Com atrasos, vacinação no Brasil cai 17% em maio

A desaceleração da imunização do país é consequência do atraso dos insumos para produção dos imunizantes

Redação Publicado em 20/05/2021, às 09h45

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Vacinação contra a Covid-19 (Foto: David Greedy / Getty Images)

Em 12 de fevereiro de 2021, a enfermeira Mônica Calazans foi a primeira brasileira a tomar vacina contra a Covid-19. Desde então, a vacinação no país se manteve lenta - segundo levantamento do UOL, a imunização caiu 17% em maio.

De acordo com cálculo com base nos dados do consórcio de imprensa, o Brasil registrou menos vacinações diárias em maio do que em abril. Um dos principais motivos é a falta de imunizantes devido aos atrasos da chegada de insumos para produção das doses.

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Até 18 de maio, a média diária de vacinas aplicadas no mês foi de 681 mil pessoas, conforme divulgado pelo UOL. A queda foi de 17% em relação a abril, cuja média por dia foi de 822 mil pessoas que receberam a primeira ou segunda dose dos imunizantes. 

Apesar dos baixos números diários de vacinas aplicadas, o Brasil tem capacidade para vacinar cerca de 2,4 milhões de pessoas por dia. Devido à falta dos imunizantes, o país está longe de alcançar esse número.

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Terceira onda de Covid-19 no Brasil

Devido à desaceleração da vacinação e da diminuição do isolamento social no país, médicos e cientistas alertam para uma terceira onda da Covid-19 no Brasil nos meses do inverno.

Segundo o Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação da Universidade de Washington, nos EUA, Brasil pode chegar a 751 mil mortes pela doença até 27 de agosto. O estudo da Universidade de Washington, destaque mundial pelas projeções certeiras, indica, no pior cenário, o patamar de 3.300 mortes diárias em 21 de julho - em 21 de setembro, o país alcançaria 941 mil óbitos pela doença.

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Na quinta, 29, o Brasil chegou ao assustador número de 400 mil mortes por Covid-19. Em 24 horas, foram mais de 3 mil óbitos. Os tristes dados refletem a gravidade da pandemia no país, assim como a gestão do governo Bolsonaro, que negou a compra de vacinas, apoiou tratamentos sem eficácia comprovada e menosprezou as vidas perdidas.

Há quase um ano, em 28 de abril de 2020, Bolsonaro dizia a famosa frase “e daí?” para os 5 mil mortos que se somavam pela pandemia na época. Naquele momento, o Brasil ultrapassava as mortes na China - e quando questionado, o presidente minimizou a gravidade da situação.

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Conforme noticiado pelo G1, Bolsonaro comentou sobre as cinco mil mortes no Palácio da Alvorada dia 28 de abril de 2020: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre". Em seguida, solidarizou-se com as famílias das vítimas, e continuou: “Mas é a vida. Amanhã vou eu. Logicamente, a gente quer ter uma morte digna e deixar uma boa história para trás.”

Um ano depois, o Brasil chegou a 400 mil mortes pela doença - e ao longo do caminho, houve diversas declarações do presidente que minimizaram as mortes, foram contrárias às orientações das autoridades de saúde e desrespeitaram as vítimas.

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Declarações de Bolsonaro

Em março de 2020, durante pronunciamento nacional, Bolsonaro chamou a Covid-19 de “gripezinha”, conforme relembrado pela BBC. Poucos dias depois, em 20 de abril do mesmo ano, o presidente se negou a responder sobre os 2.584 mortos e 40.616 casos da doença no país, e disse (via G1): “Eu não sou coveiro”.

Quando o Brasil chegou aos 17.971 mortos, em 19 de maio de 2020, Bolsonaro conversou com o jornalista Magno Martins, e brincou ao aconselhar a população a usar tratamentos sem eficácia comprovada contra Covid-19. Segundo matéria do Estadão, o presidente disse: "Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda, Tubaína."

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Ao se posicionar contra a vacinação da população brasileira, Bolsonaro insinuou, em 19 de dezembro, que não se responsabilizaria por efeitos colaterais da vacina da Pfizer. Na época, o país acumulava 186.365 mortes pela doença. “Se você virar um jacaré, é problema seu,” comentou.


Consequências

As declarações do presidente, assim como diversas fake news circulando nas redes, dificultaram o combate à pandemia. A desinformação cresceu, assim como o uso de tratamentos sem eficácia comprovada e o número de pessoas contrárias às vacinas. Segundo o Datafolha, em dezembro de 2020, 22% da população Brasileira disse que não iria se vacinar contra a doença. 

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A falta de confiança do governo na “vacina chinesa” atrasou a importação de insumos para a fabricação da Coronavac, do Butantan: “Da China nós não compraremos,” disse Bolsonaro, em outubro de 2020, à Jovem Pam. Atualmente, o ritmo de imunização está lento, e em diversas cidades faltam doses para a população.

Sem uma campanha nacional de vacinação definida, também faltaram informações sobre imunização à população e aos profissionais da saúde. De acordo com a BBC, diversas doses foram jogadas fora no início de 2021 por não haver orientações a respeito de armazenamento, aplicação e uso de frascos abertos.

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Assim, desde janeiro de 2021, o Brasil vacinou com a primeira dose 13,6% da população. Em relação à segunda dose, a porcentagem é ainda menor: 6,3%.


Investigações

Devido à gravidade da pandemia no Brasil, a gestão do governo Bolsonaro é acusada mundialmente de crimes contra a humanidade. O Parlamento Europeu critica o presidente pelo equívoco em decisões políticas, segundo o UOL.

De acordo com o colunista Guilherme Amado, da ÉPOCA, uma comissão criada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também afirmou que Bolsonaro (sem partido) cometeu diversos crimes durante a gestão da pandemia de Covid-19. 

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A Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (CPI da Covid) está investigando as omissões do governo durante a pandemia, e deve entregar um relatório final com o total de vezes que os imunizantes foram negados pelo governo federal. Por enquanto, foram comprovadas 11 propostas para o fornecimento da vacina recusadas, conforme a coluna de Octavio Guedes no G1.