Como compra de beats para músicas virais se tornou popular e perigosa?

Caleb Hearn comprou beats online para criar música em homenagem a amigo morto, mas perdeu direitos autorais sem conhecimento prévio

ELIAS LIGHT | ROLLING STONE EUA. Tradução: Gabriela Piva | @gabriela_piva (sob supervisão de Yolanda Reis) Publicado em 12/02/2021, às 12h00 - Atualizado em 13/02/2021, às 07h00

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Caleb Hearn perdeu direitos autorais de música após viralizar no TikTok. (Créditos: Reprodução/Instagram)

Caleb Hearn e Jason Messer costumavam ser inseparáveis. “Fazíamos tudo juntos,” disse Hearn, um cantor de 20 anos de King, Carolina do Norte. Mas, em 18 de fevereiro de 2017, quando Messer convidou o amigo para uma caminhada próxima ao parque Hanging Rock State, Hearn precisou desmarcar graças ao seu expediente em Chick-fil-A, rede de fast food. Enquanto passeava, Messer escorregou, caiu de uma altura de quase 12 metros, e morreu devido aos seus ferimentos.

“Foi tão traumático, não consegui processar o ocorrido,” alegou Hearn. “Fiquei entorpecido com a situação.” Artista achou difícil falar sobre o incidente. “Não sabia como lidar com aquele tipo de perda, então,engoli todas as minhas emoções por três anos,” contou Hearn em um vídeo do TikTok.

Mas, no final de novembro de 2020, o cantor encontrou um piano instrumental na internet e escreveu uma música mais parecida com um soco no estômago, chamada "Always Be." “Parecia como se eu finalmente pudesse, não superar [a morte], porque nunca superarei, mas expressar meus sentimentos,” explicou Hearn. Quando o artista lançou  "Always Be" no dia 4 de dezembro, estranhos enviavam mensagens ao tiktoker para compartilharem experiências com perdas. 

Integrantes da indústria da música também perceberam a resposta entusiasmada à faixa e foram atrás de Hearn. Um conjunto de mensagens veio de Justin Goldman, co-gerente da gravadora, agenciadora e distribuidora '94 Sounds. “Amei a nova faixa,” Goldman escreveu a Hearn no dia 8 de dezembro, segundo capturas de tela obtidas pela Rolling Stone  EUA. Executivo aconselhou cantor a viajar até Nova York, e depois prometeu ajudar "Always Be" a “explodir”. 

Mas o teor da conversa mudou quando Goldman soube sobre agente de Hearn - ele tinha contatado o cantor para realizar “questões de agenciamento.” A situação piorou quando Hearn descobriu do paradeiro de Goldman: o executivo comprara beats de "Always Be  sem o conhecimento do artista.

Goldman ofereceu um seguro a Hearn após compra. “Amaria trabalhar na música com você,” escreveu. “Não estou tentando fazer algo ruim ou destruir a canção na qual gostaria de ajudá-lo. Faço isso com beats e músicas o tempo inteiro.” Porém, Hearn ficou angustiado por perder controle de "Always Be."

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Depois de vários dias de negociações fracassadas, Hearn enviou uma mensagem a Goldman. “Penso em você quando escuto a canção,” escreveu o cantor. “Você tirou meus direitos de uma música cuja importância era enorme para mim e meu amigo.” Quase duas semanas depois da primeira conversa com Goldman, Hearn publicou um vídeo no TikTok: “Não direi nomes, mas um cara tirou vantagem de mim e de meu amigo,” alegou artista. Hearn anunciou lançamento de outra versão de "Always Be" e pediu para usuários do TikTok escutarem nova capitulação. 

O cantor postou um vídeo no aplicativo em uma tarde de segunda; na noite de terça, a filmagem tinha ultrapassado mais de 10 milhões de visualizações. 

O clipe falava sobre dinâmica confusa e ética complicada por trás da corrida para conseguir lucro de músicas virais. “Um artista explodindo no TikTok está em um lugar muito vulnerável,” disse Hearn à Rolling Stone EUA. Goldman tentou negociar com cantor, e explicou como Hearn ameaçou “expô-lo” no aplicativo caso não concordasse em vender "Always Be" de volta. Goldman virou alvo de ameaças de morte na internet, segundo executivo, como resultado do vídeo de Hearn.

Nos últimos dois anos, pelo menos três artistas diferentes tiveram momentos de epifania e, depois, descobriram o paradeiro da '94 Sound: gravadora comprava beats para ancorar outras músicas. “Compro ou distribuo um beat para poder trabalhar com um artista”, explicou Goldman. Apesar disso, as aquisições discutidas no artigo se tornaram acusações nas mídias sociais ou conflitos em tribunais. Encontros controversos como esses continuam sendo pouco comentados, mas muito comuns - aspecto moderno da indústria musical. 

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'94 Sounds não é a única gravadora da indústria musical apostando nas compras de beats, e algumas pessoas, inclusive, acham inteligente e necessária a abordagem de um negócio cada vez mais obcecado em identificar singles virais para transformá-los em gigantes comerciais. Contudo, preocupados com objetivos de manobras da aquisição, existe quem desaprova negociação por poder atingir artistas com pouco conhecimento de mercado e leis autorais.

Goldman entende como alguns agentes e artistas se surpreendem quando beats por trás de suas músicas são comprados. “Não é minha culpa se agentes inexperientes ou equipe de artistas acham injusta compra de beats,” acrescentou.

O executivo comparou debates da ética das aquisões com conversas sobre moralidade de outras práticas do mercado, como acordos de longo prazo com gravadoras. “Acredito na antieticidade quando você não tenta trabalhar com o artista e faz alguém de refém. Não agi assim,” continuou.

Companhias como a de Goldman podem usar manobras de compra porque muita música moderna é gravada por quem obtém beats online e nunca vão aos estúdios com colaboradores. Produtores - conhecidos ou não - criam instrumentais e os enviam para YouTube ou sites como BeartStars, uma câmara de compensação musical cujo repertório possui mais de 5 milhões de beats. (Foi comoLil Nas X criou seu hit "Old Town Road.")

"Um artista explodindo no TikTok
está em uma situação muito vulnerável"
-Caleb Hearn

Artistas amadores não costumam comprar direitos de beats quando criam uma música. Alguns usam instrumentais sem nenhuma autorização. Outros pagam uma taxa modesta para licenciar um ritmo por um período específico e até a música construída na faixa alcançar um certo número de streams ou downloads.

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Contratos de licenciamento são tipicamente não exclusivos, então, é possível para o produtor ganhar mais dinheiro ao conceder o mesmo instrumental para vários artistas simultaneamente. Abe Batshon, CEO da BeatStars, falou sobre variedade dos preços: entre R$ 107 (US$ 20, na terça, 2) e R$ 21,550 mil (US$ 4 mil, na terça, 2.) Após lançamento do original "Always Be" no dia 4 de dezembro, Hearn pagou R$ 109 (US$ 19,95, na, 2) no dia 7 de dezembro para licenciar o instrumental sem-exclusividade por 10 anos ou até 500 mil streams, de acordo com contrato de licenciamento obtido pela Rolling StoneEUA.

Segundo advogados, negociações são menos abrangentes quando comparadas aos rígidos contratos dos produtores preferidos pelas grandes gravadoras. Em grande parte dos casos, músicas estreadas pela BeatStars não se tornam comercialmente bem-sucedidas, então artistas e produtores não devem ter ciência das imperfeições contratuais.

"Não é minha culpa se agentes inexperientes
ou equipe de artistas acham injusta compra de beats"
-Justin Goldman

Porém, quando a música de um novo artista viraliza no TikTokou em outro serviço de streaming, a canção e o instrumental subjacente ganham um imenso valor. Gravadoras e empresários costumam rastrear singles com ímpeto comercial e apostar em contratos com vocalista responsável pela melodia. Outra maneira de adquirir trecho de single é usar o método de Goldman: encontrar um produtor musical e fazer acordo para comprar beats.

Nessas situações, os donos dos beats são contratados de repente por um novo parceiro de negociação. O parceiro em questão, além de possuir direito à renda das composições, tem vantagem sobre a própria faixa. É possível, por exemplo, cobrar uma taxa exorbitante para estender a licença ou revogá-la por completo - dependendo dos termos contratuais.

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Goldman não comprou beats “para segurar situações ou fazer artistas sentirem como se o executivo não quisesse trabalhar com eles,” alegou. “Meu primeiro instinto como empresário, gravador ou divulgador é sempre trabalhar com artistas,” continuou. Caso contrário,  pretendia “entrar em contato com produtor” e disponibilizar um contrato de divulgação ou de compra convencional. As intenções de Goldman apenas visavam “monetizar” compra.

O empresário foi criado na indústria da música. Seu avô, Elliot, alcançou presidência da BMG Music, e seu pai, Ben, foi executivo de A&R na Epic Records e Columbia Records por muito tempo. O Goldman mais jovem, cujo foco é voltado para músicas virais, estagiou no selo 300 Entertainment e atendeu ao programa Syracuse’s Bandier, no qual treinou estudantes para carreiras do mercado. Em 2018, aos 20 anos, fez uma parceria com Caroline, da Universal Music, pela gravadora JustGold, a qual opera junto à ‘94 Sounds.

Alguns dias depois de Hearn e Goldman trocarem mensagens pela primeira vez, em dezembro, o cantor soube do paradeiro de "Always Be" na ‘94 Sounds. Goldman confirmou a compra da batida ao responder uma pergunta de Hearn. “Faço isso com um monte de batidas e músicas das quais gosto,” escreveu. “Isso representa grande parte do meu negócio.”

Uma das partes do negócio do empresário, inclusive, trata da aquisição de “beats e músicas”; uma de suas táticas, de acordo com documentos do tribunal, é uma ação legal: após comprar os intrumentais para dois hits virais, ‘94 Sounds processou os rappers Lil Xxel e Jaah SLT por usarem ritmos sem licenciamento prévio.

Ambos artistas enfrentam uma briga judicial com ‘94 Sounds. O embate visa os direitos dos instrumentais, cujas formações são bases de seus singles mais populares. Segundo documentos do tribunal, empresário de Lil Xxel pagou para licenciar a batida a qual, posteriormente, virou a música LMK, enquanto Jaah SLT alugou instrumental subjacente à canção Tuff. ‘94 Sounds comprou ambos ritmos. Em dois casos separados, lançados e preenchidos em 2020, companhia acusou Lil Xxel e Jaah SLT de infringirem direitos autorais. 

Goldman foi inflexível quanto ao processo por acreditar como, após investir em um single, “não possui nenhum incentivo para música não ir bem.” Alegou “tentativas extensas” com rappers para chegarem a termos consensualmente aceitáveis sobre uso das batidas. Goldman considerou ter sido “forçado” a levar o caso para Justiça, porque “ambos músicos não querem fazer um contrato considerado justo por ambas partes.” Queixas contra Lil Xxel e Jaah SLT não mencionam quaisquer licenças anteriores realizadas entre artistas e produtores. 

Advogados de ambos rappers argumentaram em documentos judiciais e dizem que ‘94 Sounds não pode alegar violação de direitos autorais porque o uso da música pelos artistas foi previamente autorizado. Profissionais dos casos de Jaah SLT afirmam: “[A gravadora é um] Troll de direitos autorais [em busca] de gravações comercialmente bem-sucedidas [e compram beats] com único propósito de reivindicar violações infundadas.”

Goldman insiste em afirmações consideradas fortes. “Quando compro uma faixa exclusiva ou compro o beat de um produtor... As licenças de não-exclusividade [existentes previamente] tornam-se inválidas .” (Advogado dos rappers se recusou a comentar processo.)

Enquanto licenças baratas e fáceis para milhares de beats tornam plataformas como BeatStars populares, o baixo custo e a facilidade mostram lacunas e limitações as quais integrantes da indústria musical podem aproveitar. Batshon, CEO da BeatStars, descreveu cenários ilustrados neste artigo como sendo “muito raros,” mas acrescentou a assistência jurídica oferecida pela plataforma para impedir alguém “de tirar vantagem dos produtores.”

Goldman também argumentou a batalha em nome de produtores: enquanto “artistas são contratados por milhões de dólares por gravadoras, produtores nos quais me coloco no lugar quando compro beats ou distribuo músicas… Estão se ferrando.” Porém, quando ‘94 Sounds adquire todos os direitos de um beat, o produtor original não se beneficiaria de qualquer sucesso futuro da faixa.

Hearn alertou quem os interessados sobre prática de compra na indústria da música em vídeo no TikTok, o qual acumulou mais de 20 milhões de visualizações. O clipe “não é nem mesmo para expor” um indíviduo em particular, de acordo com o cantor - “é para proteger artistas.”

"[Artistas] precisam ter certeza que possuem
todas as licenças adequadas antes do lançamento
ou isso pode rapidamente se tornar em um pesadelo." 

-Executivo musical

Goldman não vê dessa forma: enviou uma mensagem a Hearn alegando "ser difamado” no vídeo.  “Você me extorquiu”, escreveu Goldman. (Hearn contou: “Fiquei um pouco mal-humorado em algum momento dessa situação toda.”) 

O advogado de Goldman também enviou uma carta na qual exigia ao cantor retirar o clipe do TikTok e colocar pedido de desculpa no lugar. “Suas ações causaram sérios danos à reputação profissional e pessoal do Sr. Goldman,” acrescentou.

O executivo recebeu ameaças de morte depois de lançar o vídeo. “Ter sido usado como jogade de marketing para promover essa música é realmente preocupante quando, na verdade, comprei a batida porque pensei sobre o potencial da música original,” explicou. Contudo, observou: “Isso não atrapalhará meu trabalho,” disse.

Embora Hearn tenha retirado a versão original de "Always Be" da sua conta, seu vídeo circula no TikTok. O raciocínio é simples para o cantor: “[Ninguém me disse] se [Goldman] teve uma atitude boa ou moral.”


+++ PAI EM DOBRO | ENTREVISTA | ROLLING STONE BRASIL