Banda argentina é barrada nos EUA por não ser "culturalmente única"

Orquesta Kef, que mistura ritmos latinos e judaicos, não conseguiu visto; de brasileiros a indianos, artistas têm dificuldade em se apresentar nos EUA

Da redação Publicado em 13/12/2009, às 17h05

A banda argentina Orquesta Kef teve entrada vetada nos Estados Unidos, onde participaria do festival Fiesta Hanukkah. O Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos justificou: o grupo, que aposta na fusão do klezmer, gênero não-religioso da música judaica, com ritmos latino-americanos como o tango, não poderia ser enquadrado como "culturamente único", requisito para liberação de visto da categoria P-3 para artistas.

Jordan Peimer, um dos curadores do festival, realizado em Los Angeles, conversou com o The Wall Street Journal sobre o veto. "É difícil imaginar alguma banda mais apropriada que a Orquesta Kef. O evento foi desenvolvido para atrair a audiência judaica e a florescente comunidade hispânica da cidade."

Agentes do Serviço de Cidadania e Imigração pensaram bem diferente. "A evidência repetidamente sugere que o grupo execute um estilo híbrido de música (...) que não pode ser considerado culturalmente único a país, nação, sociedade, classe, etnicidade, religião, tribo ou outro grupo de pessoas em particular", lê-se no relatório que registrou a proibição.

Assista a um vídeo da Orquesta Kef:

Há dois fortes motivos para barrar um estrangeiro no país: o medo de terrorismo e, o que é mais comum no caso de artistas, temor que a pessoa tente imigrar para os Estados Unidos.

A matéria também cita a companhia de hip-hop brasileira Grupo de Rua. Capitaneado pelo coreógrafo Bruno Beltrão, o coletivo de Niterói (Rio de Janeiro) enviou, por meio de um patrocinador norte-americano, artigos de imprensa sobre performances em Tóquio, Berlim, Paris e Edimburgo. Eles queriam um P-1, visto para artistas de fora que queiram fazer shows nos EUA. O oficial de imigração identificado por "AA0089" requeriu "evidência que o grupo alcançou reconhecimento e consagração internacional".

Segundo uma porta-voz, a diretriz é a seguinte: "Ser internacionalmente aclamado não equivale a se apresentar em palcos internacionais". Recorreu-se a um advogado e, por fim, o Grupo de Rua pôde se apresentar em solo norte-americano. Não há registros de integrantes da companhia que tenham tentado permanecer no país.

O Wall Street Journal destacou outro caso na mesma linha: o do coletivo indiano Jaipur Kawa Brass Band, convidado pela produtora de L.A. Grand Performances para tocar nos EUA. Autoridades consulares norte-americanas aprovaram o visto de seis integrantes, mas dois deles não puderam entrar no país - inclusive o único entre eles com domínio na língua inglesa. Nenhuma explicação foi concedida.

"O Serviço de Cidade e Imigração dos EUA processam o pedido, mas o Estado [Departamento Consular] deve garantir o visto", declarou uma porta-voz do órgão. "Está fora da nossa área de jurisdição."