Em gravação inédita de 1982, B.B. King toca “The Thrill Is Gone” e faz cover de Willie Nelson

Lendário músico enlouquece a plateia em sua primeira participação na série Austin City Limits

Rolling Stone EUA/Redação Publicado em 30/05/2015, às 10h09

B.B. King em 1982, durante apresentação no programa Austin City Limits

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B.B. King fez duas aparições em Austin City Limits ao longo de sua carreira e, para celebrar o legado do lendário bluesman, após a morte dele, a longínqua série norte-americana buscou nos arquivos a primeira participação do Rei do Blues no programa, de 1982. Abaixo, assista aos dois excertos da apresentação, “The Thrill Is Gone” e “Night Life”.

Dez grupos e artistas que não existiriam sem B.B. King.

“B.B. King personificou a música do blues para o mundo inteiro, mas quando apareceu pela primeira vez no Austin City Limits, em 1982, era raro para artistas do blues comandar um programa de uma hora inteira em rede nacional”, disse o produtor executivo do ACL, Terry Lickona, em comunicado.

Ele acrescentou: “Havia energia no Studio 6 naquela noite como em nenhuma outra. Era puramente B.B. – apenas ele, Lucille e uma das melhores bandas que saíram em turnê com ele. Ele misturou blues pesados com baladas do Elvis, e teve a plateia na palma da mão, obedecendo a comando dele. Foi histórico.”

Abaixo, a performance de “The Thrill Is Gone”.

Ainda que gravado em 1982, o ACL de King não foi exibido até o ano seguinte, na oitava temporada da série. O repertório de 11 músicas do blueseiro contou com diversos hits, assim como covers presente no álbum de King Love Me Tender, de 1982, inspirado em Nashville – incluindo o clássico de Elvis, “Since I Met You Baby”, de Sonny James, e “Night Life”, de Willie Nelson.

De Eric Clapton a Buddy Guy, todos do estilo imitaram B.B. King.

“Ele tinha uma personalidade marcante, mas era um homem gentil, com uma boa alma e um grande coração”, acrescentou Lickona. “As performances dele no ACL estão entre as minhas favoritas, e eu nunca estive tão orgulhoso quanto quando ele, de repente, deu início à versão de “Night Life”, de Willie Nelson, no ACL. Perdemos um gigante.”

Assista à performance “Night Life”.

Trajetória de B.B. King

Ele nasceu Riley B. King em Itta Bena, no Mississippi, em 16 de setembro de 1925. Seu jovens pais se divorciaram quando ele tinha cinco anos de idade e sua mãe morreu quando ele tinha nove, deixando-o para ser criado pela avó materna.

King largou a escola no começo do colegial (mas estudou vigorosamente matemática e línguas até mais velho) e passou a viver colhendo algodão por um centavo a cada meio quilo e cantando músicas gospel em uma esquina do local.

Ele se casou aos 17 anos. “Acho que estava em busca de amor, porque eu nunca tive ninguém que eu acreditasse que realmente me amava”, disse ele à Rolling Stone EUA em 1998. Foi o primeiro de dois casamentos que deram errado. “Desde o começo da minha infância tive problemas em tentar me abrir. Por favor, abra-me. Olhe lá dentro! Porque eu não consigo. Não sei como fazer isso.”

Em 1948, King vivia em Memphis, trabalhando como um motorista de trator, quando ele fez um show no programa de rádio local de Sonny Boy Williamson. Aquilo o levou a um trabalho em uma casa de show popular da cidade, tocando por seis noites na semana, ganhando US$ 12 por noite.

Em Memphis, ele conheceu artistas como Louis Jordan e T-Bone Walker, com os quais ele ouviu o som de uma guitarra elétrica pela primeira vez na vida. “T-Bone tinha, para mim, aquela sonoridade de ser estar no paraíso”, disse ele.

King teve seu primeiro hit no topo das paradas em 1951, com “3 O’ Clock Blues”. Outras dezenas de hits alcançaram tal posição, incluindo “You Upset Me Baby”, de 1954, e “Sweet Sixteen”, de 1959.

Nos anos 1960, o sucesso das bandas britânicas influenciadas pelo blues ajudou a ampliar o apelo a King. Ele começou a tocar para plateias brancas de rock com gente como os Rolling Stones e Eric Clapton. Nessa época, a sonoridade dele começou a mudar.

Quando a Rolling Stone incluiu King entre os 100 Maiores Guitarristas, Billy Gibbons do ZZ Top disse: “Houve um momento de virada, mais ou menos na época de Live at the Regal [de 1965], quando seu som assumiu uma personalidade que hoje é intocável – este timbre arredondado, no qual o captador de cima e o de baixo estão fora de fase.”

Ele acrescentou: “E B.B. ainda toca com um amplificador Gibson que não é produzido há muito tempo. Seu som vem dessa combinação. É simplesmente B.B”. Algumas das melhores gravações de King são os discos ao vivo, incluindo Live in Japan e Live at Cook County Jail, que mostra sua entrega magistral e carisma de showman das antigas.

Já no fim dos anos 1960, King mudou-se para Nova York e começou a trabalhar com o empresário Sid Seidenberg, que o ajudou a reduzir seus hábitos de aposta e o colocou no estúdio com grandes produtores. Os hits que se seguiram incluem “Paid the Cost to Be the Boss” (1968), “Why I Sing the Blues” (1969) e “Thrill Is Gone” (gravada originalmente em 1951 por Roy Hawkins), que rendeu um Grammy a ele em 1970.

Na década de 1970, King também gravou discos com o amigo de longa data Bobby Bland: Together for the First Time...Live (1973) e Together Again...Live (1976), e a canção “To Know You Is to Love You”, de 1973, produzida por Stevie Wonder.

Em 1988, ele gravou “When Love Comes To Town” para o disco do U2 Rattle and Hum. Bono depois lembrou uma história das sessões de estúdio: “Quando estávamos trabalhando, estávamos mostrando a ele os acordes e ele disse: ‘Senhores, não faço acordes. Faço isso [referindo-se a seu estilo de solar]’. Há uma lição naquilo. Ele é, como Keith Richards descreve, um perito.”

Em 1991, o B.B. King’s Blues Club abriu em Memphis. Em pouco tempo, ele teria clubes por todo o país. Ele continuou tendo sucesso comercial até mais tarde em sua carreira. Em 2000, Riding With the King, álbum gravado com Eric Clapton, chegou ao topo das paradas norte-americanas de blues e vendeu mais de 2 milhões de cópias.

King era também um entretenedor fora do palco, frequentemente fazendo encontros, no quais ele conversava com os fãs e “crianças da guitarra”, como ele os chamava, por horas. Ele também era ávido leitor e entusiasta da internet que uma vez ensinou um jovem repórter como transferir vinil para mp3. “Deus, não sei como eu vivia sem isso!”, disse ele sobre o computador.

“Estou mais lento”, disse ele à RS EUA em 2013. “Conforme você fica mais mais velho, seus dedos às vezes incham. Mas eu faltei 18 dias em 65 anos. Alguns caras simplesmente escapam. Nunca fiz isso. Se tenho um show agendado, vou lá e toco.

Ele acrescentou: “As plateias me tratam pelo meu último nome. Quando subo ao palco as pessoas normalmente ficam de pé, sendo que eu nunca pedi isso a eles, mas eles fazem. Eles se levantam e não sabem o quanto eu gosto disso.”