Coletivo Samba Noir moderniza tradicionais canções de Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Ary Barroso

A fossa do samba virou pop com o ritmo eletrônico e hipnótico do quarteto carioca

Carlos Henrique Sartori Publicado em 20/05/2015, às 17h52 - Atualizado às 18h29

Os integrantes do Coletivo Samba Noir
Daryan Dornelles

Um time de bambas da MPB tem dado um tom de modernidade aos clássicos do samba. ”O samba não é apenas um ritmo. É a identidade cultural brasileira” defende a cantora Beth Carvalho. Embalado por essa frase famosa e contundente de uma das várias rainhas do samba, segui de metrô rumo ao Centro Cultural Banco do Brasil, no coração do centro histórico de São Paulo. Local da entrevista e ensaio do último dia de show do Coletivo Samba Noir na capital paulista, sendo a segunda das setes cidades em que a turnê passará.

Antes da conversa, escutei as músicas do álbum de estreia e acompanhei pelo YouTube alguns dos clipes gravados por eles. Pra deixar a coisa mais bacana, também ouvi os sambas originais inspirados pela dor de cotovelo que o CSN gravou. De Nelson do Cavaquinho a Cartola, passando por Tito Madi e Dorival Caymmi. Nas letras são cantados amores impossíveis, solidão, angústia e tristeza. A ideia era sentir como eles mexeram nas estruturas dos sambas e discutir essas releituras. “A ideia não é ser moderno. É ser pop”, define a cantora Katia B, uma das idealizadoras do grupo ao lado de Luís Filipe, que arrisca um palpite “O pessoal do samba ainda não prestou muita atenção na gente.”

O quarteto carioca foi criado em 2014 e é formado pela cantora, atriz e dançarina Katia B, que transita entre o pop e a MPB; o violonista, arranjador e produtor Luís Filipe de Lima, ligado ao samba e ao choro; o percussionista Marcos Suzano, inovador no uso do pandeiro e da percussão eletrônica, e Guilherme Gê, arranjador, produtor e multi-instrumentista. Dos quatro, três apareceram no horário marcado para a conversa. Marcos Suzano, uma lenda da percussão, estava atrasado. Nada que desafinasse o bate-papo.

São Paulo é assim. Difícil acompanhar o ritmo do relógio com esse trânsito caótico. Apresentações feitas, pegamos um elevador minúsculo, no belíssimo prédio construído há 114 anos e subimos para o teatro pequeno, mas aconchegante para acomodar 120 lugares. A má notícia é que eles iriam ensaiar apenas uma música. Atravessei o samba e perguntei se daria para eles tocarem outras, após a entrevista, para sentir como era o show. Toparam.

O Coletivo Samba Noir sabe o que busca. Não é apenas um grupo de música. É um projeto ousado, bem elaborado e grandioso. Nasceu impulsionado por uma seleção pública do Petrobras Cultural. Com o dinheiro, realizaram no ano passado doze shows no Rio de Janeiro para testar o repertório, linguagem musical que resultou no CD Samba Noir. Uma homenagem aos grandes clássicos de fossa das décadas de 1930 a 1960, sobretudo de 1950. Um casamento musical bem afinado. “No primeiro encontro a liga já foi impressionante, instantâneo.” explica Guilherme Gê.

Além do disco, o patrocínio da estatal rendeu ao quarteto 15 shows em sete cidades do país. A excursão começou em Brasília no mês de abril e vai até o meio de maio com encerramento na cidade dos músicos, o Rio de Janeiro. “Tivemos a sorte de ter um patrocínio. Esse formato de edital não é comum. Conseguimos patrocínio por dois anos”, vibra Luís Filipe.

O cenário impactante impressiona os desavisados. No show dos cariocas, canções como “Meu Mundo É Hoje”, de Wilson Batista e José Batista, “Risque”, de Ary Barroso, “Volta”, de Lupicínio Rodrigues, e “Pra Que Mentir”, de Noel Rosa e Vadico, são interpretadas por músicos consagrados. O guitarrista “noise” norte-americano Arto Lindsay, o mestre do piano, Egberto Gismonti, o irreverente Jards Macalé e o homem dos sopros, Carlos Malta, são projetados no palco em meio a nuvens de fumaça e tecidos. Quase uma viagem no tempo, inspirada na atmosfera densa do cinema noir.

Nessa caixa mágica, bem iluminada e sombria, os convidados especiais interagem, cantam e tocam como se estivessem no palco ao lado dos quatro integrantes do Coletivo Samba Noir. “O Eguiberto é amigo da Katia, já fizemos coisas juntos, também fiz coisas com o Macalé. Às vezes toco com o Arto. O Malta é amigo do Suzano. Então fomos aglutinando as pessoas para não ter só participações no disco, mas também no show. Pessoas próximas, queridas, significativas, nomes de peso, mas, sobretudo, pessoas identificadas com essa estética que propomos.”

O espetáculo tem direção geral de Kátia B e Luís Filipe de Lima. “É muito impactante, arrepia mesmo na veia”, diz Katia B, emocionada. O Coletivo não tem apenas os quatro músicos de várias vertentes. A equipe de produção reúne grandes nomes das artes. “Nosso iluminador é de teatro, tem direção de movimento, da Marcia Rubin, tem figurinista, projeções do Batman, do Zavarazé, de um cara importante no Rio, de cenografia.” completa a cantora. “Pessoas de lugares diferentes, colegas nossos, músicos, cantores, disseram que é um espetáculo inspirador. Tenho um orgulho danado de tocar e inspirar todos eles” completa Luís Filipe.

Para o álbum de estreia foram escolhidas dez canções. O show ganhou mais sete. O material de pesquisa foi elaborado por Luís Filipe Lima, o “homem do samba” do grupo. Ele reuniu uma centena de canções. Segundo Katia B “foram em torno de 70 faixas”. Uma garimpagem minuciosa do diretor musical, que assina a trilha sonora do filme O Poeta da Vila sobre Noel Rosa e dirigiu vários musicais de mestres da música brasileira. “A Kátia foi vendo o que encaixava. Não só na voz, mas no sentimento dela. Fomos peneirando a lista e afinando. Quando encontramos o (Guilherme) Gê e o (Marcos) Suzano, tínhamos umas vinte e poucas músicas, pois fomos cortando naturalmente, as que não davam certo.”

Apenas uma música do disco é autoral e foi composta pelo irreverente e também carioca Fausto Fawcett. Ela foi encomendada por Katia B que buscava uma canção sobre o ciúme e que conversasse com as outras. Foi assim que surgiu “Só Deixo Meu Coração na Mão de Quem Pode”. A novidade é que o segundo registro já está sendo produzido durante a turnê. “Têm muitas coisas legais que ficaram de fora do disco e estão no show. A gente se apega a elas, cada vez mais” diz Luís Filipe.

Com 30 minutos de entrevista rolando, o percussionista Marcos Suzano chega, se desculpa e se apresenta. Logo de cara, e ainda em pé, coloco ele na roda com uma pergunta: “A música eletrônica conversa com o samba?”. O músico que revolucionou o jeito de tocar pandeiro responde na lata: “Claro, eu acho que um estilo não pode ser um escravo de uma instrumentação. Na verdade, o samba está muito mais em uma sensação, em alguns toques, lugares determinados, que definem, e esse toque pode ser feito.”

Por curiosidade, pergunto sobre a formação do grupo: “Vocês gostam de ser chamados de quarteto?”. Katia B responde rindo: “Não tem problema. Coletivo, quarteto, quadrilha...”. Rapidamente solto a pérola “quadrilha carioca?” Marcos Suzano finaliza a questão “arrastão!”. É uma definição precisa do show que tem arrastado muita gente para redescobrir a essência do samba brasileiro. O resultado do show tem surpreendido os músicos. “O público tem urrado, é impressionante. A gente confiava. A proposta cênica do show é bastante arrojada.”

Se a proposta do Coletivo Samba Noir era surpreender no palco, eles conseguiram. As projeções com os músicos convidados são perfeitas, sincronizadas. Parece que eles estão ali fazendo um show intimista. Quem sabe para o próximo trabalho, a “quadrilha carioca” não resgate os verdadeiros mestres do samba para atuarem com eles no palco. Ver Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Cartola, seria um presente para valorizar a memória musical brasileira tão maltratada e esquecida.