Cinema e música sensoriais

Elenco fala sobre Paraísos Artificiais, que, em meio a festivais de música eletrônica, retrata juventude regada a experimentações, sexo e drogas sintéticas

Stella Rodrigues Publicado em 04/05/2012, às 08h12 - Atualizado às 11h34

iParaísos Artificiais
Divulgação/Daniel Behr

O diretor de Estamira, Marcos Prado, resolveu investir os lucros que obteve como produtor dos dois capítulos de Tropa de Elite em um filme sobre jovens de classe média que usam drogas recreativamente (para o horror do Capitão/Coronel Nascimento) em festivais de artes, cultura alternativa e comunhão com a natureza – ou, como também são conhecidas, as raves. O resultado é Paraísos Artificiais, que chega aos cinemas nesta sexta, 4.

O protagonista dos Tropas provavelmente dispensaria essa gente como um bando de hippies e ia querer dar um jeito na bagunça. “Acredito que o Capitão Nascimento jovem, ou seja, o do Tropa 1, falaria que os personagens são um bando de vagabundos que sustentam o tráfico. Já em Tropa 2, mais maduro e vivido, diria que são vítimas do sistema”, se arrisca Lívia de Bueno (a loira da foto ao lado), que interpreta a intensa Lara. A intérprete da protagonista Érika, Nathalia Dill (também na foto, morena), complementa: “Talvez ele perdesse a parte sublime do filme, ficasse atrelado à essa questão e não percebesse a sensibilidade por trás. O legal é que o filme tem os dois lados, você vê uma vida que vai por água abaixo, mas tem as experiências e os amores que afloram”.

Esse não é um longa para os Nascimentos, definitivamente. A intenção de Prado com ele é acabar com a caretice que, na opinião do diretor, impera nas produções nacionais. O cineasta passou a pesquisar esse mundo da música eletrônica e do consumo de entorpecentes como o ecstasy e o LSD, sobre os quais pouco sabia, por conta da entrada do próprio filho na adolescência. A favor da descriminalização das drogas (assim como os três atores que conversaram com a Rolling Stone Brasil), Prado frisa seus esforços para fazer um filme que anda na corda bamba, sem em momento algum se desequilibrar para o moralista ou para o apologético. A ideia era mostrar uso de drogas e sexo livre sem as amarras cinematográficas que quase sempre estão atreladas aos assuntos. Destaque também para os belos cenários e para os aspectos técnicos, que se mostram impecáveis, denotando um investimento alto de recursos.

Para cumprir seus objetivos, Prado foi atrás de um elenco praticamente desconhecido, encontrado por meio de testes, para cercar a personagem de Nathalia, estrela da novela das 21h. Esta encarna uma DJ que viaja para onde quer que as festas exijam sua presença, de preferência ao lado da amiga/amante Lara. “Lara é uma potência”, define Lívia, que a interpreta. “E eu tinha que estar muito enérgica e com meu carisma no ápice para interpretá-la. Sabe gente que faz e acontece? Que não deixa para amanhã? Essa é a Lara.”

Durante essas viagens, regadas a experiências sensoriais e mergulhos em estados de consciência alterados, as duas conhecem Nando (Luca Bianchi), que se culpa pela morte do pai (Marcos Prado, que faz uma ponta). Misturando cenas urbanas, outras rodadas no interior do nordeste e ainda imagens feitas na Holanda, conhecemos ainda o universo dos jovens de classe média que acabam se prestando ao serviço de “mulas” de drogas da Europa para o Brasil. Com uma edição criativa, embora não inovadora, o filme dá conta de esconder o jogo até quase o final a respeito de como os personagens estão envolvidos uns com os outros mais do que imaginam. “Cada momento foi muito intenso. Enquanto filmava as partes da rave, não conseguia conectar com a parte de Amsterdã, pareciam três filmes diferentes”, recorda Nathalia.

“Acho que retratar os dois lados foi um dos grandes acertos do roteiro e da direção. Em algumas cenas você é transportado pela liberdade e sensações proporcionadas pelas drogas e, em outras, você percebe o aprisionamento e as consequências que elas podem causar. Marcos conseguiu mostrar os prós e os contras sem apontar o dedo para ninguém”, define Luca Bianchi. “Acredito que o filme tem personagens que mostram o perigo da falta do limite e do tráfico. Mas também retrata personagens que experimentam drogas e têm experiências incríveis; e um personagem muito interessante (Mark), que explica a droga filosoficamente. Acredito que o filme mostra que a liberdade implica em responsabilidades”, reflete Lívia.

A atriz tinha alguma intimidade com o gênero eletrônico e serviu de mentora para Luca, que conhecia pouco, mas gostava do estilo. Já Nathalia tinha uma certa resistência a ele. “Quando era mais nova ouvia muito rock. Nirvana, Beatles. Geralmente eu gosto de coisa com letra. Não tinha nenhum contato com esse mundo, não entendia, não curtia, achava horrível. Não via o que as pessoas achavam de tão interessante. Agora eu entendo um pouco as sensações que a música causa nas pessoas, a ligação dela com a natureza, é muito mais sensorial do que qualquer outro tipo de música.”

Assista abaixo ao trailer de Paraísos Artificiais.