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"Belchior tinha razão": Emicida lança emocionante clipe de AmarElo com Pabllo Vittar e Majur

"A ideia é que as pessoas se enxerguem maiores do que os seus problemas", diz Emicida sobre a música que dá nome ao novo disco do rapper

Pedro Antunes Publicado em 25/06/2019, às 12h00

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Pabllo Vittar, Majur e Emicida, no clipe de "AmarElo" (Foto: Divulgação)

"'Hoje Cedo' não era um hit", rima feroz, Emicida, "era um pedido de socorro". Ele cita a música, originalmente lançada com participação de Pitty, um dos seus maiores sucessos, lançado em 2013. Era uma canção sobre carregar o peso da fama nas costas, se ver em um lugar que não o seu, distante de quem se ama.

Falar da verdade de "Hoje Cedo" é um dos muitos pontos de "AmarElo", novo single do rapper, poderosíssimo e candidato a canção do ano, com as participações incríveis de Pabllo Vittar e Majur, e um sample tão improvável quanto adorável de Belchior.

A música ganhou um clipe emocionante registrado no Complexo Morro do Alemão, com direção de Sandiego Fernandes e roteiro do próprio Emicida. Assista abaixo:


"AmarElo", o single que também dá nome ao novo disco do rapper, é um outro momento, contudo. Ele vem construindo a ideia conceitual do disco desde "Eminência Parda", música lançada no dia 5 de maio.

“No primeiro passo desse processo, a nossa intenção era que as pessoas se sentissem grandes ao olharem no espelho", fala Emicida sobre a primeira música do novo trabalho. "Agora [com "AmarElo"], a ideia é que elas [as pessoas] observem ao redor e se enxerguem maiores do que os seus problemas, independente de quais sejam”, ele explica.

Aí entra Belchior, o Bel, poeta, um dos perfeito retratista da desolação e condição por vezes dessaborosa humana, com um verso de "Sujeito de Sorte". Emicida, sagaz, busca um dos mais icônicos versos do artista referendar sua mensagem.

"Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte /
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte /
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado /
E assim já não posso sofrer no ano passado /
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro /
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro", canta Belchior, no disco Alucinação, de 1976.

O rapper paulistano abre "AmarElo" com um sample de Belchior, mas também traz uma versão cantada por ele, Majur e Pabllo Vittar, dentro da canção. Majur e Pabllo também cantam um trecho de "Permita Que eu Fale", de autoria de Emicida, que traz a seguinte mensagem: "Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes".

“As duas trazem, em suas vivências e em suas obras, histórias bonitas a respeito de acreditar em si e de lutar contra o mundo para ser quem são”, explica Emicida sobre as participações em "AmarElo".

No videoclipe de "AmarElo", antes do início da música com o sample de Belchior, surge um áudio real recebido por Emicida de alguém próximo, que não viu saída que não o suicídio, mas sobreviveu e hoje está bem.

Emicida, com delicadeza, trata de tudo aquilo que nos puxa para baixo. Ao incluir o áudio, no vídeo, ele inicia uma jornada de fortalecimento, como cantada por Belchior, ainda em 1976, cantada por ele, o rapper, em 2019. "Belchior tinha razão", ele diz.

"Aê, maloqueiro, aê, maloqueira, levanta essa cabeça, enxuga essas lágrimas, respira fundo e volta a correr / Cê vai sair dessa prisão, vai correr atrás desse diploma", rima Emicida, já no fim da música. "Faz isso por nós".

O novo disco do Emicida será lançado pelo selo dele, Laboratório Fantasma, com distribuição da Sony Music. O rapper estará no Rock in Rio, como atração do Palco Sunset, com show ao lado do dup Ibeyi, no dia 3 de outubro

Leia a letra de "AmarElo", novo single de Emicida:

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro (2x)

Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro (2x)

Eu sonho mais alto que drones
Combustível do meu tipo? A fome
Pra arregaçar como um ciclone (entendeu?)
Pra que amanhã não seja só um ontem
Com um novo nome
O abutre ronda, ansioso pela queda (sem sorte)
Findo mágoa, mano, sou mais que essa merda (bem mais)
Corpo, mente, alma, um, tipo Ayurveda
Estilo água, eu corro no meio das pedra
Na trama, tudo os drama turvo, eu sou um dramaturgo
Conclama a se afastar da lama, enquanto inflama o mundo
Sem melodrama, busco grana, isso é hosana em curso
Capulanas, catanas, buscar nirvana é o recurso
É um mundo cão pra nóiz, perder não é opção, certo?
De onde o vento faz a curva, brota o papo reto
Num deixo quieto, num tem como deixar quieto
A meta é deixar sem chão, quem riu de nóiz sem teto

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro (2x)

Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro

Figurinha premiada, brilho no escuro, desde a quebrada avulso
De gorro, alto do morro e os camarada tudo
De peça no forro e os piores impulsos
Só eu e Deus sabe o que é não ter nada, ser expulso
Ponho linhas no mundo, mas já quis pôr no pulso
Sem o torro, nossa vida não vale a de um cachorro, triste
Hoje cedo não era um hit, era um pedido de socorro
Mano, rancor é igual tumor envenena raiz
Onde a platéia só deseja ser feliz (ser feliz)
Com uma presença aérea
Onde a última tendência é depressão com aparência de férias
Vovó diz, Odiar o diabo é mó boi, difícil é viver no inferno
E vem a tona
Que o mesmo império canalha, que não te leva a sério
Interfere pra te levar a lona
Revide

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro (2x)
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro

Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes, que nem devia tá aqui
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nóiz?
Alvos passeando por aí
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir a sobrevivência
É roubar o pouco de bom que vivi
Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem, é o pior dos crimes
É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóiz sumir

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