Ascensão dos Beatmakers?

Entenda como é o cenário e a profissão daqueles que criam os beats que amamos: protagonismo, representatividade e investimento

Nicolle Cabral | @NicolleCabral Publicado em 24/08/2020, às 07h00

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Papatinho (Foto: Divulgação / Lucas Sá)

Para quem quer encontrar sets ou um catálogo imenso de beats, o endereço na internet é certo: SoundCloud. Vitrine de DJs, rappers e beatmakers, a plataforma online impulsiona a cena underground com a hospedagem de áudios que podem ser promovidos, distribuídos e vendidos pelos artistas. O SoundCloud, inclusive, já foi berço de vários músicos que furaram a bolha e alcançaram o mainstream como Post Malone (“White Iverson”), Travis Scott ("Antidote") e Blackbear, o primeiro rapper a monetizar conteúdo dentro do recurso online. 

No Brasil, contudo, ainda que a plataforma abrigue uma variedade incontável de produções, para os beatmakers, o cenário desse mercado é mais turvo. Além de sofrerem com negociações informais, muitos desses artistas são apagados da discussão sobre direito autoral das músicas. “Faltam os artistas entenderem que precisam compartilhar os ganhos e os direitos autorais das músicas com os produtores [e beatmakers] e pararem de achar que fazer esse pagamento significa que o produtor está querendo ganhar em cima do artista”, explica Jonas de Lima, que atendia por Côro MC, responsável pelas batidas energéticas do disco Veterano, estreia solo de Nego Gallo em entrevista a Rolling Stone Brasil. “Consciência faz falta”.

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"Se você faz o beat, você é o autor, óbvio" — Papatinho 

 

Tiago da Cal Alves (Papatinho) - Foto: Divulgação / I Hate Flash / Fernando Schlaepfer

 

Em um contexto palpitante dentro da indústria fonográfica nacional, a discussão sobre "quem é dono da música" e o retorno financeiro acabou sendo incendiada pela era dos “feats” (participações musicais) e isso também respingou nos responsáveis pelas bases que, muitas vezes, são o ponto de partida na criação uma composição. "O direito autoral do beatmaker brasileiro é contestado de uma forma que não dá nem para entender. Lá fora [no exterior], se você faz o beat, você é o autor do som, óbvio. Aqui, às vezes, a galera não consegue entender que um beat é autoral", pontua Papatinho, um dos principais produtores e beatmakers nacionais.

Para firmar o próprio nome, Papatinho se inspirou em tags — uma assinatura durante a música que indica quem produziu a batida —, prática comum entre os produtores norte-americanos de hip-hop e que já é bastante popular no Brasil. 

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Segundo ele, essa marca musical ajuda a fomentar a identidade do beatmaker e/ou produtor e faz com que a indústria preste mais atenção. "No início, era meio contra por achar que não precisava e que isso sujava a música. Pensava: 'ah, para que falar o meu nome?'. Mas aí percebi o quanto isso ajuda a dar destaque e a valorizar o trabalho de quem está fazendo". 

Fundador da ConeCrewDiretoria, fenômeno do início dos anos 2000, Papatinho foi um dos nomes que conseguiu ultrapassar as barreiras nacionais e se consagrar como um dos produtores mais requisitados do mercado. O trabalho com os amigos de infância, que rendeu os sucessos "Chama os Muleke" e "Rainha da Pista", chamou a atenção de grandes nomes do rap como Marcelo D2, Gabriel O Pensador, Black Alien — com quem conquistou o título de Disco do Ano com Abaixo de Zero: Hello Hell pelo Prêmio Multishow de Música Brasileira em 2019. 

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No início da carreira conta que por ter sido o único produtor e beatmaker da ConeCrew precisou "se virar" para produzir vários estilos. O resultado foi uma criação fluída e muito versátil que rendeu parcerias com as divas do pop nacional atual, entre elas Anitta, Ludmilla e Luísa Sonza, enquanto internacionalmente, o artista assina produções de Snoop Dog e will.i.am

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Ao lado de Papatinho, outros nomes brilham no mainstream com o posto de beatmaker, como o Nave Beatz, responsável pelas batidas de Criolo, Flora Matos, Karol Conká, Marcelo D2, Rael e Rashid e Coyote Beatz, que movimenta a cena belo-horizontina e é a alma gêmea de Djonga quando o assunto é música. “Me motivei em tentar entrar no mainstream, mas sem perder a minha essência”, explica Coyote.

Coyote Beatz e Djonga (Foto: Divulgação)

 

Ascensão para quem? 

Os nomes acompanhados por milhões de streams nas plataformas digitais, contudo, ainda não existe para todos. No cenário, a falta de diversidade, não só de gênero, como também regional persiste. Durante o mês de julho, a Rolling Stone Brasil preparou uma série de entrevistas com 20 beatmakers que buscam por representatividade dentro da indústria do entretenimento para discutirem sobre os processos criativos e contrariarem a falsa impressão de que "não tem mulher beatmaker".

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Apuke (Foto: Divulgação) 

"Os homens que furaram a bolha e isso já fala muito sobre a necessidade de espaço. Se a maioria dos homens produtores se desconstruíssem para conhecer o trabalho de produtoras, apostar nesse trabalho, apostar em um feat, isso poderia gerar muitas coisas [positivas]", pontua Apuke, produtora e beatmaker que participou do projeto Escuta As Minas, promovido pelo Spotify. "Sinto falta de credibilidade, de uma atenção e espaço igualitário".

Luana Flores, DJ, produtora e beatmaker à frente do projeto Nordeste Futurista focado na cultura pop nordestina ao rap e o RapEnte, fez considerações sobre as principais dificuldades do início da carreira e enfatizou a falta de uma rede de compartilhamento entre mulheres no Nordeste. "Na minha cidade, só os caras produziam. Tive que passar por um processo de só absorver o conteúdo e deixar as piadas machistas entrarem em um ouvido e sair pelo outro". 

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Luana Flores (Foto: Ana Moraes)

Segundo ela, o núcleo parece meio "inacessível" para uma mulher fazer parte, então foi difícil estar, primeiramente, inserida no ciclo, e depois ser reconhecida pelo trabalho como produtora. Apesar das ressalvas, Luana pontua uma perspectiva de mudança mais otimista dentro da indústria, mas reivindica o "olhar para fora do eixo Sul-Sudeste".

"Fica parecendo que as coisas só acontecem em São Paulo e a gente sabe que não é assim".  

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Em uma tentativa de diminuir essa discrepância, Coyote aproveita da relevância que conquistou dentro do mercado musical para levantar (ainda mais) artistas de Belo Horizonte. Atualmente, assumiu a produção da Fenda, grupo de hip-hop feminino formado por Laura Sette, Mayra Mota, Iza Sabino, Paige e DJ Kingdom. "A mesma quantidade de homem fazendo som, tem de mulher e elas são muito sinistras. É complicado focarem só em um eixo, porque quando aparece alguém que se destaca, falam: 'ah, mas antes não tinha, sendo que sempre teve'".

Com o selo Papatunes, Papatinho também afirma apostar em novos artistas. "Acompanho muito o que está acontecendo, e sempre me atualizo em relação a timbre, sonoridades, BPMs e tudo que a cena do momento pede". 

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E quando a conta chega? 

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Nave Beatz (Foto: Reprodução / Twitter) 

Ainda que com deficiências evidentes, quando o assunto é receber pelo trabalho feito, o conflito assola a profissão. Por trás de “Desabafo”, um dos grandes hits de Marcelo D2, Nave Beatz discorre sobre a necessidade do reconhecimento do beatmaker e produtor na indústria: “Tem que pensar no valor da música, ela fica para a eternidade. Nada impede ninguém, de, por exemplo, daqui a dez anos, querer fazer algo com 'Desabafo'. Se eu não estivesse nos créditos, na parte autoral, eu olharia e pensaria: ‘puts, fiz tudo aquilo para anos depois não participar dos lucros da música?’”.

Embora as plataformas tenham facilitado o acesso às produções e exista uma porcentagem de royalties direcionada aos artistas, Nave enfatiza que é necessário haver um entendimento do trabalho ali realizado. "Vejo a molecada com uma visão muito limitada do mercado. Às vezes, o cara produz uma faixa de graça para um artista que tem certa relevância, para, em contrapartida, receber os valores de streaming e não fazer questão do autoral ou da produção. Você senta ali dias inteiros para produzir uma música e não vai receber por aquilo?", questiona. "Todo mundo tem conta para pagar. Não dá para esperar a música ser lançada e render para aí só depois receber".

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Jonas de Lima (Coro MC) - Foto: Divulgação

"Tem rolado uma atenção maior da mídia que divulga essa cultura no nosso país, mas o que falta realmente é pagamento" — Jonas de Lima (Coro MC)

 

O mercado, contudo, pode ser promissor se o beatmaker e/ou produtor se profissionalizar e ficar esperto, segundo Jonas de Lima (Coro MC). "É preciso ser capaz de cadastrar as obras em alguma associação de compositores, cadastrar os fonogramas com informações necessárias para que os direitos autorais sejam recolhidos, gerar os ISCRs das produções antes de enviar para as pessoas lançarem do jeito que eles querem e você acabar ficando de fora do que criou".

 


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