Com histórias inéditas e universais, Tales quer expandir o Hip-Hop para além das comunidades negras: ‘A cultura Hip-Hop dominou o mundo’ [ENTREVISTA]

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Irv Gotty, criador da série, falou sobre a recepção da produção e a importância de se pensar o entretenimento

Camilla Millan I @camillamillan Publicado em 27/03/2021, às 13h00

None
Cena de Tales, série do canal BET criada por Irv Gotty (Foto: Divulgação)

“O Hip-Hop está na vanguarda, é o líder da cultura porque tem feito muito sucesso. Juntou todas as raças porque negros, brancos, espanhóis… Todos ouvem a música,” explicou Irv Gotty, criador da série Tales, em entrevista à Rolling Stone Brasil

A primeira temporada da série estreou na sexta, 26 de março, com o lançamento gratuito pela Pluto TV, do canal Black Entertainment Television (BET), voltado às comunidades negras. Ele foi lançado nos Estados-Unidos em 1983 e está disponível em outros 75 países.

+++LEIA MAIS: Conheça BET, canal gratuito da Viacom voltado para comunidade negra

Com 100% da programação produzida e estrelada por afrodescendentes, a plataforma chega ao Brasil com produções dubladas e propõe a expansão das culturas pretas globalmente - e Tales é uma das séries que lideram a empreitada. Contudo, Irv Gotty enxerga o seriado para além dos espectadores negros.

O Hip-Hop em Tales

O criador da série também é produtor musical, e trabalhou com discos e singles de diversos artistas como Jennifer Lopez, JaRule e Kanye West. E foi por “amor à cultura Hip-Hop” que Tales surgiu.

+++LEIA MAIS: Forbes contesta fortuna de Kanye West: 'Vale menos de um terço disso'

A série tem a premissa inovadora de transformar hits do Hip-Hop em histórias inéditas. Cada episódio se inspira em uma música para apresentar diferentes narrativas, personagens e, inclusive, gêneros. Com isso, “Fuck Tha Police”, do N.W.A, é retratada de forma dramática e "Trap Queen", de Fetty Wap, transforma-se em uma história de amor, por exemplo.

Gotty inova na abordagem do Hip-Hop, e o motivo é maneira na qual ele enxerga o gênero como universal. Por isso, o criador não quer uma produção exclusiva para audiências negras  e pede para o BET promover essas histórias para os mais diversos públicos:

+++LEIA MAIS: O Hip-Hop no TikTok: expansão da dança ou desvalorização do profissional? [ENTREVISTA]

“Se o BET destinasse [Tales] a todas as pessoas, pois todos amam a cultura [Hip-Hop], seria a maior rede de TV do mundo. Adoram a cultura hip-hop, que é negra, então eles deveriam promover Tales para brancos, asiáticos… Todos, não apenas negros,” explicou o produtor musical.

Na concepção de Gotty, por se tratar das culturas negras, incluindo o Hip-Hop, BET deveria ter os programas mais assistidos e avaliados da televisão. Contudo, para isso, precisariam “promover [as produções] ativamente para todos.”

+++LEIA MAIS: 4 documentários sobre a cultura do hip-hop para assistir na Netflix


A importância do entretenimento

Além de entender a série como um importante potencializador da cultura Hip-Hop mundo afora, Irv Gotty acredita que uma das grandes funções da produção é o entretenimento no sentido mais simples: levar as pessoas para longe da realidade. Em tempos de pandemia, crise financeira e caos político, talvez isso seja, de fato, essencial.

Apesar de ficar disponível no Brasil na sexta, 26, a primeira temporada de Tales estreou nos Estados-Unidos em 2017, e o conteúdo permanece atual e necessário. A produção fala sobre racismo e violência policial, mas tem o principal objetivo de entreter - essencialmente em tempos difíceis, como os atuais. 

+++LEIA MAIS: George Floyd, antes de ser brutalmente assassinado, era Big Floyd e deixou legado lendário no rap de Houston

Ao falar sobre Tales e a seriedade na qual entende o entretenimento, Irv Gotty relembrou a infância: “Quando era menino, era o caçula de oito filhos. Cresci muito pobre e costumávamos amar os programas de TV, como The Cosby Show. Ficávamos entretidos por aquela meia hora em um tipo de liberação onde você se sente feliz e bem por um curto período de tempo. Esse é o ponto. Essa é a verdadeira importância: afastar as pessoas de tudo.”

Dessa forma, o entretenimento, inclusive a série Tales, ganha uma grande potência no momento atual: “Passamos por tempos difíceis, talvez as pessoas perderam empregos ou estão prejudicadas financeiramente. É a hora do entretenimento. Se as pessoas assistirem Tales por aquela hora, elas podem rir, brincar, ficar com medo e, talvez, isso os tire da batalha diária de suas vidas. É por isso que levo isso tão a sério,” disse Gotty.

+++LEIA MAIS: Michael B. Jordan pode ser 1º Superman negro do cinema, diz site


Versatilidade e recepção

Ao se inspirar em diversas músicas, Tales consegue ser extremamente versátil. No exterior, a série já lançou duas temporadas e foi renovada para uma terceira em 2021 - e em cada uma delas, o seriado inova.

Com episódios que passeiam entre romance, terror, comédia e drama, a série se apresenta enquanto uma produção diversa e para todos os públicos. Não é coincidência a recepção positiva de vários espectadores.

+++LEIA MAIS: Com crônicas sensíveis, Homens pretos (não) choram quebra estereótipos enquanto Stefano Volp fala sobre masculinidade na ficção: ‘Quanto mais vulneráveis somos, mais se identificam’ [ENTREVISTA]

“Estou muito orgulhoso de como minha cultura hip-hop respondeu a Tales e a amou. As pessoas realmente se divertem (...) Não é como uma série normal que mostra os mesmos personagens e se não vi as temporadas um e dois, então preciso voltar. Tales é uma série de antologia, você pode assistir cada episódio sozinho, eles são independentes, assim como as histórias que contamos”, disse Gotty.


Como o Brasil receberá Tales?

No Brasil, o criador acredita que a produção será recebida da mesma maneira: com diversas críticas positivas. O motivo? Irv Gotty entende as narrativas da série como universais e perfeitas para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. 

+++LEIA MAIS: Black Is King: Álbum visual de Beyoncé é uma lição decolonial sobre as diferentes Áfricas: 'Dá espaço para culturas fora da compreensão dominante'

Um dos episódios com mais destaque da série é “Fuck The Police”, inspirado na música do N.W.A. O capítulo representou a estreia de Irv Gotty como diretor - e ele acredita ser um dos mais fáceis de se identificar.

"No Brasil tem opressão, polícia, talvez brutalidade policial? Então vão amar ‘Fuck The Police’ episódio da primeira temporada. É sobre a brutalidade policial e o que eu fiz? Inverti os mundos para que pessoas brancas recebessem tiros e os adolescentes brancos fossem mortos. Tudo o que acontece com os negros na vida real, descrevo isso acontecendo com os brancos para mostrar a eles como é uma me***", explicou.

+++LEIA MAIS: Como violência policial e racismo são normatizados pela produção audiovisual brasileira [ANÁLISE]

Gotty continuou: “Você vê o garotinho branco de quinze anos vestindo um moletom. É racialmente traçado e eles matam. Você consegue entender como isso é f***. Isso é o que realmente aconteceu com Trayvon Martin [adolescente de 17 anos morto a tiros por um segurança em 2012].”

Segundo o criador, a união de episódios como o “Fuck The Police” com outros que abordam, por exemplo, histórias de amor, são o grande motivo do sucesso da série. Para ele, o ponto principal é fazer as pessoas se identificarem - inclusive, no Brasil.

+++LEIA MAIS: Afrofuturismo: como essa revolução cultural tomou o mainstream de assalto e chegou inclusive à Marvel com Pantera Negra

“Uma história de amor é universal. Não me importo de onde você é. Você quer ser amado? Você pode se identificar. Estar apaixonado é tão universal. Portanto, a maioria das histórias de cada episódio é universal. É por isso que funcionará bem no Brasil, na China…”

Ficou curioso para assistir Tales, série de Irv Gotty? A produção já está disponível no BET, lançado no Brasil como parte do catálogo de programação da Pluto TV. A programação inclui diversas séries e filmes que podem ser conferidos neste link ou em aplicativos da Apple e Android.


+++ SIGA NOSSO SPOTIFY - conheça as melhores seleções musicais e novidades mais quentes


 +++ KANT | MELHORES DE TODOS OS TEMPOS EM 1 MINUTO | ROLLING STONE BRASIL