Cidadãos do mundo, integrantes do Selton refletem sobre a morte em “Cemitério de Elefante”

Canção é o primeiro single de Loreto Paradiso, quarto álbum do grupo

Thiago Neves Publicado em 10/08/2015, às 13h20 - Atualizado às 14h05

Integrantes do grupo Selton.
Chiara Gambuto

Depois do sucesso de Saudade (2013), o grupo Selton resolveu insistir na fórmula para Loreto Paradiso, que chega às lojas em 2016. A banda de Porto Alegre, que hoje vive em Milão, além de manter a multiplicidade de idiomas das letras, trabalha novamente com o engenheiro de som Tommaso Colliva, responsável pelo celebrado registro de dois anos atrás.

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Gravado entre dezembro de 2014 e março de 2015, no Brasil, em Londres e em Milão, Loreto Paradiso sucede o disco que rendeu ao grupo o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria "rock", além do reconhecimento da crítica e do público.

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De passagem pelo território brasileiro, a banda, que se apresenta em Porto Alegre, São Carlos, São Paulo e Rio de Janeiro no fim de agosto, aproveita a oportunidade para lançar "Cemitério de Elefante", primeiro single do registro. Além disso, o grupo disponibilizou um jogo de 8-bits no site da banda, que premia com um download gratuito da música quem alcançar a marca de 300 pontos — o pacote ainda inclui capa e letra do single, e uma versão alternativa da faixa.

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Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, Ramiro Levy, vocalista da banda, falou sobre a nova canção e sobre as reflexões que a acompanham:

De onde surgiu o título de "Cemitério de Elefante"?

Dizem que quando os elefantes sentem a proximidade da morte instintivamente se afastam do seu grupo e começam uma caminhada solitária. Essa imagem nos veio em mente quando estávamos trabalhando na letra da música e, de alguma maneira, fechava tão bem com o tema que acabou virando o título. A letra fala sobre reflexão, reavaliação das escolhas de vida e expectativas que criamos. A imagem do elefante que caminha em direção à morte nos ajudou a passar esse sentimento, como se pudéssemos de repente subir em uma roda gigante imaginária e olhar a própria vida de fora, de um ponto de vista panorâmico. O clima reflexivo da música se manifesta bastante nas novas músicas e no sentido geral do nosso novo disco, que vai se chamar Loreto Paradiso.

A letra conta a história de alguém tomando certas decisões. De onde vem essa história?

A música fala de um sentimento que mais cedo ou mais tarde todos enfrentamos na medida em que crescemos. No final das contas estamos falando sobre colocar as próprias expectativas, medos e frustrações na balança e aceitar as escolhas que fazemos. Aceitar que algumas certezas que cultivamos desde pequenos talvez não se realizem. "Cadê Zessé, cadê Cecília? Vou ficar velho e não vou constituir família" é uma frase que sintetiza um pouco essa sensação.

O refrão dá ao registro um tom mais leve. Essa era a intenção desde o princípio? As outras canções do disco seguem essa linha?

O refrão da música é uma espécie de "zoom out" repentino, como se naquele momento o personagem se desse conta de que apesar de todas as reflexões e inseguranças, o medo é um sentimento que nos paralisa. Por mais "leve" que a frase possa parecer, no fundo ela é uma conclusão positiva sobre toda a questão. "A vida é longa, mas encurta a cada dia", por isso não temos tempo para nos deixar levar pelos nossos medos.

Musicalmente, acredito que "Cemitério de Elefante" seja uma música bem representativa da produção do Tommaso Colliva no disco. A ideia de contrastar o máximo possível o minimalismo das estrofes com o clima catártico do refrão foi sugestão dele, e acreditamos que isso tenha ajudado a música a dar seu recado. Como em Saudade, Loreto Paradiso é um disco produzido por Selton e Tommaso Colliva, e acreditamos que essa distância (nós vivemos em Milão e ele em Londres) nos dê possibilidades muito interessantes. Temos um processo criativo muito peculiar e, com o fato de ter um estúdio em casa, podemos trabalhar e experimentar bastante sozinhos. Uma vez que as ideias já estejam mais claras, mandamos tudo para o Tomi, ele faz a mágica e nos manda de volta, e assim por diante. No caso de Loreto Paradiso, tivemos a possibilidade de passar um período em Londres gravando parte do disco juntos em estúdio. Além de estarmos em estúdio ele, viver um pouco a cidade e respirar outros ares com certeza contribuiu para dar ainda mais frescor ao disco.

Ouça “Cemitério de Elefante”: