Amizade com diva transgênero e o nascimento de "Heroes": os anos de Bowie em Berlim

Roteiro turístico na cidade mostra relação entre Bowie e a Queda do Muro

Estefani Medeiros Publicado em 11/01/2016, às 18h23 - Atualizado em 12/01/2016, às 11h39

Bowie no Hansa Studios

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Na tarde desta segunda, 11, a porta do antigo prédio de David Bowie no bairro Schöneberg, em Berlim, amanheceu com mensagens carinhosas de fãs. Em sua página no Twitter, o ministro alemão de Relações Exteriores agradeceu a influência de Bowie na cidade durante a Guerra Fria. "Adeus, David Bowie. Agora você está entre os #Heroes. Obrigado por ter ajudado a fazer o Muro cair."

Parte da Trilogia Berlim, formada pelos álbuns Low e Heroes (ambos de 1977) e Lodger (1979), "Heroes" é o single que melhor traduz o espírito de divisão de Berlim entre as décadas de 1970 e 1980. No aniversário de 750 anos da cidade, em junho de 1987, Bowie fez uma apresentação em frente ao Reichstag, o Parlamento alemão, que cruzou a fronteira física. Com 14 anos na época, o engenheiro de áudio berlinense Thilo Schmied relembra à Rolling Stone Brasil o dia em que ouviu o ídolo pela primeira vez.

"A equipe virou as caixas de som para o nosso lado para que pudéssemos escutar (do outro lado do Muro). Não podíamos ver nada, apenas luzes. Brincávamos com os guardas das fronteiras. 'Nos deixem passar para o outro lado, nós voltaremos. É uma promessa", conta. "E então eles começaram a bater e prender os jovens. Todos estavam gritando: 'O Muro deve cair! O Muro deve cair!'. Foi a primeira vez que uma coisa como aquela acontecia nos anos 1980. Bowie com certeza não trouxe o Muro abaixo, mas foi um momento que fez as pessoas sentirem que poderiam mudar algo, que deveriam sair e se manifestar. Ainda consigo lembrar de como me senti nesse dia."

Como Ziggy Stardust caiu na Terra: em 1972, David Bowie tentava manter a sanidade enquanto tornava o rock seguro para deuses do glitter e das esquisitices espaciais.

No livro The Complete David Bowie, o músico conta a Nicholas Pegg que esta foi uma das "performances mais emocionantes" que já fez. "Descobrimos que eles tinham uma chance de ouvir, mas não fazíamos ideia de quantos eram. Eu estava aos prantos. Foi um tipo de show duplo em que o Muro era uma divisão. Conseguíamos ouvir os jovens cantando do outro lado. Deus, mesmo agora dá um nó na garganta. Partiu meu coração, nunca tinha feito aquilo em toda a minha vida."

Gravada dez anos antes do show no Reichstag, quando Bowie vivia uma de suas fases mais criativas na cidade, o clima era de decadência, repressão e isolamento. Uma cidade em ruínas no pós-Guerra. No período em que o músico morou na capital alemã, um garoto de 18 anos, Dietman Schwietzer, foi morto pela polícia enquanto tentava pular a Cortina de Ferro e meses depois, Henri Weise, 22, se afogou tentando cruzar o rio que o separava do outro lado.

"Nunca duvidamos nem por um instante de que Bowie pertence a Berlim. Nós percebemos rapidamente que a vivência dele na cidade dividida o inspirou fortemente", comenta Sarah Zimmermann, curadora da exposição exibida no museu Martin Gropius Bau em 2014.

Schmied, influenciado diretamente pela presença de Bowie em Berlim, conta que criou uma banda inspirado pela cena musical que viveu. Sem sucesso, passou a se dedicar a contar a história das músicas que ama em passeios organizados para turistas. Para os fãs mais apaixonados, o roteiro pode durar até três dias, passando pelo apartamento de Bowie na Hauptstraße ou pelo Brücke Museum. Inspirado por Bertold Brecht e pelo expressionismo alemão, foi no museu que o quadro "Roquairol" (1917), do artista Erich Heckel, virou inspiração para a capa de The Idiot (1977), de Iggy Pop (fotografada por Bowie), enquanto "Male Portrait" estampou a capa de Heroes.

Relembre a carreira de David Bowie em fotos marcantes.

Misturando a história de Berlim com a história de Bowie, Thilo traça um panorama do que era consumir cultura no lado comunista da capital. "Lembro de ouvir Bowie pela primeira vez. Era 'Ashes to Ashes' e eu era um adolescente, não entendia a letra, mas não importava. Lembro como aqueles sintetizadores soaram fortes. Nasci e cresci na Berlim Oriental, então não podíamos ver nossas bandas favoritas ou o que era considerada cultura Ocidental, como músicas de bandas britânicas e norte-americanas, ou ainda assistir a MTV e canais de música estrangeiros", explica. "Ainda assim existia um mercado negro com fitas K7 e vinis que nossos pais traziam ilegalmente."

Fase Berlim ainda incluiu amizade com diva transgênero e trilha em Christiane F.

Um dos primeiros pontos de parada do guia é a parte do Muro que dá vista para a Sala 2 do Hansa Studios, de onde é possível avistar a janela da qual Bowie tirou inspiração para o single. Em 1977, o camaleão contou à revista NME que desta mesma janela era possível ver as torres dos guardas e os arames farpados que dividiam os dois lados. "Todo dia ao meio-dia um homem e uma mulher se encontravam em frente ao muro durante uma pausa dos guardas para namorar". O casal protegido por Bowie por décadas era Antonia Maass e o produtor Tony Visconti (que se tornaria um grande colaborador do músico), e na época era casado com Mary Hopkin.

Segundo o guia do roteiro, Philipp, a ideia de Bowie ir à "cidade da heroína" para passar por uma desintoxicação das drogas era ridícula, uma vez que a pessoa mais famosa da época era Christiane F., protagonista adolescente do livro que simbolizava a liberdade junkie em que viviam os jovens da década. Lançado no Brasil como Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada, Prostituída, o filme foi o responsável por projetar "Heroes" ao grande público.

Na Bowie: Berlin Music Tours também é possível descobrir alguns dos clubes visitados por Bowie, entre eles o Chez Romy Haag, que hoje se transformou em uma casa de sexo. Fundado pela musa transgênero Romy Haag, era famoso por suas noites extravagantes inspiradas no Studio 54.

Em entrevista à revista alemã Exberliner, Romy conta que Bowie era apenas mais um esquisito na cidade, alguém com quem conversava sobre política e música. "A primeira vez que ele veio estava muito chocado, a cidade era tão Ziggy Stardust. Na minha visão, aos olhos dele, ele estava se olhando em um espelho. O clube refletia a música que ele fazia."

Há quem diga que os dois viveram um affair na época em que o músico assumiu à revista Playboy ser bissexual. No clipe de "Boys Keep Swinging", Bowie está vestido com as roupas e maquiagens de Romy. Caracterizado como três mulheres diferentes, imita um dos números mais famosos de Haag, em que ela tira a peruca e esfrega o batom para fora da boca.

A relação entre os dois foi interrompida no fim dos anos 1970, quando Angie, mulher de Bowie na época, descobriu o caso e chamou um advogado para persegui-la, alegando que ela seria um tipo ruim de publicidade para o músico."Nós não saímos muito juntos por causa dos paparazzi", conta. Os dois brigaram com a gravadora, mas acabaram se distanciando. "Tive que abrir mão dele", lamenta Romy. Para ela, a relação entre "Heroes" e Berlim está na sensação de que "você precisa agir agora", conta. "Se não nos beijarmos agora, o mundo continuará o mesmo."