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Com Céu e BaianaSystem, disco do The Baggios vai do agreste ao blues africano

O álbum Vulcão nasceu após uma crise de ansiedade do vocalista Julio Andrade e sucede o elogiado Brutown, indicado ao Grammy Latino

Pedro Antunes Publicado em 28/11/2018, às 19h45

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The Baggios (Foto: Jessica Dias)

Fim de 2017, ano no qual sua banda, a Baggios, vivera seu grande momento, ao ser indicada ao Grammy Latino na categoria de melhor álbum de rock ou música alternativa com o disco Brutown, do ano anterior, Julio Andrade, voz e guitarra, sofria de dores no estômago. Era ansiedade. "Era aquela necessidade de viver tudo o tempo todo, entende?", explica o músico nascido e criado em São Cristóvão, cidade do interior de Sergipe.

"Foi um pico de ansiedade, mesmo", relembra o músico, hoje com 32 anos - "e carinha de 50 anos", brinca Andrade. Não é de estranhar a reação do corpo e mente, contudo. No rolê da música independente, o "do it yourself" (ou faça-você-mesmo) ser músico não é só criar novas canções, conceitos e discos - é preciso buscar e vender shows, lidar com contratantes, criar estratégias de marketing, bolar clipes e singles, fazer conexões com imprensa, etc.

Mas o fato é que Vulcão, o poderoso novo disco da Baggios, banda que Andrade tem com Gabriel Carvalho (bateria) e Rafael Ramos (teclas e baixo), lançado recentemente, é fruto desse processo de aceleração e desaceleração vivido pelo guitarrista e vocalista do trio.

"Me senti cobrado a respirar mais", ele conta. No período entre 2017 e 2018 (até março, mais ou menos, ele estima), sem shows agendados para a Baggios, Andrade passou a criar novas canções e se dedicar a yoga e à meditação. "É aquela coisa: você conhece uma pessoa, que te sugere conhecer outra e por aí vai", ele diz, sobre sua descoberta às técnicas orientais.

Quando deu por si, Andrde estava em um retiro espiritual durante o carnaval de 2018. "Troquei a folia para aprender mais sobre essa prática", explica.

Brutown, o antecessor, lançado dois anos atrás e indicado ao Grammy Latino, é um disco claustrofóbico nesse sentido - porque reproduz a intensidade daqueles tempos e do próprio Andrade. São angústias da cidade louca, caótica, bruta, a tal "brutown".

A partir dele, Andrade dizia que queria que o próximo disco deveria ser uma saída dessa cidade fictícia que tão parece com o nosso mundo. "Passei a pensar mais nesse desaceleração. Diminui as cobranças, de querer estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Era um frenesi".

Por isso veio Vulcão, o quarto álbum da Baggios. "É o 'fugere urbem'", explica. Trata-se de uma expressão em latim que significa "fugir da cidade". E isso significa deixar a rotina intensa, o concreto sobre as cabeças, a insanidade de compromissos para trás.

"Como eu vou lidar com uma cidade que está em colapso? Como eu vou suportar isso?", explica o vocalista. "Às vezes, conhecemos os nossos problemas, mas nunca paramos para resolvê-los". Ele diz como "nós", na primeira pessoa do plural, mas poderia também ser no singular.

Por isso mesmo, Vulcão, lançado com o auxílio do edital Natura Musical (e com show marcado para esta quinta-feira, 29, em São Paulo, na Casa Natura Musical), traz questionamentos tão pessoais por parte de Andrade.

Não que os lançamentos anteriores da Baggios não fossem - aliás, ouça e se emocione com o EP Juliana, que saiu no primeiro semestre deste ano, que trata, entre outras questões, da história da irmã do vocalista da banda -, mas havia mais espaço para a narrativa a partir de uma perspectiva mais distante.

Vulcão, o álbum, é quente porque é a lava que borbulha e quer saltar para a superfície. Como se Andrade também estivesse em erupção. 'É um disco que transcende o que é material, o que está diante dos nossos olhos, entende?", explica Andrade.

E o disco merece atenção. Além de tudo, tem a participação de duas das mais importantes figuras do indie nacional da década. Céu (em "Bem-Te-Vi") e BaianaSystem (numa música chamada "Deserto").

Bem-Te-Vi é possivelmente uma das melhores músicas já criadas por Andrade - e ele mesmo concorda: "É lindíssima, né? Fala das prisões que criamos em nós mesmos", conta. Ele, que conhece Pupillo, marido de Céu, pediu para que o baterista e produtor fizesse a ponte entre a cantora e a banda. Deu certo.

Também a camaradagem, Andrade foi atrás dos amigos do BaianaSystem. "O curioso é que o Russo (Passapusso) criou um verso que falava de uma mulher de vestido vermelho. Eu arrepiei e fui mostrar, pra ele, a capa do disco."

O trecho de Russo diz: "Dona Maria quebrou seu espelho / E pegou cada caco de vidro e colou no vestido vermelho rodado". Na capa, esse tecido vermelho sobrevoa uma mata, o que sugere a fuga para o mato."

Acrescente esse conceito às influências do desert blues, de artistas como o guitarrista tuaregue Bombino e a banda Tinariwen, cujas escalas e construções harmônicas são distintas daquelas das quais nossos ouvidos estão acostumados, e pronto, temos o tempero completo de Vulcão.

Aliada a isso, à guitarra que está sempre em busca da nota pela qual você não espera, vem a voz de Andrade, um grito ardido e queimado pelo sol do agreste.

E, com isso, a Baggios segue no seu fluxo de um lançamento a cada dois anos. É do jogo do indie, mas também da compulsividade de Andrade ao pegar um violão. "Eu não sei brincar de tocar aquelas músicas que a gente conhece, sabe? Eu gosto de ficar criando".

São 13 anos de Baggios assim. De pura resistência indie, casca dura, mesmo. "Nunca planejei um futuro tão longo como esse, não. Eu tô gostando demais de fazer música por tanto tempo. É um desafio diário tocar e compor. E se sentir vivo e instigado a fazer isso", ele diz.

"Isso, por si só, já é uma poesia." É bem por aí.