorito é o que ainda não encontrei”, ele diz. “Mas este é um daqueles momentos em que pensei que havia achado o acorde perdido.”


3 – “You Got the Silver” (Let It Bleed, 1969)



“[Esta] não foi a primeira faixa dos Stones em que cantei sozinho”, aponta Richards em sua autobiografia. “Mas ela foi uma das primeiras que compus inteiramente sozinho”. Uma das músicas inciais de Let It Bleed, este é um country blues áspero e simples. “You Got the Silver” é quase um sonífero no meio das faixas mais extravagantes do disco. Mas é um dos momentos mais reveladores de Richards. “Cantei sozinho simplesmente porque tínhamos que repartir a carga de trabalho”, disse ele.


2 – “Before They Make Me Run” (Some Girls1978)



“Aquela música… era choro do coração”, disse Richards da faixa roqueira de Some Girls. O andamento em “Before They Make Me Run” é cheio de energia, o riff é um clássico de Richards, e a letra é estritamente um apelo às autoridades canadenses para pegarem leve no então-recente caso de posse de drogas no qual ele estava envolvido.



“Booze and pills and powders... done my time in hell”, ele canta, dando a uma de suas corajosamente rústicas performances vocais um senso de urgência pessoal desguardada. “Eu estava no estúdio, sem sair, por cinco dias”, disse Richards sobre a gravação da música. “Todos nós estávamos com olheiras quando terminamos o trabalho.”


1 – “Happy” (Exile on Main Street, 1972)



Por volta do meio-dia em uma certa data, no porão de Nellcôte, a casa ao sul da França onde os Rolling Stones estavam gravando Exile on Main Street, Keith Richards, o saxofonista Bobby Keys e o produtor Jimmy Miller estavam esperando o resto da banda chegar quando Richards começou a fazer um riff no qual ele estava trabalhando naquela manhã.



Logo, Miller estava atrás da bateria e Keys no sax barítono, e a fita rolando. “É uma gravação ‘não Rolling Stones’”, disse Richards. “[Ainda que] ela tenha esta assinatura”. O resultado é uma dose de três minutos de blues firme e clássico, com momentos explosivos de soul. “Richards fez a letra – sobre procurar amor quando você está mal – enquanto gritava no microfone. “Aquilo simplesmente veio, foi saindo pela língua... ‘I've spent the fucking money and I have none left, and it's nighttime and I'm looking to have a good time, but I ain't got shit’”, explicou ele na autobiografia, Vida.



Richards credita a estrutura desta canção à descoberta dele, no fim dos anos 1960, a respeito da afinação em sol aberto, que é normalmente usada para guitarra slide. Para aperfeiçoar o som, ele também diminuiu as cordas da guitarra de seis para cinco, recentemente. “Você troca uma corda e de repente tem todo um novo universo embaixo dos seus dedos”, escreveu. “Eu estava começando a realmente definir meu estilo.”



A faixa base foi composta e gravada em cerca de quarto horas. Depois da tomada inicial, Richards tocou a parte do baixo ele mesmo, e a instrumentação e os backing vocals de Jagger foram gravados posteriormente. “Amo quando eles escorrem pelas pontas dos dedos”, disse Richards à RS EUA em 2002. “E eu estava bem feliz em relação a isso. O que é o motivo pelo qual ela acabou sendo chamada ‘Happy’.”


20 – “Connection” (Between the Buttons, 1967)



Assim eram os Rolling Stones em 1966: sombrios, nervosos, rudes, um tanto paranoicos, quase um passo à frente da lei. Jagger e Richards acalmaram os nervos em “Connection”, um dos mais ardentes duetos vocais da dupla. É uma das primeiras canções dos Stones a trazer vocais tão aparentes de Richards.



“Connection” sempre foi uma das favoritas dos apreciadores dos Stones – incluindo Richards, que a compôs. Esta é uma das poucas músicas da banda que ele escolheu para tocar na primeira turnê solo, em 1988, e uma versão quente dela ao vivo aparece na compilação de 2010 Vintage Vinos.


19 – “Hurricane” (single, 2005)



Richards escreveu este blues acústico em Paris, no aniversário de um ano dos ataques de 11 de setembro. “Tentei traduzir aquilo em música folk”, disse ele. “Basicamente como um desastre, nada político.”



Ele lançou a música na sequência do furacão Katrina. Fãs que doaram dinheiro à American Red Cross (Cruz Vermelha norte-americana) na turnê de 2005 dos Stones ganharam cópias em CD da canção, com a letra rascunhada por Richards. “É a melhor faixa curta que já compus”, disse ele. “Porque não há nada mais a se dizer.”


18 – “Little T&A” (Tattoo You, 1981)



“Esta música é sobre todos os bons momentos que passei com alguém que encontrei por uma noite ou duas e nunca mais vi novamente”, disse Richards em 1981. Ele distribui versos no estilo rápido de Chuck Berry, desdenhando de tudo e de todos.



O título da faixa ganhou mais significado anos depois, quando as filhas de Richards nasceram: “O nome dela é Theodora. E um ano depois tem outra, Alexandra. Little T&A [pequenas T&A]. E elas não eram sequer uma réstia em meus olhos quando eu compus aquela música.”


17 – “This Place Is Empty” (A Bigger Bang, 2005)



“This Place Is Empty” é uma ode emocionante à esposa dele, Patti Hansen. Richards compôs a música uma noite sentado sozinho na casa deles em Weston, Connecticut (EUA), enquanto ela estava fora. Ele tocou piano na canção – que revela o amor dele a clássicos do cancioneiro pop, como Hoagy Carmichael e Cole Porter –, enquanto Jagger acrescentou sorridentes arranjos de guitarra slide.



“You and me, we're like all the rest/ And we don't want to be alone”. Perguntado sobre aquela letra, uma década depois, ele comentou: “O que mais gosto é de fazer você dar risada em um verso e chorar no seguinte.”


16 – “All About You” (Emotional Rescue, 1980)



A relação de Richards e Jagger estava no ponto mais exaltado quando Keith gravou uma das melhores baladas dele, comoventemente desenhada em torno do efeito de guitarra famoso por ter sido usado em “Shattered”. Enquanto alguns a encararam como uma doce despedida a Anita Pallenberg, Richards depois revelou que a faixa é sobre Mick Jagger.



“Percebi que Mick gostou bastante de uma faceta da minha conduta junkie – a que me impede de interferir nos negócios do dia-a-dia”. A letra faz alusão às diferenças pessoais deles, mas a canção chega ao fim com uma confissão: “So how come I'm still in love with you? (“Então como posso ainda estar apaixonado por você?”). Jagger mixou todo o álbum Emotional Rescue, com exceção desta faixa.


13 – “I Could Have Stood You Up” (Talk Is Cheap, 1988)



Richards fez o que ele chamou de “um pequeno passeio pelo beco do rock and roll” neste amável tributo ao rockabilly e ao doo-wop estilo anos 1950. Mas a nostalgia da faixa de Talk Is Cheap não se restringe à sonoridade. Ex-guitarrista dos Stones e frequente colaborador de Richards, Mick Taylor tocou na canção, e Johnnie Johnson, que apareceu em gravações clássicas de Chuck Berry, também deu as caras, com a linha de piano boogie-woogie.



“Ele é um dos mestres ocultos da música norte-americana para mim”, disse Richards sobre Johnson à época. Quanto à reunião com Taylor? “Mick Taylor é basicamente um guitarrista brilhante”, disse Richards. “É isso que ele é. E continua sendo.”


12 – “Locked Away” (Talk Is Cheap, 1988)



Esta balada revela Richards em algum lugar extremamente severo quando ele a compôs: “Se houvesse um conceito [para Talk Is Cheap], era manter isso musical”. Na época, Richards estava ouvindo “música urbana” de Soweto, África do Sul, o que o inspirou a convidar o acordeonista Stanley "Buckwheat" Dural e o violinista Michael Doucet, que complementaram sua performance negligenciada na guitarra e vocais saudosos.



“Eu sabia que ‘Locked Away’ precisava de um pouco mais de cor”, disse Richards. “Estava ouvindo o álbum mais recente de Buckwheat e a música da África do Sul era essencial, e aquilo de repente deu certo.”


11 – “Coming Down Again” (Goats Head Soup, 1973)



Richards raramente compôs músicas autobiográficas. Mas um dos primeiros momentos de revelação dele na carreira é esta triste balada de Goats Head Soup, com a chorosa guitarra em wah-wah e o refrão que faz referência às drogas: “All my time's been spent coming down again”.



Em Vida, Richards escreveu: “Eu não teria composto aquilo sem heroína. Não sei se ela se tratava de estar dopado. Era só uma canção lamentosa – e você procura aquele tipo de melancolia em vocês mesmo.”


14 – “How I Wish” (Talk Is Cheap, 1988)



Uma das mais otimistas declarações de desespero de Richards, “How I Wish” se desenvolve enganosamente como uma canção de rock despretensiosa dos Stones. Angustiadamente, ele canta: “How I wish that you were here again” (“Como eu gostaria que você estivesse aqui novamente”).



De acordo com o guitarrista Waddy Wachtel, que tocou em “How I Wish”, a maneira de tocar quase no tempo do guitarrista é o que faz a canção funcionar: “Aquelas batidas na guitarra, aquele estilo sincopado, ninguém consegue tocar aquelas partes como Keith”, disse ele certa vez.