Bon Jovi faz apresentação apoteótica no festival São Paulo Trip

Banda comandou show de duas horas e meia de hits, com plateia engajada e entregue

Paulo Cavalcanti Publicado em 24/09/2017, às 12h07 - Atualizado às 15h08

Bon Jovi no SP Trip

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Posteriormente à aclamada estreia do The Who no Brasil no primeiro dia do festival São Paulo Trip, o evento chegou a sua segunda etapa na noite de sábado, 23, trazendo o Bon Jovi como atração principal. A presença da banda norte-americana não é novidade, mas garantiu que um enorme público se deslocasse até o Allianz Parque. É até agora o único dia do festival com os ingressos esgotados. E a banda fez jus ao estádio lotado: foi uma atuação épica e devastadora de duas horas e meia, umas das melhores deles já ocorridas no Brasil, com a emoção jorrando dentro e fora do palco.

Antes da máquina de hits do Bon Jovi, tocou o The Kills, banda liderada pela cantora norte-americana Alison Mosshart e pelo guitarrista inglês Jamie Hince. O quarteto surgiu no palco às 19h45, 15 minutos antes do horário marcado, surpreendendo até mesmo a produção do evento, que não havia sido avisada. A música deles mistura rock alternativo com um pouco de post punk, stoner e rock gótico, com guitarras sujas e cortantes e uma pitada de percussão tribal. Sem dúvida, a banda não tem nada a ver estilisticamente com o Bon Jovi, fazendo um som mais pesado e menos comercial do que o headliner.

Aqueles que prestaram atenção à performance do The Kills tiveram a oportunidade de ouvir pouco mais de dez canções bem diversificadas, dentre elas “Heart of a Dog”, “Black Balloon” e “Sour Cherry”. Alison é estilosa, tem um bom domínio de palco e a dobradinha dela com o parceiro Hince é eficiente. O The Kills se mostrou uma boa surpresa e segurou a atenção na cerca de uma hora que esteve no palco.

O Bon Jovi já havia se apresentado na quinta-feira no estádio do Beira-Rio (Porto Alegre) e na sexta-feira, dentro da programação do Rock in Rio. Desde 2013, já não conta mais com o guitarrista Richie Sambora, que era tão importante na química do grupo quanto o cantor que dá nome à banda. Naquele ano, quando se apresentou no Brasil, a banda já veio sem Sambora e também sem o baterista Tico Torres, que havia passado por uma cirurgia de emergência antes de embarcar. Desta vez, Torres esteve presente.

Phil X, o guitarrista que substituiu Sambora, agora está bem mais à vontade. Assim, o Bon Jovi de 2017 se mostrou mais coeso em relação à perfomance de quatro anos atrás. O tecladista David Bryan e o baixista Hugh McDonald mostraram a discrição e a eficiência de sempre. John Shanks (guitarra) e Everett Bradley (percussão), músicos de apoio das turnês da banda, também acrescentaram muito ao molho sonoro.

O cantor e líder Jon Bon Jovi segue sedutor e encantador aos 55 anos. Ele está com os cabelos mais brancos, mas o carisma, charme e beleza são os mesmos de sempre. O músico ainda segura mais de duas horas de show sem dar sinal de cansaço. O frontman dança, pula, agita, sorri e não deixa a performance esfriar por um único segundo. E a voz ainda dá conta do recado.

Se no Rock in Rio rolou certa dispersão por parte do público, o show em São Paulo teve mais dedicação e envolvimento por parte do fãs, que estavam lá apenas para ver o Bon Jovi e não para fazer parte de um evento maior. O coral das mais de 40 mil pessoas presentes no Allianz Parque fez uma enorme diferença em relação à reação um pouco mais tépida ocorrida no Rio de Janeiro.

As apresentações do Bon Jovi no Brasil fazem parte da turnê do álbum This House Is Not for Sale, lançado no ano passado. Em São Paulo, os músicos apareceram às 21h20, abrindo justamente com a canção “This House Is Not for Sale”, que dá título disco novo. Como abertura do show, a canção funcionou, mas acabou encoberta pelos gritos dos fãs. Em seguida, engataram com a eficiente “Raise Your Hands” (do aclamado Slippery When Wet, de 1986). Depois, retornaram ao disco mais recente com o pop rock “Knockout”.

"Olá, São Paulo, é bom estar de volta! Vocês nos viram ontem à noite na televisão, tocando no Rock in Rio? Bom, hoje vai ser melhor! Hoje é sábado, então vamos todos aproveitar!". Assim disse Jon Bon Jovi, e a banda cumpriu as palavras do chefe. Todos os músicos estavam atentos e com gás de sobra; o show foi mais extenso e teve faixas que eles não executaram na capital carioca. A animação dos fãs explodiu com a quarta canção do show, “You Give Love a Bad Name”, hit de 1986, quando o Bon Jovi tinha o pé fincado no rock farofa. No geral, o set list da noite se mostrou equilibrado, com a penca de hits radiofônicos se sobressaindo a uma ou outra canção menos conhecida. Executaram destaques da década de 1980 ("Born to Be My Baby"); da década de 1990 (“I'll Sleep When I'm Dead”, "In These Arms") e também faixas dos anos 2000 (“Lost Highway”).

Vários foram os pontos memoráveis da apresentação. Na balada sensual e climática "Bed of Roses", Bon Jovi cumpriu o ritual de chamar uma fã para subir ao palco, dançar com ele e encenar um jogo de romance e sedução - suspiros e gritos apaixonados ecoaram no estádio inteiro. Em "Lay Your Hands on Me", ocorreu o que diz o título ("coloquem as mãos sobre mim"): o vocalista desceu no meio do público, sendo acariciado pela fãs - algumas sortudas até conseguiram tirar selfies com ele.

"Someday I’ll Be Saturday Night”, do álbum Cross Road (1994), ganhou uma bela versão semi-acústica. Nela, Jon, que se encarregou do violão, improvisou um monólogo, falando sobre a passagem anterior banda no país, em 2013: "Tico estava doente e Richie tinha nos deixado, mas isso tudo já foi. Hoje é sábado e as estrelas estão aqui brilhando para nós". Já o rock “It’s My Life” (de Crush, 2000) sempre ganha vida quando a multidão repete o refrão marcante da faixa. E a power ballad western “Wanted Dead or Alive”, de Slippery When Wet (1986), nunca decepciona, com os solos de Richie Sambora sendo reproduzidos fielmente por Phil X.

O final da apresentação fez o estádio entrar em clima de festa com as agitadas "Have a Nice Day" (2005, do disco homônimo), “Keep The Faith”, do álbum de mesmo nome lançado em 1992, e com o sensacional hino farofa “Bad Medicine”, de 1988 - "Tem algum médico na plateia?", exclamou Jon Bon Jovi antes de cantar. A banda ainda retornou com o bis, executando a muito esperada balada "Always" (que não tocaram no Rio) e, é claro, a marca registrada, a atmosférica “Livin' on a Prayer”, mega hit de Slippery When Wet. Nesta, o cantor nem precisou gastar a voz, já que o público executou o trabalho por ele, enquanto a luzes dos telefones celulares davam uma aura etérea ao local. Mas ainda não era o final. Jon Bon Jovi então falou um pouco da turnê mundial e reforçou que o Brasil sempre foi muito especial. Disse que no ano que vem pretendem voltar. E fecharam com chave de ouro com a balada "These Days", canção título do álbum lançado em 1995. Por volta das 23h50, o Bon Jovi se despediu, novamente com enorme aclamação por parte dos fãs brasileiros.

O São Paulo Trip segue no domingo com apresentações de Def Leppard e Aerosmith.