Blackpink: Sem esconder crueldade da indústria do k-pop, JiSoo, Jennie, Rosé e Lisa brilham na individualidade em documentário da Netflix [REVIEW]

Streaming lançou documentário sobre o girlgroup nesta quarta, 14

Clara Guimarães | @claracastrog Publicado em 18/10/2020, às 11h00

Blackpink no Coachella
Foto: Rich Fury/Getty Images for Coachella

Silêncio. Digitação. Quatro saltos altos andando por um palco. E, então, o anúncio -tanto para os jornalistas naquela sala de conferência em 2016, quanto para os espectadores desavisados que encontraram despretensiosamente o documentário na Netflix: "Hoje é a estreia do mais novo grupo feminino da YG em sete anos. Apresentamos o Blackpink!". 

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A primeira cena do documentário Blackpink: Light Up the Sky já demonstra o tom de toda a produção como uma peça educativa, que foca mais em apresentar o grupo feminino e o k-pop para os leigos, do que trazer informações novas para os Blinks - nome dos fãs do Blackpink.

E as narrações seguintes de notícias sobre recordes, prêmios e parcerias conquistadas pelo Blackpink, acompanhadas das imagens de JiSoo, Jennie, Rosé e Lisa cercadas por fãs onde quer que estejam, são suficientes para fazer qualquer leigo entender que Blackpink é um sucesso que merece ser conhecido - e este é o documentário que vai te educar sobre o grupo.

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Dos gritos ensurdecedores dos fãs, pegamos carona em um carro que percorre as ruas gélidas de Seul, Coreia do Sul, onde é possível acompanhar a conversa leve e amigável das quatro integrantes, enquanto o veículo segue em direção à parada principal do documentário.

No ambiente com quase nenhuma iluminação do estúdio de música, o produtor Teddy Park apresenta cada uma das integrantes em falas que poderiam ter sido ensaiadas de tão cirúrgicas.


"Rosé, uma menina coreana criada na Austrália. Às vezes ela fica aqui até tipo umas seis da manhã, só no estúdio".

"JiSoo, uma coreana raiz. Ela é a unnie do grupo, a mais velha. Ela tem aquela cara séria, profissional. Conheço Jisoo há seis anos. Eu a vi chorar uma vez. Ela é super inteligente. Muitos acham que é pela escolaridade, mas eu diria que é pela vivência".

 

"Lisa é da Tailândia. Ela tem esse ar calmo, de que vai ficar tudo bem, um sorriso. Mas em certos momentos, quando a música começa, na hora da pressão, ela tem esse instinto de enfrentar e executar".

"Jennie, nasceu na Coreia, mas se mudou para Nova Zelândia. Ela deixa tudo claro. Suas opiniões, suas emoções. Ela é perfeccionista".


Tanto a escolha de apresentar cada integrante até a decisão de separar as artistas para entrevistas solos, fazem parte do plano da diretora Caroline Suh de ressaltar a individualidade de JiSoo, Jennie, Rosé e Lisa. Em uma indústria cercada de regras, julgada pela padronização excessiva, as meninas do Blackpink brilham nas suas diferenças.

Desse momento em diante entramos em uma jornada no tempo do processo individual de cada uma até se tornarem as surperestrelas que são hoje, esbarrando no meio do caminho em histórias de amizade, de família e de dificuldades.

Obviamente, as quatro garotas brilham na produção da Netflix, mas, em certos momentos, a história do Blackpink serve apenas como um pretexto para apresentar todo o k-pop. Entre explicações sobre o estilo musical, o processo de treinamento dos artistas, as empresas de entretenimento e a língua, o foco transita constantemente entre o girlgroup e a indústria sul-coreana.

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No entanto, é no espaço criado pelo documentário para falar sobre a indústria do K-Pop, que o Blackpink se nega a esconder a crueldade do ambiente que o criou, colocando em pauta uma importante discussão. "Não era um clima muito feliz", avisa Rosé. "Não podemos beber, fumar ou fazer tatuagem", enumera Jennie, como se já tivesse escutado essas regras incontáveis vezes. "Você precisa estar no padrão deles em todos os aspectos [...] Eram 14 horas por dia só treinando". 

Em um dos seus melhores momentos, a produção expõe cruamente - mas de modo breve - a pressão, solidão e o medo que movimenta a economia das empresas de entretenimento sul-coreanas. "Eu me lembro de ter que mandar uma amiga para casa todo mês, porque elas foram eliminadas no teste mensal", lamenta Jennie.

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O documentário faz um bom trabalho em espelhar os sentimentos conflitantes das garotas na própria narrativa, com um lado agradecido pelo modelo que proporcionou um espaço de aprendizado capaz de formar um grupo globalmente famoso, e com outro que lamenta toda a infância e adolescência roubada por esse mesmo modelo.

No geral, Blackpink: Light Up the Sky peca ao não se aprofundar tanto nas experiências particulares do Blackpink, mas os depoimentos cativantes e o carisma de JiSooJennieRosé e Lisa são verdadeiros salvadores da produção.

*Crédito das fotos: Rich Fury/Equipe