Clássico de cabo a rabo

Em show sensorial, Primal Scream executou o álbum Screamadelica em São Paulo

Paulo Cavalcanti Publicado em 25/09/2011, às 04h13 - Atualizado às 18h49

Bobby Gillespie é desajeitado, porém elegante e cool no palco

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A pergunta é: se o Nirvana tivesse resistido e ainda estivesse por aí, será que estaria tocando o Nevermind na íntegra para comemorar os 20 anos do lançamento do álbum? E será que ao ver o disco ao vivo, fãs e críticos ainda achariam isso um fato relevante? O fato é que Screamadelica, lançado um dia antes de Nevermind, em 23 de setembro de 1991, soa mais contemporâneo do que nunca. Naturalmente, o disco foi celebrado à época de seu lançamento, mas seu status cresceu com o tempo, já que a junção de rock, música eletrônica, dance e dub parecia apontar para o futuro – a fusão destes elementos é das que mais se vê hoje em dia. Mesmo com este aspecto visionário, Screamadelica também apresenta um peculiar verniz retrô: as canções têm timbres, texturas e são recheadas de citações a várias gravações dos Rolling Stones no período 1968-72.

Com um timing impecável, a banda do cantor Bobby Gillespie veio ao Brasil para trazer o show histórico que já vem sendo apresentado há algum tempo na Europa. Na sexta-feira, 23, enquanto 100 mil pessoal se apertavam no Rock in Rio para ver astros pop, a banda britânica tocava no Circo Voador, colocando no liquidificador a banda de Mick Jagger, psicodelia e muito mais, soando muito mais rock do que tudo que era apresentado na Cidade do Rock. O mais interessante é que a data marcava precisamente 20 anos do lançamento de Screamadelica.

Neste sábado, 24, foi a vez dos fãs de São Paulo ficarem com os ouvidos zumbindo com a massa sonora do grupo. O Primal Scream entrou no palco do HSBC Brasil precisamente às 22h25 ao som de “Movin’ on Up” e, daí para frente, o excelente público presente diante da perfomance do grupo, no show que fez parte do Popload Gig, foi alvo de um verdadeiro bombardeio sensorial. Comandando tudo estava Gillespie, que como cantor é apenas razoável. Mas, sem dúvida, é um frontman interessante, que prende a atenção, dançando de forma meio desajeitada, por vezes chacoalhando maracas e um pandeiro. Ele ainda tem o mesmo rosto de 20 anos atrás e é supercool, mas nunca blasé. Uma backing vocal ancorava tudo e reforçava a voz de Gillespie, não deixando ninguém esquecer que em Screamadelica também tem gospel e soul music. E enquanto Gillespie e seus músicos agitavam, incluindo o folclórico baixista Mani, o telão no fundo do palco exibia projeções com vídeos criados pelo artista Jim Lambie, um complemento perfeito à atmosfera lisérgica do disco.

Todos os grandes clássicos presentes em Screamadelica foram apresentados, como "Slip Inside This House", "Don't Fight It, Feel It", “Damaged” e "Higher Than the Sun”. O show refletiu a diversidade do disco, com momentos movidos a ecstasy e anfetamina e outros mais atmosféricos, tudo isso entremeado com baladas stoneanas.

O encerramento ficou com a emblemática "Come Together", uma canção longa com um irresistível clima gospel. Gillespie pediu para todos levantarem os braços e, no final, o animado público não parava de bater palmas e entoar o refrão "come together as one" como se fosse um mantra, o que foi uma deixa para a banda simplesmente desaparecer do palco. Mas, depois de uma hora de Screamadelica, ainda tinha pela frente o bis, com algumas canções do resto da carreira do Primal Scream. Quando tudo foi encerrado com a sempre eficiente “Rocks”, pouco depois da meia-noite, era fácil perceber que o local mais rock do Brasil neste sábado frio e cheio de garoa era São Paulo.