Bendita seja (ou o Método Von Teese de submissão feminina)

A artista performática Dita Von Teese conversou com a Rolling Stone Brasil durante sua rápida passagem pelo Brasil

Por Ricardo Franca Cruz Publicado em 29/10/2009, às 20h56

"Acho que terei um dia de folga em São Paulo, mas ainda não sei muito bem o que fazer com ele." Considerando que este dia é hoje, quinta-feira, 29 de outubro, e que a autora da frase em questão é a performer norte-americana Dita Von Teese, alguém se habilita a uma sugestão? Antes, saiba: ela queria mesmo era estar no Rio de Janeiro. Mais especificamente, no Museu Carmen Miranda. Fácil adivinhar por quê.

"Só consegui, até agora, conhecer um único aspecto cultural do Brasil: a comida", disse a pin up destes nossos dias, em uma sala climatizada de um hotel de luxo na região da Avenida Paulista na última segunda, 26, enquanto o sol cuspia fogo do lado de fora. Em corridos 10 minutos de entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, a mulher-ícone moderno da sensualidade dos velhos tempos mostrou-se serena, desacelerada, de cabelo e maquiagem impecáveis, pele muito branca, voz baixa e pausada e olhar atento. Dita trajava um vestido preto fechado até o pescoço, não sem uma abertura em forma de gota que valorizava seus siliconados dotes.

Dias mais tarde, na quarta, 28, à noite, em evento fechado para cerca de 300 convidados na boate The Week (ela veio ao Brasil para divulgar uma marca de licor, da qual é garota-propaganda) Dita fez uma espécie de teaser do que deve ser sua performance nos clubes especializados norte-americanos e europeus e nas festas de milionários em todo mundo. Foram pouco mais de oito minutos de apresentação que levaram a plateia ao que poderia ser o clima dos cabarés dos anos 30 e 40, décadas totalmente inspiradoras para Von Teese, chamada de "a nova rainha do burlesco".

Ela fez um número de striptease que consegue ser divertido e sexy ao mesmo tempo, sem ofender os pudores dos modernos paulistanos. Com trajes totalmente retrô, plumas e uma auxiliar de palco vestida de pierrot, cuja função era recolher as peças de roupa que a artista espalhava estrategicamente pelo palco, a apresentação-relâmpago culminou como um ícone de tatuagem do mestre Sailor Jerry: Dita banhando-se sensualmente em uma enorme taça com um líquido púrpura, com os mamilos cobertos e uma calcinha de strass.

Na segunda-feira, ela discorreu sobre a relação entre poder, submissão e feminilidade; falou sobre as também ícones, Carmen Miranda e Coco Chanel, e explicou porque seus maiores admiradores hoje são as mulheres. Um único porém: a assessoria de imprensa encarregada de marcar as entrevistas avisou que ela não falaria sobre o casamento (e o posterior divórcio) com o híbrido de cantor e freak de sideshow, Marilyn Manson - caso o tema fosse abordado a entrevista seria imediatamente encerrada. Resta, aos mais curiosos - e invejosos -, a dúvida das dúvidas: além de projeção e visibilidade em um determinado segmento que pode ser considerado pop e mundial, o que uma mulher aparentemente fina e delicada como Dita Von Teese viu naquele boneco de filme de horror ruim? Para os brasileiros, uma esperança (ou seria decepção?): ela é fã do nosso Paulo Coelho.

É verdade que você é uma grande fã do Paulo Coelho?

É verdade. Eu o conheci antes de ler os livros e gostei muito dele como pessoa. Na casa dele, havia mulheres incríveis e poderosas, todas em volta dele, então foi realmente incrível conhecê-lo. Obviamente, depois que comecei a ler os livros passei a admirá-lo ainda mais. Estes livros me fazem companhia durante minhas viagens, eu os levo para todos os cantos, é bom ter algo dele para ler. Os livros me fazem valorizar ainda mais todas as oportunidades que tenho de fazer o que eu amo fazer.

Carmen Miranda é uma inspiração para você?

Ela é uma enorme inspiração para mim. Não estou dizendo isso só porque estou aqui no Brasil, mas eu sempre digo como Betty Grable é minha atriz preferida dos anos 40 e como eu amo seus filmes, e Carmen Miranda era uma espécie de sidekick em vários de seus filmes, que são para mim o ápice dos musicais desta década. Na verdade, meu primeiro pensamento quando eu soube que viria ao Brasil foi: "Oh, meu Deus! Há um Museu Carmen Miranda no Brasil! Os vestidos dela estão lá, os sapatos dela estão lá, eu tenho de ir!". Mas, então, descobri que o museu fica no Rio e fiquei desapontada. Mas tenho grandes esperanças que, depois de meu show em São Paulo, alguém me convide para ir até o Rio me apresentar e eu possa conhecer o museu.

Você assistiu a cinebiografia de Coco Chanel (Coco Antes de Chanel)?

Sim.

Gostou?

Bastante.

Podemos dizer que Chanel representa a libertação feminina através de uma nova atitude, que tem tudo a ver com roupas mais confortáveis e masculinas, embora mantenham a feminilidade em grande estilo. E você representa justamente o contrário disso, trazendo de volta aquilo contra o que Chanel lutava.

Acredito que o que eu realmente trago de volta é a escolha, a opção para que algumas pessoas possam, de alguma maneira, "visitar aquele lugar". Corseletes e lingeries são algo que você pode usar e se livrar deles se quiser e quando quiser. Tem tudo a ver com ter a opção.

Você acredita que esta opção tem a ver com poder?

Sim, claro. Através da história, há momentos que forçaram a nós, mulheres, a sermos mais masculinas. O melhor disso é que hoje nós podemos aprender a como se entregar à nossa feminilidade e ao mesmo tempo nos sentirmos verdadeiramente poderosas. É assim que eu vejo a feminilidade: como uma forma de esconder o poder.

Obviamente, a submissão feminina pode ser uma forma de poder.

A submissão [em termos fetichistas] é o último tabu para o qual as pessoas têm medo de se entregar. Mas a ideia comum é a de que aquele que está se submetendo [em termos gerais] geralmente é quem está no controle. Tornar-se frágil e vulnerável envolve muita força - a ser aplicada e a ser ganha. É preciso ser forte para poder abaixar sua guarda e se mostrar vulnerável.

Você diz que a maior parte de seus admiradores são mulheres. Por quê?

Nem sempre foi assim. Eu tenho feito minhas performances e me propus a ser uma pin up desde 1991, e no começo a base de meus fãs era composta por homens e fetichistas. E agora mudou completamente para uma base de fãs mais feminina. Acho que parte da razão tem a ver com muitas das cartas que recebo dizendo: "Obrigado por ter mostrado um lado alternativo da beleza, por ter mostrado que tudo bem usar maquiagem, que tudo bem aceitar minha feminilidade". Nem todas nós, mulheres, incluindo a mim, podemos aspirar parecer com alguém como Gisele Bündchen. Eu nunca poderia parecer com ela, mas posso ser sexy da minha própria maneira. Acho que para grande parte das minhas fãs mulheres é isso que eu represento, uma permissão para serem diferentes, para que elas sejam que elas querem ser. Tudo bem ser sexy, tudo bem tentar coisas diferentes.