Benicio Del Toro fala sobre CHE

Por Bruna Veloso Publicado em 01/11/2008, às 15h45

Dividido em duas partes, longa dirigido por Steven Soderbergh narra a história de Che Guevara do ponto de vista do próprio revolucionário, vivido por Del Toro; Rodrigo Santoro, que dá vida a Raúl Castro, também participou de entrevista coletiva em São Paulo

Benicio Del Toro ouviu o nome de Che Guevara pela primeira vez na música "Indian Girl", dos Rolling Stones. Segundo o ator, as aulas de história em Porto Rico, país onde nasceu, apresentavam pouco "ou nada" sobre a Revolução Cubana (de 1959, promovida por Fidel Castro e Che Guevara e que derrubou o governo de Fulgêncio Batista). Depois de se deparar com um retrato de Che em uma livraria no México e ler uma compilação de cartas do guerrilheiro a seus familiares, o ator resolveu mergulhar na história do médico argentino tornado revolucionário, criando o embrião do que seriam os dois filmes dirigidos por Steven Soderbergh - e protagonizados pelo próprio Del Toro.

Em entrevista coletiva realizada nesta semana em São Paulo, o ator, a produtora Laura Bickford e o brasileiro Rodrigo Santoro, que interpreta Raúl Castro, irmão mais novo de Fidel, falaram sobre os dois longas, com cerca de quatro horas e meia no total.

Assista a trechos da entrevista, com Del Toro e Rodrigo Santoro:

Nos filmes, Soderbergh narra a história da revolução cubana e da tentativa de repetir o feito na Bolívia. Apesar de se passarem, na maior parte do tempo, em densas florestas (no primeiro, as locações foram Porto Rico e México, representando a Sierra Maestra cubana; no segundo, La Paz, na Bolívia), os longas contam histórias com fins opostos. CHE mostra o caminho do revolucionário à glória, à vitória em Cuba; não tão dinâmico quanto o primeiro, CHE - A Guerrilha apresenta (menos ágil e com cenas que parecem se repetir) uma batalha que já parecia perdida desde o início, e que levou à morte do revolucionário na Bolívia.

Após se interessar pela história de Che, Del Toro começou a pensar no projeto. "Anos depois [de ler o livro com as cartas], me encontrei com Laura. Ela havia comprado os direitos de uma biografia [Che Guevara - Uma Biografia, de Jon Lee Anderson]. Tentamos fazer um filme, lutamos por muito tempo, mas perdemos tudo. Aí nos encontramos em Traffic e Soderbergh nos animou. E desde então se passaram sete anos", explica. Soderbergh, Del Toro, Laura e o roteirista Peter Bickford foram premiados com o Oscar em 2000, por seus trabalhos em Traffic.

Interpretado pelo mexicano Demián Bichir, Fidel Castro é secundário. Tudo é narrado pelo ponto de vista de Che. Além de longas cenas de batalha, a obra mostra, em pinceladas, o lado que fazia do argentino um líder com potencial para ser amado pelas massas. O médico - figura quase que desconhecida pelos camponeses que viviam em péssimas condições, tanto em Cuba, como na Bolívia - atraía a atenção do povo. E sua disposição em ajudar o fazia ser recebido com empatia, mesmo dos que não estavam profundamente envolvidos com as questões políticas que moviam Che. Essa relação de cumplicidade dos camponeses é invertida na segunda parte da história - pelas câmeras trepidantes de Soderbergh, enxerga-se um povo acuado, e tão incutido pelo medo (à época, a Bolívia estava sob o comando militar do General René Barrientos) que não se dispôs a embarcar na revolução.

Che virou símbolo pop, e muitos dos jovens que vestem camisetas com seu rosto estampado não conhecem sua trajetória. Segundo Laura, a intenção era mostrar "o homem por trás da imagem". "Acho que é o que fizemos, um filme sobre um ser humano. Não há ser humano que seja 100% heróico ou 100% mau", acrescentou na entrevista.

CHE parte do encontro de Guevara com Fidel Castro. O jovem argentino já havia se envolvido em questões políticas na Guatemala, e decidiu aderir à revolução proposta por Fidel. Exilado no México (Fidel ficou preso durante dois anos, ao tentar, em 1953, um golpe contra o governo cubano), o então advogado resolve unir um grupo de amigos dispostos a derrubar Fulgêncio Batista. Guevara, que também havia fugido para o país, foi apresentado a Fidel por Raúl, vivido por Rodrigo Santoro.

O brasileiro conheceu Laura quando iniciava sua carreira internacional. "Foi o primeiro projeto com o qual realmente fiquei estimulado, apaixonado". Algum tempo depois, o ator soube que a produção iria sair do papel. Entrou em contato com a produtora novamente, que arrumou um encontro com Soderbergh. "Ele me disse 'os personagens já estão todos elencados. Infelizmente é um pouco tarde'. Aí a Laura chegou com uma fotografia do Raúl, com 20 anos de idade, e por acaso, realmente, naquela foto, tinha uma coisa, um olho meio puxado. Ela mostrou pro Steven e disse, 'Olha só, não parece'?". Insistindo em fazer parte do projeto, Rodrigo ganhou o papel.

Del Toro dá vida a Che como se tivesse o conhecido. A semelhança física do ator com o homem empresta ainda mais veracidade aos filmes, que, juntos, são mais do que uma obra cinematográfica: o projeto idealizado por Del Toro, Sorderbergh e Laura acaba se mostrando quase que como um registro histórico.

Os dois filmes marcaram o encerramento da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A previsão é de que estréiem separadamente - o primeiro deles deve chegar às telas brasileiras em fevereiro de 2009.