Cole Porter morreu há 45 anos

"Night and Day", "I've Got You Under My Skin" e outras composições do norte-americano ganharam o mundo na voz de artistas como Ella Fitzgerald e Frank Sinatra

Da redação Publicado em 14/10/2009, às 19h33

Cole Porter, alçado à fama mundial por composições como "Night and Day", "I've Got You Under My Skin" e "It's De-Lovely", morreu no dia 15 de outubro de 1964, há 45 anos, de falência renal, em Santa Monica, Califórnia. Ele tinha 73 anos.

Porter imprimiu estilo próprio ao cancioneiro do século 20, pela capacidade de lapidar músicas com apelo popular e, simultânea mas não paradoxalmente, ares de sofisticação. Consagradas por praticamente todas as grandes vozes de seu tempo, de Ella Fitzgerald a Frank Sinatra, suas letras e melodias eram espirituosas e urbanas - forte exemplo é "Let's Do It (Let's Fall In Love)", que brincou com a duplicidade sentimental décadas antes da parceria entre Arnaldo Jabor e Rita Lee para "Amor e Sexo" (exemplo nos versos "Some Argentines, without means, do it/ People say in Boston even beans do it/ Let's do it, let's fall in love", que em português significam "Alguns argentinos, sem meios, fazem/ Pessoas dizem que em Boston até feijões fazem/ Vamos fazer isto, vamos nos apaixonar").

"You're the Top", um de seus mais famosos standards, remete à aleatoriedade proposital de canções brasileiras como "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso - tudo por juntar, na mesma letra, e sem perder a mão na harmonia literária, combinações tão distintas como "Mickey Mouse", "um balão destinado a estourar em breve", "Mahatma Gandhi" e "o salário de [Greta] Garbo".

Aos seis anos, o filho do fazendeiro Samuel Fenwick Porter e de Kate Porter já era capaz de tocar violino. O talento para o piano veio mais tarde: dois anos depois. Com 10, o garoto compôs sua primeira música, "The Bobolink Waltz", publicada em Chicago por esforço da mãe orgulhosa.

O talento musical do neto não sensibilizou o avô materno, J.O. Cole, que queria fazer de seu descendente um advogado. Para atender o desejo do mais velho, o jovem foi enviado a faculdades de Direito, com passagem inclusive pelas prestigiadas Harvard e Yale - na última, não pôde manter sua vocação na encolha: Porter compôs dois famosos hinos da universidade, "Bingo Eli Yale" e "Yale Bulldog Song". Mais tarde, ele se transferiu para a Escola de Música de Harvard.

Porter não obteve sucesso imediato na Broadway, ao contrário de contemporâneos como George Gershwin, outro exímio criador de clássicos do jazz ("Rhapsody in Blue" e "Someone To Watch Over Me"). Nascido em Peru, Indiana, no dia 9 de junho de 1891, o norte-americano decidiu, então, mudar-se para a Europa, onde viveu em Paris (França) e Veneza (Itália).

Durante as duas Guerras Mundiais, ele e Linda, a nativa de Kentucky com quem se casou em 1918, foram figuras conhecidas no círculo artístico dessas cidades, em particular no homossexual. A vida, na época, era nababesca: o casal mantinha casarão na capital parisiense com cadeiras estofadas de pele de zebra; certa vez, o compositor contratou todo o balé de Monte Carlo para entreter convidados de uma festa no endereço.

Porter retornou ao país natal no final dos anos 20, para finalmente ganhar reconhecimento na Broadway. Na autobiografia Musical Stages, Richard Rodgers, um dos principais nomes do que é até hoje o principal circuito teatral dos EUA, conta que se impressionou, em Veneza, com o talento do "novato na cena" - só falhou em perceber que já havia escrito vários projetos que naufragaram, antes de rumar ao Velho Mundo.

Em 1928, enfim, veio a glória na Broadway, com o espetáculo Paris, com "Let's Do It (Let's Fall In Love)" na trilha. Entre os vários musicais creditados ao artista, o mais famoso é Anything Goes, que estreou em 1934 e apresentou "I Get a Kick Out of You" e "You're the Top".

"Compus vários trabalhos durante o jantar. (...) Posso trabalhar em qualquer lugar", ele disse certa vez, de acordo com o obituário publicado no jornal The New York Times, no dia seguinte à sua morte.

"Poucas pessoas percebem o quão excelente é a arquitetura de sua música", ressaltou Rodgers. "Há fundação, estrutura e embelezamento. Então, você acrescenta a emoção (...) e o resultado é Cole Porter."

"Simplesmente não posso analisá-la", o próprio Porter revelou incapacidade de definir sua sonoridade. "Consigo analisar a música dos outros. A palavra para as melodias de Rodgers, penso, é sagrado. Para Jerime Kern, sentimental. Para Irving Berlin, simplicidade. Para as minhas, eu não sei."

No verão de 1937, Porter sofreu acidente enquanto cavalgava: sob o peso do cavalo, que caiu sobre ele, teve sequelas no sistema nervoso e duas pernas quebradas. Para piorar, o problema mais grave, uma doença nos ossos, deixou-o incapacitado. Até o final da vida, foram mais de 30 operações - em 1958, sua perna direita teve de ser amputada. Porter, antes dono de ruidosa vida social na comunidade homossexual, tornou-se cada vez mais recluso.

Mas o trabalho não parou. Logo após o acidente, trabalhou, da cama, nas faixas do espetáculo Leave It To Me. Seu piano era especialmente adaptado, para que ele pudesse continuar a compor na cadeira de rodas.

Passados 11 anos do acidente, temporada de relativos fracassos na Broadway, o artista obteve seu maior sucesso comercial, Kiss Me Kate, versão musicada de A Megera Domada, de William Shakeaspeare. A peça contou com algumas das melhores composições de Porter: "Too Darn Hot", "So In Love" e "Always True To You In My Fashion".

Ao longo da carreira, ele também marcou presença em Hollywood, escrevendo "I've Got You Under My Skin" para Born To Dance (1936) e "I Concentrate On You" para Melodia na Broadway (1940), entre outros.

Cary Grant interpretou o compositor em Night and Day (1946), cinebiografia pouco compromissada com a verdade: um dos pontos ignorados, por exemplo, é a vida gay de Porter, que mantinha casamento para manter as aparências, ponto capital à época. Linda Porter morreu em 1954.

O músico passou os últimos anos em reclusão - recebia a visita de poucos amigos íntimos e se recusou a comparecer a uma festa organizada em seu 70º aniversário.

A vida de Porter foi retratada de forma menos enfeitada em 2004, em De-Lovely - Vida e Amores de Cole Porter. Os papéis de Sr. e Sra. Porter ficaram a cargo de Kevin Kline e Ashley Judd.