Capitu investigadora, Juca Pirama mago e mais: conheça A Todo Vapor, série que transforma literatura brasileira em steampunk [ENTREVISTA]

Todos os episódios do seriado estão disponíveis no Amazon Prime Video

Felipe Grutter | @felipegrutter Publicado em 26/10/2020, às 07h00 - Atualizado às 07h40

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Pôster de A Todo Vapor!, primeira série steampunk do Brasil (Foto: Fabio Grum)

Você já pensou sobre como seria se certos personagens clássicos da literatura brasileira, como por exemplo Capitu e Juca Pirama, vivessem em um universo, época e gênero completamente diferentes? Pois bem, Felipe Reis e Enéias Tavares fizeram justamente isso em A Todo Vapor!, série brasileira independente do gênero steampunk disponível no Amazon Prime Video.

A série, de oito episódios com duração de cerca de 20 minutos, acompanha a dupla de investigadores Capitu (Thais Barbeiro) e Juca Pirama (Felipe Reis), que são chamados para a cidade do interior Vila Antiga dos Astrônomos, marcada por uma onda de assassinatos misteriosos. Com a tecnologia de São Paulo, os dois detetives descobrem segredos e entram em conflito com os habitantes do lugar.

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Assim como os dois protagonistas, A Todo Vapor! conta com personagens icônicos da nossa literatura como Vitória Acauã (do conto Acauã), Doutor Benignus (do livro O Doutor Benignus) e Bento Alves e Sérgio (ambos do romance O Ateneu). Além de estrelar, Reis ainda produziu e dirigiu a série. Já Enéias Tavares ficou responsável pelo roteiro e também pela produção.

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, os criadores da série falaram sobre como foi a produção da obra, desafios e muito mais. Veja abaixo.


Como surgiu a ideia de fazer A Todo Vapor!

A produção da série se deu em etapas. Como contou Felipe Reis, tudo começou em meados de 2013, quando ele fez uma viagem para Nova Orleans, Luisiana, Estados Unidos. O motivo da ida à cidade foi por conta da paixão dele por blues - então ele fez a "volta do blues no Mississipi".

Quando estava em Nova Orleans, Reis se deparou com uma feira de artesanato. “[Lá] tinha um cara bem místico, quase um bruxo com uma cartola, vendendo os relógios que ele fazia”, disse. “E eu achei esse relógio (e mostrou na câmera da videochamada um relógio super diferenciado e estiloso) muito diferente, me apaixonei, amor à primeira vista, e comprei. Nem  imaginava que isso era um relógio steampunk”.

Três anos depois, em 2016, quando o artista morava no Rio de Janeiro e trabalhava em uma agência de publicidade, a semente de fazer a série foi plantada. Nessa época, um cara de Nova York foi fazer um trabalho na empresa e reparou no relógio steampunk do brasileiro: “Você tem um relógio steampunk bem legal hein”. 

Sem entender nada, Reis precisou procurar no Google o que raios é steampunk e se apaixonou pelo gênero logo de cara. Então, ele foi atrás de referências em filmes e séries, mas “para minha surpresa não encontrei muita coisa, encontrei filmes que tinham apenas elementos”.

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Com essa pulga atrás da orelha, o ator teve o desejo de criar uma "série brasileira 100% steampunk". Então, ele começou a ir atrás de gente para trabalhar junto, referências e também a conversar com pessoas que soubessem do assunto, para saber como as coisas funcionam ou não dentro dele. 

Felipe Reis, sem achar alguém para trabalhar com ele na série steampunk, Reis engavetou o projeto e só foi continua-lo em 2017, quando voltou a morar em São Paulo.

“Como eu estava em São Paulo, sabia que as coisas acontecem um pouco mais rápido, conhecia mais gente também e comecei a correr atrás disso. Aí nas pesquisas cheguei no Conselho Steampunk, canal da Débora Puppet”, relembrou. “Ela era de Campinas, mas manjava muito desse universo, então pedi indicação de alguém em São Paulo”.

Puppet indicou duas pessoas, e uma delas foi ninguém mais ninguém menos que Enéias Tavares. Reis simpatizou com o indicado logo de cara e pediu o telefone dele para apresentar a ideia. Na época da conversa, Tavares, que também é professor na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), havia escrito e lançado o livro A lição de anatomia do temível Dr. Louison.

Enéias Tavares e Felipe Reis (Foto: Arquivo pessoal/Felipe Reis)
Enéias Tavares e Felipe Reis (Foto: Arquivo pessoal/Felipe Reis)

 

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O escritor achou a ideia interessante e pediu para Felipe Reis mandar tudo o que ele tinha sobre a série. Então os dois começaram a trabalhar juntos e assim surgiu A Todo Vapor!.


Porque steampunk e as inspirações por trás do gênero

Uma das maiores inspirações da carreira de escritor de Enéias Tavares é o britânico Alan Moore. Por volta de 2013, ele releu A Liga Extraordinária e se indagou: “Por que  não temos algo similar no Brasil? Por que, no Brasil, nós não temos esse hábito de nos voltar aos nossos heróis e histórias, e recriá-los com verniz super-heróico, com uma pegada mais dinâmica, tecnológica e enérgica?”.

O escritor também tem o filme As Loucas Aventuras de James West e o game BioShock como referências para A Todo Vapor!.

Além disso, com os livros A lição de anatomia do temível Dr. Louison, Bento Alves & O Assalto ao Templo Positivista e Juca Pirama: Marcado Para Morrer, Tavares teve a experiência de trazer personagens clássico da literatura brasileira ao steampunk. Então tudo estava sendo apontado para dar certo.

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Para Felipe Reis a estética é o principal atrativo no steampunk. Já as inspirações dele se dão no mundo do audiovisual e HQs. “Eu achei a estética muito cinematográfica de cara”, constatou. “Referências que eu tive foram Penny Dredful, [Quentin] Tarantino é uma fonte que eu sempre mamo e, particularmente, tem os quadrinhos de Preacher, que tem uma série muito legal.

Enéias Tavares também teve bastante inspiração por conta dos entusiastas do gênero aqui no Brasil: “tem muita gente que adora recriar e brincar com steampunk”.


Principais desafios

Bom, Felipe Reis, Enéis Tavares e toda equipe tiveram um grande obstáculo logo de cara: dinheiro. A série foi feita de maneira totalmente independente, sem financiamento de uma grande produtora/estúdio ou patrocínio. Ou seja, logo de cara, eles tomaram “muito cuidado para não extrapolar ideias absurdas que a gente não fosse conseguir produzir”, como relatado por Reis.

Ensaio de cena de ação em A Todo Vapor! (Foto: Arquivo pessoal/Felipe Reis)

 

A ideia principal era fazer com que A Todo Vapor!se passasse em São Paulo, mas pelo fator financeiro, a produção precisou optar pela criação de uma cidade pequena do interior, chamada Vila Antiga dos Astrônomos: então não teriam seres e objetos robóticos. 

“Só daí nós já economizamos uns 2 milhões de reais, e a partir disso foi um quebra cabeça para pensar cenas que a gente pudesse produzir dentro do nosso orçamento”, relembrou Tavares.

Eles tiveram muitos problemas com locação e penaram para conseguir achar um lugar. Eles primeiro tentaram em Paranapiacaba, onde acontece a Steamcon, uma das maiores feiras de steampunk do Brasil, mas a cidade cobrava valores altíssimos para as gravações das diárias. Além disso, a produção achou um restaurante em Campinas, que tinha uma cidade antiga cenográfica, mas tiveram o mesmo obstáculo.

No final, a série foi gravada em 10 cidades: São Paulo, São Carlos, Guararema, Ribeirão Pires, São Bernardo, Itatiba, Atibaia, São Roque, Santos e Bertioga.

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Como em toda produção, A Todo Vapor!passou por alguns perrengues com agenda de atores, diretores, membros da produção, etc. “Tem que ter o transporte para essa galera, alimentação... e outra, todo mundo tem que estar com dia livre”, comentou Felipe Reis. “Então imagine que a locação foi dada para a gente de graça, aí diretor de fotografia pode, toda equipe pode, mas o ator principal da cena não pode. Então não pode ser”.


A Todo Vapor! vai muito além da série de TV

A Todo Vapor! faz parte de uma grande série de fantasia chamada Brasiliana Steampunk, a qual possui, livros, série de TV, história em quadrinhos (Correndo Atrás da Máquina), tarô, áudios dramáticos e até um card game (Cartas a Vapor). Você pode conferir isso no site oficial da franquia.

Com um universo tão rico e complexo, Felipe Reis e Enéias Tavares planejam publicar mais conteúdos e produtos transmídia, como um livro pela Darkside, prequelas de Juca Pirama e Capitu, entre muitos outros.


A segunda temporada de A Todo Vapor!

Até o momento em que essa matéria foi escrita, nenhuma notícia oficial sobre renovação ou não da segunda temporada de A Todo Vapor! foi divulgada. Mas Reis e Tavares têm as próprias expectativas em relação a isso.

Quando perguntei se teremos a esperança de ver uma continuação da série, Enéias respondeu: "Eu respondo essa pergunta convidando todos os leitores a ver nossa série, porque como [quase] toda obra audiovisual, [o seriado] tem uma cena pós-crédito que aponta para um misterioso personagem, o qual nós pretendemos trazer para segunda temporada como a nossa grande ameaça, nosso grande vilão".

Além disso, o escritor disse ter "vários planos para próxima temporada". Ele explicou "que de acordo com um edital que nós ganhamos", eles fizeram dois planos para o futuro. Um deles é uma "temporada com mais ousadia e personagens da literatura mundial".

Equipe de A Todo Vapor! reunida (Foto: Arquivo pessoal/Felipe Reis)

 

"E uma segunda opção com uma temporada um pouco mais 'doméstica', que vai se passar em São Paulo", continuou. "Aí sim a capital paulista, onde teremos Juca, Capitu e outros personagens investigando alguns enigmas que envolvem construções de Ramos de Azevedo, que é o grande arquiteto paulistano responsável por uma série de construções que nós amamos".

De acordo com Tavares, o segundo ano, se fosse em São Paulo, iria brincar um pouco mais com a arquitetura e história da metrópole.

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Felipe Reis foi mais sintético e falou sobre as referências que influenciarão a história e estética de A Todo Vapor!: "Essa São Paulo vai ser um mix de Alienista, da Netflix, com Carnival Row, do Amazon Prime Video. Vai ser para arrebentar".


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