Black Keys deve voltar ao Brasil em breve: “Está nos planos”

Novo disco da banda, o sombrio e psicodélico Turn Blue, chegou ao país recentemente

Pedro Antunes Publicado em 07/09/2014, às 12h06

Black Keys, formado por Pat Carney (à dir) e Dan Auerbach, lançou o disco Turn Blue em 2014.

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Depois de um disco que soava como um amontoado de singles, El Camino (2011), o Black Keys voltou a criar sem amarras. O resultado disso é o excelente Turn Blue, disco que enfim chega ao Brasil através da gravadora Warner Music. Psicodélico e melancólico, o trabalho extravasa a dor sentida pelo vocalista Dan Auerbach ao longo de 45 minutos de riffs, efeitos e teclados. O grupo voltou a trabalhar com o produtor Danger Mouse, com quem eles ganharam fama mundial ao criar o álbum Brothers (2010) e deixaram de ser um duo de barbudos indies e nerds para se tornarem um duo de nerds mainstream – as barbas se foram no meio deste processo, enquanto os gramofones do Grammy parecem chegar aos montes.

Tristeza e inspiração: no auge do sucesso, o Black Keys encontrou uma nova maneira de chegar ao fundo do poço. Agora, a dupla espera retornar aos eixos com o disco.

A banda de esquisitões que unia garage rock e blues – e era mais lembrada pela semelhança de formação com o White Stripes, com guitarra e bateria – cresceu assustadoramente nos últimos anos. E isso se refletiu na vida pessoal dos próprios integrantes. Dan Auerbach (voz e guitarra) e Patrick Carney (bateria) viveram as mazelas do divórcio, encararam os respectivos relacionamentos chegando ao fim, mas seguiram em frente e transformaram tudo isso em Turn Blue.

A popularidade da dupla de Ohio, que se mudou para Nashville há alguns anos, cresceu tanto que a única passagem do grupo pelo Brasil, já em 2013, foi ocupando o posto de maior atração da segunda noite do festival Lollapalooza Brasil, tocando para um gigantesco público que se aglomerou no Jockey Club, em São Paulo. Com o novo disco debaixo do braço – e aliviado por colocar todas as emoções ruins para fora, Dan Auerbach conversou com exclusividade com a Rolling Stone Brasil sobre como se deu o processo de gravação do álbum e os planos para voltar ao Brasil.

Perfil: como os dois caras exageradamente normais do Black Keys se tornaram uma poderosa e pulsante máquina de rock and roll ao vivo.

É bem claro para mim que vocês se tornaram gigantescos de uma forma repentina e bastante assustadora. Quando vocês perceberam que isso aconteceu? Quando notaram que haviam se tornado mainstream?

Bom, eu acho que isso aconteceu quando ouvimos “Tighten Up” na rádio. Era do disco Brothers e, cara, foi a primeira vez que ouvimos uma música nossa tocando na rádio. Entende isso? Já era o nosso sexto disco. Isso foi insano.

Assista ao clipe de Fever:

Para quem acompanha a banda desde o início, foi surreal ver o Black Keys ocupando a vaga de headliner de um festival como o Lollpalooza Brasil, tão longe do território de vocês. Como foi o outro lado? Como foi a experiência do show para vocês?

Foi incrível. Sabe, a gente nunca imaginou que estaríamos tocando aí. É um lugar tão distante tão longe do nosso país. E para um público tão grande. Foi extremamente divertido. É um mundo tão diferente. Isso foi ótimo.”

E vocês têm planos de voltar ao Brasil com o novo álbum, Turn Blue

Absolutamente, sim. Está nos nossos planos. Não sei exatamente quando, mas já falamos sobre isso.

Crítica: Lollapalooza 2013: Black Keys faz show coerente, mas sem potência.

Turn Blue parece ser um disco invertido. Pense nisso: começa com uma faixa psicodélica de sete minutos de duração, “Weight of Love”, que normalmente é destinada para o fim, e termina com a “Gotta Get Away”, a mais pop do álbum. Como criaram esse conceito?

Bom, eu terminei de escrever as letras e as demos. E então eu estava tão cansado delas que não conseguia mais ouvi-las. Eu tinha colocado a minha alma nelas e isso me consumiu muito. Eram coisas pesadas, sobre o término do meu casamento. Dei as músicas para o Pat [Patrick Carney] e disse: ‘Cuide delas, que eu não consigo mais. Ligue quando conseguir alguma coisa. Eu estou cansado demais.’ O Pat então fez a sequência. E ‘Gotta Get Away’ era a última coisa porque estávamos incertos de que queríamos essa música no disco. Então ele colocou no final.

Ela estar no disco é quase como uma provocação, então?

Talvez. Definitivamente, ele ficou assustado com essa música porque ela era muito diferente do resto. É tão pop. Acho que ele conseguiu uma boa explicação de porque ela funciona bem no fim do disco: o álbum possui um tom tão sombrio que é bom terminar um pouco para cima. Então, quando ele explica desta forma, percebi que faz sentido.

Assista ao clipe de “Weight of Love”:

Weight of Love from Theo Wenner on Vimeo.

E como você se preparou para voltar à turnê, desta vez com músicas tão íntimas e que desgastaram tanto você?

Tocar as músicas é muito diferente do que cria-las, entende? Quando você está escrevendo e compondo, você está usando outra parte do seu cérebro diferente de quando você está se apresentando.

O disco anterior de vocês, El Camino, era bem cru musicalmente, com guitarra, baixo e bateria. Esse disco é o oposto disso. Como chegaram a isso?

Acho que quando fizemos o El Camino, tínhamos uma estrutura pela qual nos guiávamos. Queríamos ser bem simples e que as letras fossem mais animadas. Neste disco, era o oposto. Queríamos fazer apenas aquilo que sentíamos vontade. El Camino trazia nós dois seguindo uma ideia. Aqui, somos nós nos deixando levar, sendo pegos por o que aparecer naqueles dias.

“Weight of Love” abre o disco, com a psicodelia da arte da capa. Ela tem bastante camadas. É bem profunda. Como ela foi criada?

Bom, isso foi uma criação no estúdio. É difícil explica porque ela simplesmente aconteceu. As coisas vão acontecendo, acontecendo, e você nunca sabe para onde isso vai até que fique pronto. Mas começou com um violão, criamos as mudanças de refrães e fomos criando essas partes no nosso cérebro. Nós meio que colamos todas essas partes juntas depois.

Parte deste disco nasceu durante a turnê do El Camino, quase como uma válvula de escape?

Não. Nunca compomos em turnê. Eu não consigo. Preciso de privacidade. Preciso de silêncio e não consigo fazer isso enquanto estamos viajando.

Em Estúdio: os bastidores da gravação de Turn Blue.

Você tirou um tempo entre as gravações do disco em Michigan e Los Angeles. Como isso ajudou no resultado final do álbum?

As sessões de Michigan aconteceram logo depois da turnê. Então ainda estávamos nesse ‘modo de turnê’, sabe? Tudo era feito com aquela urgência, bem rápido. E tiramos uns dois meses de folga. Não tinha nada para fazer e fiquei no estúdio, criando. As faixas são mais relaxadas por causa disso, entende? Acho que o disco é um reflexo do seu tempo. A música representa bem o ponto em que a sua mente está.

Em 2012, vocês quebraram o recorde pessoal de vocês com 115 de shows em um ano. Era quase um show a cada dois ou três dias. Isso é quase insano.

Sim! É uma benção e uma maldição. Temos muita sorte de fazer isso para viver. Mas não é fácil. Ainda trabalhamos muito pesado nisso.

Patrick tem a fama de ser um sujeito difícil. Sempre criando polêmicas nas redes sociais. Como ele é enquanto companheiro de banda?

Olha, ele é um ‘cyberbully’. [risos]

Trailer de Turn Blue: