Com Céu, Attoxxa, Xenia França, Edgar e Potyguara Bardo, Festival BR 135 promove a música plural, de graça na praça [ANÁLISE]

A oitava edição do festival em São Luís, no Maranhão, mudou de lugar na cidade para receber ainda mais público

Pedro Antunes, de São Luís* Publicado em 01/12/2019, às 09h30

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Céu, no Festival BR 135 (Fotos: Laila Razzo)

Três garotos chutavam uma garrafa vazia de Corote para brincar de bola enquanto driblavam as pessoas que se aproximavam do palco montado na Praça Maria Aragão, em São Luís, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Jovens descolados, idosos curiosos, crianças, cachorros. Festivais abertos, sem a venda de ingresso, são a mais inclusiva experiência musical. E o BR 135, na 8ª edição, se orgulha disso. Das misturas. Das pontes.

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Como contou Luciana Simões, uma das criadoras do festival ao lado de Alê Muniz, à Rolling Stone Brasil na área reservada ao lado do palco montado na Praça Maria Aragão, dedicado à música orgânica (um escadão acima, ao lado, na Praça Gonçalves Dias, foi criado um espaço para a música eletrônica), o BR 135 sempre foi pensado em criar conexões - e colocar Maranhão dentro do mapa da música brasileira, integrado às outras cidades do País com uma programação que dá espaço às atrações locais e trazer artistas que não visitam a cidade com frequência.

Também integra a programação do BR 135 o Conecta Música, que faz parte de um segundo eixo de direcionamento do festival, que é a formação de uma cena. Ali, são realizadas oficinas, painéis, papos com pessoas de todos os setores do ecossistema da música e rodadas de negócios - neste ano, rolaram papos inclusive com Céu e também com Pablo Capilé, da Mídia Ninja.

Por conta de decisões políticas nas últimas décadas, conta Simões, a cultura própria do Maranhão foi atropelada por artistas massivos e mainstream de outros estados - principalmente da Bahia. Ou era mainstream, ou não era nada, ela recorda. A partir do BR 135 e de outras tantas ações mais localizadas, é possível a criação de um ambiente no qual artistas do Maranhão possam aparecer.

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É o caso de Paulão, rapaz alto que faz justiça ao apelido no aumentativo, que flutua entre o brega e ragga (com muito espaço para criação dentro disso). Escalado em um lugar de destaque na programação do BR 135, às 21h de domingo, antes de The Baggios e Céu, headliners da noite, Paulão fez as pessoas dançarem e também se emocionarem - valem a escuta o EP mais recente dele, Special Power (2019) e, para chorar um tantinho, a música "Dia D", do primeiro disco dele, lançado em 2016.

(Paulão, no Festival BR 135 / Foto: Laila Razzo)

O BR 135 estreou nas duas praças Maria Aragão e Gonçalves Dias porque não cabia mais no Centro Histórico de São Luís, como mostra do tamanho do festival nos últimos anos. Segundos dados da política local, nas edições anteriores, cada dia de BR 135 recebeu 25 mil pessoas.

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No novo espaço, não houve muvuca. Mesmo nos shows mais cheios das três noites de festa, dias 28, 29 e 30, casos de Xenia França, Attooxxa e Céu, em cada uma das noites, respectivamente.

As performances desse trio foram particulares. Singela, de discurso cristalino e poderoso, Xenia se mostra cada vez mais preparada para grandes feitos. Attooxxa, por sua vez, é suor e dança até o chão - ninguém fica parado. Céu, ó ceus, que artista - com APKA!, disco mais recente de 2019, ela levou adiante as experimentações com beats eletrônicos, falou de amor nos tempos online, e engrandeceu o já ótimo repertório de um show night vibes que vinha desde Tropix, o álbum anterior dela.

Mas festival bom se faz com miolo de line-up, e com surpresas. Como o sorriso de Potyguara Bardo, já paramentada de orelhinhas de elfos, ao ouvir o público que gritava alto pelo show dela, na sexta-feira, como atração antes de Attoxxa. Talvez ela também não esperava aquela recepção. E a apresentação, deliciosamente peculiar com brega (letras de rejeições e amores perdidos) e pop (acompanhada apenas de beats disparados por um DJ), fez justiça à expectativa.

(Potyguara Bardo, no Festival BR 135 / Foto: Laila Razzo)

E atrações como essa se enumeram, como a artista Enme Paixão, política e dançante até a última ponta, e a Orquestra Maranhense de Reggae, com o gênero gringo que fincou raízes no Maranhão a ponto do estado ganhar o apelido de "A Jamaica Brasileira", fez uma festa de quem gosta de dançar agarradinho.

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Edgar e The Baggios, ambos co-headliners dos respectivos dias, entregaram no palco um recado mais pós-apocalitico. Baggios, em outros discos, cantou a bruta e terrível Brutown e o desencanto, embora o mais recente, Vulcão, seja mais sobre reencontrar raízes. Já o rapper de Guarulhos, município colado em São Paulo, não precisa narrar o futuro para instaurar o medo - ele fala do presente, dos maiores pecados da humanidade versão 2019, o que já é assustador para caramba.

O BR 135 ganhou o nome por causa da rodovia federal que liga o Maranhão, passa pela Bahia e chega a Minas Gerais, porque sua função é exatamente essa, a conexão. Antes mesmo de Céu subir ao palco para o show de encerramento, o objetivo tinha sido cumprido de novo. São oito anos de resistência. E segue contando.


*A reportagem viajou a convite do Festival BR 135