Com discurso sobre amor, Lupa não quer passar mensagem vazia: "As pessoas identificam o que é máscara"[ENTREVISTA]

Em dois anos, a banda formada em Brasília viu os números de fãs aumentarem, mas não se contentam. Um dos objetivos do grupo é "chegar ao máximo possível de gente"

Camilla Millan Publicado em 13/01/2020, às 15h14

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Banda Lupa (Foto: Divulgação/Renato Mori)

Múcio Botelho sonhava em ser deputado federal quando entrou no curso de direito da UNB, Universidade de Brasília. Anos mais tarde, com diploma em mãos e um emprego na Câmara dos Deputados, ele pisou no palco Supernova, no Rock in Rio 2019, como vocalista da banda Lupa: "Política e música estão sempre ligados", diz Botelho.

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Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Múcio Botelho explicou que a banda fala sobre política, mas de forma indireta e “sem discurso vazio de corrupção”. “Isso aí é uma das grandes bênçãos que a gente tem, uma formação política muito boa”, explicou o músico cujas últimas entrevistas foram dadas “literalmente de dentro do Plenário da Câmara dos Deputados.”

Quatro dos cinco integrantes da Lupa são formados por universidades federais, reunidos no grupo que Múcio brinca de “a banda mais mal-aproveitada da história”. São eles Múcio (vocal), “Junin” (bateria), Moya (baixo), Dezis (teclado) e Victor (guitarra).

O rock alternativo da banda apresenta-se aos fãs em constante mudança. Mesmo com músicas cujo pop parece ser destaque, outras canções incluem riffs de guitarra e bateria mais marcada, além de um coro diferencial. Essa mistura é, definitivamente, consequência do mantra "Sem o menor esforço", considerado o elemento definidor da produção musical do grupo.

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O lema, utilizado pelos integrantes da Lupa, é explicado por Botelho: “Acho que se a gente tivesse que se esforçar, editar, ficar raciocinando dias e dias e dias em cima disso é porque não é de verdade pra gente”, disse o vocalista.

Mesmo assim, os músicos da banda não deixam de “se importar com a mensagem que está sendo passada”, já que, segundo Botelho, ela rege o modo como os integrantes do grupo pensam o próprio fazer música. “Temos uma dificuldade profunda em conseguir definir, ‘ah, a gente é uma banda de rock, de indie, de pop'… Nunca teve essa pretensão”, revelou Botelho. O músico também acrescentou: “Música pra gente não é um fim, é um instrumento. O que importa é a gente ter essa mesma mensagem. Por isso a gente pode fazer o que diabos a gente quiser que vai dar certo, vai ser natural e não vai ser uma coisa forçada.”

A Lupa surgiu em Brasília no ano de 2011 por iniciativa de Botelho, que tinha um projeto em mente e buscava as pessoas certas. “Eu estava procurando 4 meninos que acreditassem realmente na mesma coisa. Acho que essa foi a melhor decisão que eu pude tomar, porque até hoje eu não sei explicar o que a gente faz”, revelou o músico.

Assim, desde a criação, a Lupa tinha definido o objetivo de igualar público e palco. Sem diferenças, Botelho e seus colegas de banda podem fazer o que mais querem e gostam: subir em um palco e tocar.

“Queria estar na primeira banda no Brasil que tivesse um relacionamento diferente com os fãs. Até então tinha uma divisão muito clara de ‘quem está no palco é Deus e quem está no público é súdito’, e eu acho isso um absurdo, não faz o menor sentido! Desde que começamos batemos nessa tecla de acabar com qualquer tipo de diferença, porque cara, a gente precisa das pessoas [...] Nosso objetivo é chegar no máximo possível de gente”, disse Botelho.

Em uma mistura de música, amor e política, Botelho explicou como a Lupa estabelece um relacionamento com os fãs: "Ninguém está aqui pra ser enganado. A gente acha que a última vez que o Brasil foi enganado foi mais por raiva do que por acreditar em alguma coisa, entende? As pessoas identificam o que é máscara e o que não é. E quando elas veem que a gente não tem, que a gente não está colocando uma fantasia e não está criando um personagem, eles falam ‘Ca***o, que massa! Po**a, quero ser amigo deles'".

Segundo o vocalista, no Rock in Rio 2019, a presença dos fãs foi marcante para a banda, já que a Lupa foi anunciada um mês antes da apresentação - época em que todos os ingressos estavam esgotados.

“A gente tocou com um sol que dava pra matar. Todo mundo vermelho e a galera não parava de pular, não saia da frente do palco, cantando tudo. Chorei, viu? Chorei antes do show, chorei durante o show, chorei depois do show, e foi assim nesse dia,” disse Botelho.

Além das mensagens e dos fãs, a banda destaca o amor. E é dele que se compôs e gravou o primeiro álbum do grupo, Lupercália, lançado em 2017, assim como os quatro últimos singles divulgados em parceria com a Sony: “Vai Doer”, “Bixinho”, “E Se Não Der Pra Esperar?” e “Oi :)”.

De jeito extrovertido, brincalhão e criativo, a Lupa lançou seus singles repletos de amor pra mostrar que não pretende parar. Mesmo com as últimas conquistas da banda, Múcio Botelho quer mais.

“Quero estar em todas as rádios desse país, quero ser chamado ainda pra tocar no palco mais bonito daquele festival[Rock in Rio], para um mar de gente que ame a gente. [...] A gente não faz o que a gente faz para ninguém conhecer. Nosso objetivo é literalmente estar na boca de todo mundo e a gente vai fazer isso”, disse Botelho.

Uma das conquistas da banda foi ficar perto de uma de suas admirações musicais: a banda Panic! At the Disco. Apesar de não ter uma referência específica para produzir as músicas, o carinho pela banda de Brendon Urie é grande, e de tempos anteriores à fama da Lupa.

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Em 2014, a segunda edição do Circuito Banco do Brasil trazia ao País vários shows de grupos como Linkin Park, Kings of Leon, Paramore e o Panic! At the Disco. Mais do que apresentações, o evento trazia a possibilidade de uma banda se apresentar no festival por meio de um concurso - disputado euforicamente pela Lupa, que tinha certeza da vitória. A banda inclusive cancelou a primeira apresentação fora de Brasília, no Rio de Janeiro, pois tinha certeza do êxito. No entanto, a Lupa alcançou apenas o 2º lugar. "Ficamos tristassos, tristassos, tristassos", relembrou o Botelho.

Apesar do acontecimento, o bom-humor de Múcio Botelho revela a mudança que ocorreu mais pra frente, cinco anos depois, no Rock in Rio, dia três de outubro de 2019. "Imagina uma pessoa cinco anos atrás virando pra gente e falando 'Ô , Múcio, fique triste não, daqui a 5 anos você vai tocar com o Panic! no Rock In Rio.' Ia rolar de rir com a cara da pessoa. Sabe que aconteceu, meu Deus do céu? Literalmente aconteceu isso. É então, a vida guarda umas coisas pra gente", relatou.

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E é com bom-humor e despreocupação que a banda de amigos formada em Brasília coleciona conquistas e fãs. Mas o trabalho não para. Após o lançamento dos últimos quatro singles, Botelho revelou que vem mais coisa por aí - mesmo sem saber exatamente o que: “Tem muita coisa preparada já pra gente soltar. Já estamos com mais três músicas escondidinhas aqui que eu ainda não posso falar. Mas a gente não sabe o que diabo que a gente vai fazer.”

No entanto, mesmo com objetivos alcançados e novos trabalhos, a banda percebeu que o mercado musical brasileiro não é simples - muito pelo contrário. Diversos artistas não conseguem se sustentar por meio da arte, um incômodo para Botelho.

"Conforme fomos crescendo, descobrimos que literalmente ninguém sabe de p***a nenhuma. Tá todo mundo perdido. A gente rodou o Brasil tocando com as maiores bandas independentes daqui e a gente vê 'cara, a galera não ganha bem, não consegue ter só o emprego da música.' Então é uma coisa muito triste e muito assustadora [...] Por que diabo as pessoas não estão conseguindo carreira?", perguntou o vocalista.

Para Botelho, a melhora da situação artística brasileira pode ser alcançada por meio de um cenário musical do rock mais unido, onde bandas possam se apoiar e dar visibilidade umas às outras.

Segundo o vocalista, a Lupa não teve apoio de um grupo maior - um reflexo da indústria nacional do rock: "Tem todos os estilos que estão dominando o mercado hoje, sertanejo, pagode, funk, é um ciclo que não tem fim. São os artistas que alimentam, [...] lançam uma parceria e pegam um pequeno, aí o grande ganha dinheiro com o pequeno e vice-versa, e o público vai se renovando. Mas o rock não tem isso, meu deus.. olha que idiotice. Escolha burra. Honestamente, não é assustador isso?"

Botelho continuou a crítica ao cenário do rock e explicou que não bastam parcerias com outras bandas menores, e sim um apoio em conjunto: "Temos os dinossauros do rock, Capital Inicial, Titãs, Skank, Paralamas, e o que tem novo depois? [...] Se a gente tivesse, eu acho, esse ciclo mais bem segmentado a gente poderia estar ocupando lugares tão incríveis, sabe? A gente não ia precisar ficar se escondendo [...] Então estamos tentando fazer as coisas correrem por fora disso."


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