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Dinosaur Jr. é reverenciado pela nova geração do rock e tem noite de mestre no Converse Rubber Tracks Live Brasil

Quarto dia do festival ainda contou com os brasileiros Churrasco Elétrico e Single Parents, além do canadense F*cked Up

Lucas Brêda Publicado em 03/08/2014, às 12h21 - Atualizado em 04/08/2014, às 19h44

Dinosaur Jr. no Cine Joia

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Um mestre e seus discípulos. Esta foi a cara da quarta noite do festival Converse Rubber Tracks Live Brasil, dedicada ao rock alternativo. Uma das maiores bandas do gênero em todos os tempos, o Dinosaur Jr., fez um show irretocável, acompanhado por três grupos diretamente influenciados pelo som de guitarras altas e barulhentas: o Churrasco Elétrico, o Single Parents e o F*cked Up.

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O primeiro deles a se apresentar, o Churrasco Elétrico, subiu ao palco do Cine Joia quando o relógio se aproximava das 22h de sábado, 2º. Comandado pelo alto e desengonçado vocalista Lucas Gorla, o grupo mesclou covers e faixas do EP Vol. 1, incluindo “Os Impostores”, gravada pelo projeto que dá nome ao festival. A música é a mais criativa do repertório do Churrasco Elétrico, conduzida pela cintilante guitarra de Fábio Farello.

A outra banda brasileira a tocar na noite foi o Single Parents. Com o setlist baseado no álbum Unrest (2012), o grupo paulistano teve grandes momentos apresentando o shoegaze de guitarras estridentes com influência intrínseca da grande atração da noite, o Dinosaur Jr. – a qual os integrantes do Single Parents não mediram as palavras para mostrar a devoção.

O Single Parents ainda reeditou a parceria com Lou Barlow – baixista do Dinosaur Jr. – da recente passagem da banda em que ele é vocalista, o Sebadoh, pelo Brasil. Com Barlow ao microfone, o grupo tocou “Magnet's Coil”, do disco Bakesale, lançado pelo Sebadoh em 1994. Foi um dos primeiros momentos da noite em que a plateia comemorou com veemência uma música. Assim como o Churrasco Elétrico, o Single Parents ficou por cerca de meia hora no palco.

Relembre: Sebadoh fez estreia em São Paulo após 27 anos e entregou tudo a que os fãs têm direito: distorções e candura.

F*ucked Up

Primeira atração internacional da noite, o F*cked Up fez questão de deixar o nome marcado na memória do público presente no Cine Joia. E não tanto pela música – um hardcore com base (novamente) em três guitarras e nos vocais gritados de Damian Abraham –, mas pelo próprio vocalista, com uma animação que beirava insanidade. Em menos de cinco minutos em cena, Abraham já havia tirado a camisa e estava em cima da grade que separava o público do palco. Ele fez o microfone de brinquedo, rodando no ar, se enrolando nos fios e enfiando o instrumento na boca.

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Abraham passou a maior parte do show infiltrado no meio do público, distribuindo beijos e abraços ensopados de suor em pessoas da plateia. O vocalista chegou a atravessar a casa de shows, subindo na mesa em que as bandas vendiam discos e camisetas, localizada no extremo oposto ao palco. O F*ucked Up parecia ser duas bandas diferentes: uma formada pelos guitarristas, baterista e baixista segurando o instrumental, e outra apenas por Abraham, causando uma confusão no público, que não sabia se procurava pelo vocalista ou se fixava o olhar no palco.

A apresentação foi pulsante, e gerou diversas rodas de pogo e muito empurra-empurra, quando a música ficou, na maior parte do tempo, em segundo plano. Na faixa “Sun Glass”, Abraham dividiu os vocais do refrão com alguns fãs que encontrava em sua interminável caminhada. O frontman ainda elogiou as lojas de discos e o hardcore brasileiro, antes de dizer que o primeiro show que ele viu na vida, aos 14 anos de idade, foi o do Dinosaur Jr.

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O reinado do Dinosaur Jr.

Quando deu as caras pela primeira vez, às 1h15, J Mascis trazia consigo a representatividade de ser um dos maiores mestres do rock alternativo. E os longos e lisos cabelos brancos só aumentavam a aura em cima da imagem de ancião cultivada ao longo dos anos em que comandou o Dinosaur Jr. E só a presença de Mascis já era suficiente para causar um frenesi na plateia.

Em um total contraste com a apresentação anterior, os integrantes do Dinosaur Jr. limitaram a “obrigados” o contato com a plateia. Aliás, a indiferença dos músicos se estende aos próprios companheiros de banda. Como três pilares, guitarra, baixo e bateria parecem elementos quase independentes: Mascis comanda solos magistrais de olhos fechados; Barlow delicia-se nas notas agudas do baixo, escondido no emaranhado de cabelos; Murph entrega viradas complexas com a concentração de um cirurgião, na bateria.

Do longínquo You're Living All Over Me (1987), a banda tocou em sequência “The Lung” e “In a Jar”, emendando, em seguida, “Watch The Corners”, de I Bet on Sky (2012). Ao vivo, as músicas do Dinosaur Jr. não parecem ter quase trinta anos de diferença. “Pieces”, de Farm (2005), ganhou espaço no repertório do show, que chegou ao seu auge com a dupla “Out There” (Where You Been, 1993) e “Feel the Pain” (Without a Sound, 1994) – esta, a mais emocionante da apresentação.

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Quando o grupo promoveu uma volta ao primeiro álbum, Dinosaur, de 1985, na faixa “Forget the Swan” – cantando por Barlow –, Mascis engatou o maior solo da noite. Maior em duração e qualidade. Tratando com carinho sua Fender Jazzmaster surrada, o frontman do Dinosaur Jr. parece viajar a um mundo aflito e angustiante, externando um solo de guitarra ardiloso e particularmente inspirado.

Não era preciso, mas a banda ainda retornou ao palco para um bis de três músicas, com destaque para “Sludgefeast” e um encerramento tão inesperado quanto desnecessário com Damian Abraham assumindo o microfone. E foi o vocalista do F*cked Up que protagonizou a cena mais marcante da noite, quando reverenciou ajoelhado os integrantes do Dinosaur Jr. Enquanto o público implorava por mais uma ou duas canções, J Mascis, Lou Barlow e Murph se retiravam do palco, ponto fim à quarta noite de Converse Rubber Tracks Live Brasil no Cine Joia.

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